<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521</id><updated>2012-02-16T20:52:09.809-08:00</updated><category term='Quadrilogia'/><category term='Maria'/><category term='Trilogia de Bar'/><category term='Casimiro Vicente Andrada e a História retorcida do Brasil'/><category term='Quo'/><category term='Possessia'/><category term='R.-F.'/><title type='text'>pirilampos, poltergeists e paquidermes</title><subtitle type='html'>relatos ficcionais.
assuntos quase interessantes.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>69</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-3627072283493970152</id><published>2012-01-06T18:51:00.001-08:00</published><updated>2012-01-06T19:00:15.637-08:00</updated><title type='text'>aureliano, o onírico</title><content type='html'>A Lia,&lt;br /&gt;A qual o sonho não imita&lt;div&gt;&lt;br /&gt;A piscina olímpica se extendia até a beira do penhasco. Trinta metros abaixo, enormes rochas cinzentas, cobertas de limo, velavam em submersão metade do seu corpo; e o oceano, aos poucos, se preparava para engolir as pedras por completo e ir alisando a falésia até o topo. Enquanto isso, a água tratava de banhar o resto da baía, um semicírculo-semiperfeito. A profundidade do mar era definida pelo formato côncavo do terreno alagado, com o seu nadir situado a dezenas de metros abaixo da superfície. Emergindo da água límpida, baleias-jubarte, aglomeradas em cardumes, pulavam sincronizado e acrobaticamente, caindo de maneira desengonçada, de forma que respingavam água em toda a costa.&lt;br /&gt;Da borda da piscina olímpica, Aureliano observava a majestade dos movimentos baleiares. Quando contorcia o torso para mirar o que estava atrás de si, dava de cara com os cinquenta metros de extensão, vinte e cinco de largura e dois de profundidade preenchidos com mais de 2,5 milhões de litros d'água. E se banhando nos 2,5 milhões, dividindo-se entre as oito raias, estavam todas as pessoas que Aureliano já conhecera um dia. Não podia contar, calcular, analisar e concluir matematicamente que se tratavam, de fato, de todas as pessoas com as quais se relacionara. Porém sentia que era isso mesmo. Algumas se destacavam – não necessariamente por importância: Eleonora, a caixa do &lt;i&gt;self-service&lt;/i&gt; que frequentava no Brasil; Arcádio, seu irmão gêmeo; Rémy, um hippie francês que conheceu num dos primeiros dias na Alemanha; e Tarcísio, seu melhor amigo da escola.&lt;br /&gt;Ao redor da piscina olímpica, a aridez tomava conta. Gretas marcavam o chão alaranjado, empoeirado e seco. Quanto mais distante, maiores essas fendas, observação que fazia Aureliano supor que, a certa altura, um cânion se formaria; e que, mais adiante, fissuras de proporções incalculáveis cortariam a crosta e o manto até o núcleo; e que, ainda mais longe, toda a terra do mundo se extinguiria para dar espaço a um vácuo. E a sensação de permanência que a cena antes proporcionava – o mar, as pedras, os rostos conhecidos... – foi logo substituída por um abismo existencial, cadafalso de altura. E o penhasco era logo ali, onde seus pés já estavam balançando no ar, enquanto ele se decidia se olhava as baleias ou as pessoas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando ele se decidiu olhar as pessoas, elas já não haviam;&lt;br /&gt;E quando ele se decidiu olhar as baleias, o penhasco dava no vácuo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aureliano acordou. Eram sete horas da manhã, entretanto, o Sol ainda não se levantara, consequência da aproximação do solstício de inverno.&lt;br /&gt;“Saturnália infernal!”, praguejou .&lt;br /&gt;Havia ido para a cama de madrugada e não estava ainda pronto para se levantar. A orelha esquerda, que encostava no travesseiro, percebia o palpitar das veias do corpo. Os membros superiores e inferiores haviam perdido toda a mobilidade; era virtualmente impossível mexê-los. Disposto a continuar com o sonho, Aureliano resolveu se concentrar no projeto de adormecer.&lt;br /&gt;Em cima da mesa-de-cabeceira, o novo relógio de corda que comprara tiquetaqueava cada vez mais alto, impossibilitando o adormecimento.&lt;br /&gt;“Se eu me der o trabalho de tirar as pilhas, perco o sono. Se eu deixá-lo tocando, nunca vou adormecer”.&lt;br /&gt;Tic.&lt;br /&gt;“Eu vou desligá-lo”.&lt;br /&gt;Tac.&lt;br /&gt;“Eu o deixo sonando”.&lt;br /&gt;Tic.&lt;br /&gt;“A luz está vindo”.&lt;br /&gt;Tac.&lt;br /&gt;“Acho que o sono também”.&lt;br /&gt;Tic.&lt;br /&gt;“Não vai dar”.&lt;br /&gt;Tac.&lt;br /&gt;“Vai!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando o sol já brilhava forte – como um dia de verdade –, o relógio se metamorfoseou num metrônomo, oscilando a setenta batidas por minuto, em &lt;i&gt;Adágio&lt;/i&gt;. E quando Aureliano adentrava a loja de música, marchando docemente no piso de madeira, o movimento da ópera já estava num &lt;i&gt;Andante&lt;/i&gt;, algo em torno de noventa batidas por minuto. E no meio da sala, sentado num banco, estava um senhor de sessenta e poucos anos, peculiarmente vestido. Usava um colete quadriculado, que cobria a camisa de botão branca de mangas enroladas até a metade do antebraço. A calça social cinza cabia como uma luva nas pernas esguias do senhor, e se extendia ao longo dos membros inferiores até se encontrar com os pés, calçados por sapatos que costumavam ser pretos, mas que haviam sido rusticamente pintados de azul. Ele ainda tinha mãos de maestro, com dedos longos que se movimentavam como se tivessem vida independente.&lt;br /&gt;Aureliano se aproximou do homem de cabelos grisalhos. Com o cotovelo direito apoiado nas pernas e os dedos ao alto pendulando progressivamente – como uma onda –, ele se virou para o cliente:&lt;br /&gt;“Procura um instrumento?”&lt;br /&gt;“Um piano”, replicou Aureliano imediatamente, mesmo sem saber tocar. Porém, em poucos instantes, já se sentava em frente a um cauda-longa, constatando, surpreendentemente, que compreendia seu manuseio; que tinha conhecimento das notas; que tirava um som quando batia nas teclas; que arranhava um trecho de opereta; e que, finalmente, não conheceria outra pessoa que tocasse melhor que si. E na animação, Aureliano foi tocando, progredindo no grau de velocidade do compasso. O que era um&lt;i&gt; Andante&lt;/i&gt; subiu para &lt;i&gt;Andantino&lt;/i&gt;, passou para &lt;i&gt;Moderatto&lt;/i&gt; e pulou direto para &lt;i&gt;Allegro&lt;/i&gt;, a cento e sessenta batidas por minuto, até que um Deus, vestido de toga e com barbas brancas intermináveis, cansado como se acordasse ou renascesse, soprou do céu:&lt;br /&gt;“&lt;i&gt;Allegro, ma non troppo!&lt;/i&gt;” (Allegro, mas não tanto!), em perfeito italiano, e a música desceu para um gentil &lt;i&gt;Allegretto&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;Quando Aureliano terminou, o homem de cabelos grisalhos bateu fortes palmas.&lt;br /&gt;“Como você se chama?”.&lt;br /&gt;“Aureliano”, respondeu, gaguejando um pouco.&lt;br /&gt;“Wagner, prazer. Aureliano, você gosta de Buster Keaton, ou Charles Chaplin, ou Jacques Tati?”.&lt;br /&gt;“Evidentemente. Dos três”, respondeu Aureliano, querendo demonstrar sua condição de cinéfilo.&lt;br /&gt;“Eles tinham coordenação motora e reflexo excelentes”, comentou Wagner, enquanto fazia seu trejeito ondular com os dedos, “no entanto, seus personagens eram completamente desajeitados; destruiam tudo o que pegavam. Caos do movimento!”.&lt;br /&gt;“Eu gosto de mexer nas coisas. O que tiver ao alcance da minha mão, eu vou, inevitavelmente, tocar. Mas o objeto que eu tiver manuseando tem mais probabilidade de quebrar do que com qualquer outra pessoa. Eu sou como um bebê desenvolvendo, justamente, a coordenação motora e o reflexo”.&lt;br /&gt;“Não foi o que me pareceu agora”.&lt;br /&gt;“Agora não vale...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desta vez, foi som do alarme que acordou Aureliano. Tinha um compromisso em uma hora e meia e havia comprado o despertador justamente para não esquecer-lhe. A energia que somou para se levantar era a única que lhe restava. Tomou o relógio nas mãos, ajustou a função de acordar para quinze minutos mais tarde e o pousou ao lado de sua cama.&lt;br /&gt;“É só não tomar mais banho”.&lt;br /&gt;E quize minutos mais tarde, sem surpresas, o alarme sonou novamente. Ao que as mãos de Aureliano responderam no reajuste do relógio para avisá-lo do horário meia hora mais na frente.&lt;br /&gt;“Pra quê café-da-manhã? Um pão e um suco no ônibus já são mais do que suficiente”.&lt;br /&gt;E meia hora mais na frente, as mãos de Aureliano lhe cortaram mais um privilégio matinal em detrimento do sono.&lt;br /&gt;“Não sei porque eu insisto em comprar o jornal diariamente; está tudo escrito em alemão! Talvez também seja prudente assiná-lo e recebê-lo em casa”.&lt;br /&gt;Na sequência, o barbear foi-se embora.&lt;br /&gt;“A barba por fazer me proporciona uma aparência de inegável masculinidade e rusticidade intrépida. Vou deixá-la como está”.&lt;br /&gt;A partir daí, a cada cinco minutos, qualquer obrigação, função, ou necessidade que Aureliano precisava cumprir era esquecida, eliminada, ou adiada. Até que, enfim, o grito do alarme se incorporou mais uma vez ao seu sonho e, assim como fez Abraão, o profano – professor universitário e Senhor das Arábias –, Aureliano arrancou com o brio de uma navalha as entranhas de um histérico dragão; disputou condados, províncias, estâncias, comunas, latifúndios e povoados com a ponta da faca; feriu com uma adaga a garganta de um pérfido príncipe; levantou sua espada ao céu para coroar-se rei. E a este sonho, Aureliano deu o nome de &lt;i&gt;Quimera&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;Noutro sonho, castraram-no e expuseram seu falo e saco escrotal na barra de futebol do campo da antiga escola, junto com os órgãos de outros meninos travessos. E a este sonho, deu o nome de &lt;i&gt;Bizarria&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;Numa terceira sequência onírica, era Narciso e bamboava ajoelhado na proa de uma jangada, enquanto mirava seu reflexo glorioso na face da água salgada. A este sonho, deu o nome de &lt;i&gt;Prosápia&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;D'outras cinco ficções que lhe apareceram no sono não se lembrou, exceto de uma última, em que estava deitado na cama, os membros acorrentados ao chão, uma bigorna se equilibrando em seu ventre e uma tela luminosa que piscava – defronte seus olhos desprovidos de pálpebras – palavras de terror e ódio.&lt;br /&gt;Pela última vez no dia, Aureliano se despertou. Checou os punhos e tornozelos e conferiu se havia algo assentado em sua barriga. Nada. Mesmo assim, não conseguiu se levantar.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-3627072283493970152?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/3627072283493970152/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=3627072283493970152&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/3627072283493970152'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/3627072283493970152'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2012/01/aureliano-o-onirico.html' title='aureliano, o onírico'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-160623679227709626</id><published>2011-10-14T08:53:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:13:33.986-08:00</updated><title type='text'>abraão, o profano</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Que não gostou deste texto&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;No assento posterior do ônibus, Abraão dividia considerações entre seu nome bíblico e pensamentos profanos. Em menos de um mês de viagem, cometera atos ignomínicos de escala nunca alcançada por este carismático professor universitário de Direito Internacional. O que havia mudado no comportamento outrora criterioso e moderado de Abraão, bom profissional, casado, pai de um (o dois a caminho)?&lt;div&gt;Uma lombada.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A mala de tamanho médio, arrumada de maneira meticulosa - calças no fundo, camisas em rolo, meias preenchendo os espaços vazios, &lt;i&gt;necessaire&lt;/i&gt;, sapatos etc. -, tombou no chão. Abraão se sentiu obrigado a emergir da névoa do pensamento e se preocupar com as lembranças compradas na França, Marrocos e Argélia (um isqueiro com a Torre Eiffel gravada em tinta preta, cinco pacotes de tabaco Camel - mais filtros e seda de enrolar -, chocolates, o casco de uma bala de canhão da Batalha de Argel, cuja superfície fora banhada a ouro e modelada com ornamentos floridos, um turbante azul claro com minúsculas tulipas liláses bordadas, dentre outras quinquilharias, artefatos, bagatelas, ninharias e parafernálias). Após rápida, porém escrutinosa, análise dos seus pertences, Abraão fechou o zíper da bagagem e voltou sua atenção ao cenário cinematográfico e reminiscente que se formava na sua cabeça...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O fim do verão parisiense promove algumas das visões mais entusiasmantes de beleza e sensualidade que um homem de meia idade pode presenciar. As colegiais caminhando para os primeiros dias de aula com suas pernas descobertas, ainda sem usar as meias-calças quase obrigatórias do outono, e as saias farfalhando aleatoreamente, acariciadas pelo vento das saídas de ar das calçadas. Passo a passo, as moças provando que as coxas francófonas não falham em anunciar alto e claro a rigidez de cada músculo. Abraão sentiu-se provocado pela miragem. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Peregrino do mundo, entretanto, o professor tem uma tática para evitar tentações do velho continente. Imagina vividamente o &lt;i&gt;derrière&lt;/i&gt; moreno e bem modelado da esposa - antes, é claro, da existência dos dois filhos (um a caminho, não se esqueçam!).  A cada pé que a francesinha lança ao além - com o sentido exclusivo de andar, e não de seduzir -, Abraão sente as nádegas da cônjuge tremerem como um terremoto na sua imaginação. Mas o plano mal elaborado do senhor bacharel, em vez de fazer neutralizar a sedutiva cena, multiplica o efeito; e Abraão segue a menina aonde ela vai. Cada passo, a perna impecável da moça, o traseiro colossal da esposa, uma ofegada bovina do professor. E é numa brecha do tempo e espaço que Abraão se transporta com a menina para o topo de um monte, em época remota de barbárie e rudeza, só para penetrar-lhe sua espada com equina autoridade, até que o sangue versasse sobre o asfalto secular de Paris, e sem que anjo, arcanjo, querubim, serafim, ou qualquer outro ordenado da hierarquia dos céus pudesse intervir no último momento. &lt;/div&gt;&lt;div&gt;Mais tarde, comemorou o gozo com quinhentos mililitros de cerveja comprados num bar de estilo irlandês, cujo preço dos produtos era ridiculamente superestimado. Sentiu-se violado pela quantia monetária a qual teve de abdicar para aproveitar o efeito inebriante da bebida, daí que pousou o copo dentro da mochila e saiu em direção às tais montanhas, sem nunca olhar para trás. No dia seguinte, partia para o Marrocos, continuar sua atividade de professor convidado no continente africano.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A única cidade do Marrocos que conheceu mesmo foi Marraquéxe. Se incomodou com outros professores brasileiros que lhe acompanhavam, cantando incessantemente a letra de Caetano Veloso enquanto bebiam o vinho da terra vendido a uma módica quantia por interesseiros, interessados e interessantes nativos. Pensando na excursão que faria ao Saara no dia seguinte com os colegas, refletiu que o deserto seria o lugar perfeito para fazer desaparecer alguns desses imbecis. Ao confabular o desejo, só cometeu o erro de vocalizar em alto e bom tom seus planos homicidas. Contudo, para sua sorte, todos os digníssimos acadêmicos estavam inteiramente engajados e concentrados em um bacanal, onde cultuavam zoofílicamente o ânus de um bezerro.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Cinquenta dias após, os corpos de dois dos bacharéis brasileiros seriam encontrados sob a areia saariana. Suas mãos esquerdas estariam grudadas uma no pênis do outro e as pernas ancoradas por uma corrente a uma enorme pedra, além de marcas de violação ao longo das duas epidermes. Numa placa que se encontraria perto da cena, as palavras "masturbação eterna" estariam cravadas em letras garrafais. O pedaço de madeira também traria o desenho de um camelo com duas enormes genitálias masculinas sendo circundado por uma cobra autofagista. A perícia deduziria  que houvera sido um ato suicído-pederasto-masoquista, um atentado à vida e aos valores de honra, performatizado numa infame liturgia por uma seita infernal, provavelmente do Oriente. Nem nos primeiros dias (nem nunca, na verdade, apesar do caráter exdrúxulo da cena), os integrantes da excursão foram questionados pela polícia à respeito do sumiço dos dois; e Abraão pôde seguir livre e despreocupado para sua última destinação, a cidade de Argel, onde não daria palestras ou aulas, mas procuraria certas raízes de sua família, que, durante o final do século dezenove e a primeira metade do século vinte, morara na capital.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Em Argel, o professor muito se decepcionou. O liceu onde estudara o avô tinha sido destruído, assim como a casa onde habitara. Não conseguira encontrar o hospital onde sua avó padecera de alguma enfermidade desconhecida e, exceto pelas praças e prédios principais, não reconhecera sítio algum que seu pai lhe descrevera. Frustrou-se! A maneira megalomaníaca como entendia sua estirpe o impedia de conceber que a cidade crescera deixando para trás todo vestígio de que um dia, ali, moraram seus ancestrais. O único conforto foi um antigo amigo francês da família, Balthazar, que morava próximo à Praça dos Mártires, e que o recebeu. Por oito dias, partilharam histórias de navegadores e ilusórios complexos de grandeza; Abraão se comparando a soberanos reis medievais, enquanto Balthazar se fantasiava um pomposo Xá persa. O francês contava com os delírios senis como fio condutor da história, enquanto o professor declamava agressivamente venturas inventadas, guiado pelo recém-descoberto espírito selvagem.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Disputaram, na varanda da casa, um reino inteiro, fazendo soar bramidos metálicos de espadas (tratavam-se, na realidade, de cabos de vassoura). Jogaram ao alto preces subservientes aos deuses, assim como gritaram heresias inimagináveis. Comandaram exércitos imensos em batalhas eternas, onde seres celestes se emparelhavam a homens ordinários para ver e fazer sangrarem as bestas-gente de guerra, cegamente leais aos seus líderes. Viveram, simultaneamente, a velhice e a infância, as quais, muitas vezes, acabam por ser a mesma coisa. E, enfim, cansaram-se. No último dia, como havia de ser - literariamente, havia de ser -, Balthazar cansou-se para todo o sempre. E Abraão, como havia de ser, tomou para si o trono de Senhor das Arábias, que lhe era de direito, e decidiu reinar lá no Brasil. Juntou seus pertences meticulosamente numa mala - calças no fundo, camisas em rolo, meias preenchendo os espaços vazios, &lt;i&gt;necessaire&lt;/i&gt;, sapatos, lembranças da França, Marrocos e Argélia etc. - e foi arranjar um transporte dígno de si mesmo que o levasse ao aeroporto.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Do assento posterior de um ônibus imperial, saltou no seu destino. Na volta da África, enquanto o avião decolava, aquela terra de condenados queimou sob o Sol forte até se fazer desaparecer, enquanto Abraão, desfrutando de um pacote de amendoim que guardara na mochila, pressagiava para si uma grande família, uma vida longa e uma eternidade de nobreza pela frente.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-160623679227709626?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/160623679227709626/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=160623679227709626&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/160623679227709626'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/160623679227709626'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2011/10/abraao-o-profano.html' title='abraão, o profano'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-6228940643352187147</id><published>2011-05-19T18:53:00.000-07:00</published><updated>2011-05-19T18:57:58.882-07:00</updated><title type='text'>Notícia para a disciplina de Jornalismo Científico</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify"&gt;&lt;span style="font-size:12.0pt;line-height:115%;font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;ENERGIA&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify"&gt;&lt;span style="font-size:20.0pt;line-height:115%;font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;Estudo avalia a possibilidade de se instalar turbinas eólicas em prédios de Boa Viagem&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify"&gt;&lt;i style="mso-bidi-font-style:normal"&gt;&lt;span style="font-size:12.0pt; line-height:115%;font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;Mestrando da UFPE acredita que a área do Parque dos Manguezais é ideal para a implatação de turbinas eólicas no topo de prédios&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/i&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify"&gt;&lt;span style="font-size:12.0pt;line-height:115%;font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count:1"&gt;            &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify"&gt;&lt;span style="font-size:12.0pt;line-height:115%;font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;André Valença&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify"&gt;&lt;span style="font-size:12.0pt;line-height:115%;font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Times New Roman', serif; line-height: 18px; "&gt;Passeando pelas ruas do Recife, o mestrando em Engenharia Mecânica/Energia Eólica pela UFPE Daniel Valença observava a paisagem urbana. Ao contrário da maioria dos moradores, que direciona a sua concentração para o plano horizontal da cidade, Daniel observava o topo dos prédios, via as antenas de celular pendendo no alto e as imaginava turbinas eólicas girando. Após pesquisar sobre o assunto, descobriu que a instalação de turbinas no topo de prédios é um sistema adotado em diversos lugares do mundo, inclusive em algumas cidades do Brasil. Atualmente, ele pesquisa em seu mestrado a viabilidade da instalação de tais turbinas (também chamadas aerogeradores) nos prédios que se localizam ao redor do Parque dos Manguezais, situado entre o Pina e Boa Viagem.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify"&gt;&lt;span style="font-size:12.0pt;line-height:115%;font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count:1"&gt;            &lt;/span&gt;A idéia é instalar os geradores em cima dos prédios para que eles produzam energia suficiente para suprir o consumo dos condomínios, tais quais bombear água e acender as luzes dos corredores, dos saguões, da portaria etc. No caso da cobertura pertencer a algum morador, a energia serviria, por exemplo, para cobrir o custo do aquecimento da água, entre outras funções. A primeira dúvida que a população pode ter é a respeito do tamanho das turbinas. Acostumadas a ver os grandes geradores, como aquele situado em Olinda, na frente do Espaço Ciência, tamanho pode parecer uma preocupação. Mas, segundo Valença, “os aerogeradores são de pequeno porte, têm por volta de dois metros de diâmetro”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify"&gt;&lt;span style="font-size:12.0pt;line-height:115%;font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count:1"&gt;            &lt;/span&gt;Para calcular como pôr esses pequenos geradores nos prédios, o pesquisador usou o aplicativo de mapas da Google (GoogleMaps) para criar um mapa tridimensional da área pretendida e, com os dados da velocidade dos ventos fornecidos pelo Instituto de Meteorologia (INMET), criou uma simulação em computador que o permitiu identificar os pontos de maior velocidade de vento, que são os mais propícios à extração de energia.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify"&gt;&lt;span style="font-size:12.0pt;line-height:115%;font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-family: 'Times New Roman', serif; line-height: 18px; "&gt;O passo seguinte foi analisar a qualidade dos edifícios como suporte. Pesquisas revelaram que eles são duplamente proveitosos para esse tipo de aplicação. Em primeiro lugar, elimina a necessidade de uma torre que elevaria os aerogeradores e que custa por volta de US$ 7 mil. Em segundo, a estrutura dos edifícios ajuda ainda mais a acelerar o vento e projetá-lo para cima.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="margin-bottom:0cm;margin-bottom:.0001pt;text-align: justify"&gt;&lt;span style="font-size:12.0pt;line-height:115%;font-family:&amp;quot;Times New Roman&amp;quot;,&amp;quot;serif&amp;quot;"&gt;&lt;span style="mso-tab-count:1"&gt;            &lt;/span&gt;Contudo, as turbinas geralmente têm um problema. Como elas funcionam à vento, este chicoteia as hélices, gerando um alto ruído. Valença assegura que não há problema: “atualmente, existem aerogeradores projetados para o ambiente urbano, que geram muito menos barulho”. Outros mitos, como o de que as hélices matam pássaros também deixam a população alerta. Contudo, não passa disso, dados demonstram que prédios matam muito mais do que hélices de aerogeradores. A última inquietação que pode haver é acerca da poluição visual, mas o pesquisador rebate a acusação: “beleza é algo subjetivo. Em lugares como a Holanda, as turbinas são vistas como uma atração turística. E, além do mais, as turbinas das quais eu falo não causam um impacto maior do que as antenas de celular no topo dos prédios”.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-6228940643352187147?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/6228940643352187147/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=6228940643352187147&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6228940643352187147'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6228940643352187147'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2011/05/noticia-para-disciplina-de-jornalismo.html' title='Notícia para a disciplina de Jornalismo Científico'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-7155011073360996221</id><published>2011-02-23T18:06:00.000-08:00</published><updated>2011-12-04T19:14:28.944-08:00</updated><title type='text'>Escritor-latente</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Eu-Lia&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Júlio sofria de bloqueio de escritor. Não só naquele momento; vinha padecendo de tão penosa enfermidade desde que se entendia por gente. Nunca havia conseguido arranjar mais que cem palavras num papel de maneira que fizessem sentido, ou que fizessem sentir. Entretanto, não desistia:&lt;br /&gt;– Não tem como bloqueio de escritor ser congênito! Tem que se aprender a escrever antes e, só depois, não conseguí-lo mais!&lt;br /&gt;E justo por isso, com todas as letras, clamava ser um “escritor-latente”. Ainda tinha esperanças no porvir. No agora, tratava de por os pés na estrada quando dava as seis da manhã, retornando à casa do seu emprego de vigia noturno...&lt;br /&gt;– Ofício! – me interromperia – Ofício – se justificaria – é uma palavra muito mais charmosa, não acha? – arremataria, com pose intelectual.&lt;br /&gt;... Retornava, então, à casa do seu ofício de vigia noturno, dava com seu quarto de frente e invadia-o com um passo curto, mas sem timidez, encostando a canela na longa cama. Daí, se locomovia de lado, tal qual caranguejo, e enfrentava a bruta e espaçosa escrivaninha, que também o encarava de frente, com mista expressão de desafio e escárnio. O móvel era o pedaço de madeira mais desajeitado da casa, arte do seu pai, que achara uma grande árvore arrancada – raiz, galhos e tudo – e fizera todos os seus amigos a carregarem até sua casa. Mesmo sem destreza para os segredos da carpintaria, o velho pai serrou, modelou, lixou e passou verniz no tronco, tentando tirar da suposta inutilidade aquele troço inanimado.&lt;br /&gt;– Matematicamente, há uma probabilidade zero de uma escrivaninha se materializar aqui-e-agora – dizia Júlio a seu pai –, a probabilidade é zero, mas é uma probabilidade, &lt;i&gt;quand même&lt;/i&gt;! – demonstrava, esnobando, seus conhecimentos em Matemática e Francês – Mas a probabilidade de o senhor fazer uma escrivaninha, pai, é menos um – brincava. E a raiz de menos um é um número complexo. E complexo mesmo é imaginar o senhor fazendo uma escrivaninha...&lt;br /&gt;Podia continuar nesse patético jogo de associação de palavras o quanto fosse, mas era um exercício puramente verbal – oral, para ser mais preciso –, nada que fosse transponível para um papel.&lt;br /&gt;A escrivaninha, enfim, ficou pronta. Apesar de ficar em pé sem balançar, a superfície era visivelmente inclinada e não havia sido propriamente lixada ou envernizada; e os nós emergiam grosseiramente à superfície. Era maciça e imponente. No mais, o envelhecimento lhe tirara o brilho e a deixara com um charmoso tom marrom-escuro; contava com quase dois metros de largura, com mais um e meio de profundidade e tinha altura suficiente para que Júlio pudesse se sentar na sua cadeira com um de seus fiéis caderninhos e começasse a escrever. E, anos depois, quando seu pai já falecera e passara para o filho a escrivaninha mais amada do planeta, lá estavam Júlio e ela, um olhando para a face do outro, com uma rivalidade fraternal. Um desafio estava sendo lançado; contudo, submergido numa paradoxal situação de reconforto/desolação que advém da certeza de que o vencedor dividirá com o perdedor os louros da vitória, assim como o perdedor partilhará com o que venceu o malogro da derrota; na simbiótica e destrutiva relação dos irmãos.&lt;br /&gt;Era um jogo de cartas marcadas.&lt;br /&gt;Numa madrugada ímpar, em meio a muitas pares, jogou na cama o uniforme azul, que aparentava uma lona velha de circo, despiu-se da calça e da vestimenta íntima, descalçou os sapatos sociais e manteve as meias finas e amarronzadas. Penteou o cabelo quase-longo para trás, de forma que não atrapalhasse a visão, arregaçou as mangas e posicionou o caderninho em cima da escrivaninha. Olhou fixamente para o papel amarelado.&lt;br /&gt;– O papel é desta cor mesmo, ou é a iluminação do quarto? – tal pensamento nunca lhe ocorrera, nunca havia percebido a natureza física do papel de seu caderno, tão preocupado com sua finalidade... – É fino também, né? Fino... finalidade! O papel do papel!&lt;br /&gt;Resolveu se concentrar. Se lembrou, porém, que era de suma importância que tivesse do que falar. Vasculhou bem o seu cérebro e se deu conta de que não tinha domínio específico de nenhuma área do saber. Vasculhou novamente, e se deu com a terrível conclusão de que não tinha, ao menos, conhecimento geral sobre o mundo.&lt;br /&gt;Estapeou a testa: claro que sabia de coisas! Algumas coisas ele sabia, sim, alguns conhecimentos certamente jaziam alojados na sua cabeça. Sabia Matemática, não é? Francês, também! Sabia algo do mundo, é certo! Um tantinho que fosse, sabia. Trabalhava na rua, ora! Claro que sabia! Não se lembrava de nada, mas sabia...&lt;br /&gt;Pensar não parecia ser o método que mais combinava consigo; tentou, então, outra estratégia. Caneta à mão, desfilou, de cima a baixo, palavras que supunha aleatórias, mas que guardavam em si significados, se não óbvios, um tanto obscuros, mas significados, &lt;i&gt;quand même&lt;/i&gt;! Ao fim do exercício, contou vinte e três palavras; e escritinhas ao lado delas, em tinta invisível, havia vinte e três significados:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Bar&lt;/i&gt; – Porque havia combinado de ir a um bar no domingo.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Parede&lt;/i&gt; – Porque a considerava sua melhor amiga.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Relógio &lt;/i&gt;– Porque é um acompanhante lógico da parede.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Intruso&lt;/i&gt; – Assim que se sentia na própria casa.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Pista&lt;/i&gt; – Porque é uma palavra com mais de um significado.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Pensamento&lt;/i&gt; – Pela ausência dele.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Lateral&lt;/i&gt; – Porque “pensamento lateral” é uma espécie de charada que gosta de resolver.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Azul&lt;/i&gt; – Porque é sua cor preferida.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Escritório &lt;/i&gt;– Porque se recusa a trabalhar num.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Verde&lt;/i&gt; – Sua segunda cor preferida.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Respirar&lt;/i&gt; – É isso que fazia enquanto escrevia; se apercebeu disto.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Braço &lt;/i&gt;– É o que segura a sua mão.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Dor &lt;/i&gt;– O braço dói de algum exercício que fizera no dia anterior.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Entorpecer&lt;/i&gt; – Já se sentira assim.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Cancelar&lt;/i&gt; – É verdade! Tinha que cancelar a saída para o bar por conta do exame de sangue na segunda-feira.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Arrastar&lt;/i&gt; – Gosta da sonoridade da palavra. Gosta de estendê-la: “arrasssssstar!”&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Carro &lt;/i&gt;– Um carro passava pela rua no instante em que escrevia.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Som&lt;/i&gt; – Este carro fez um som.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Céu&lt;/i&gt; – “Som” lembra “céu”, não sabia por quê.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Estalar&lt;/i&gt; – Estalou as costas, já cansado de permanecer curvado.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Encantado&lt;/i&gt; – O quão encantado ficava quando o pai o levava ao parque de diversões.&lt;br /&gt;&lt;i&gt;Coruja&lt;/i&gt; – Até a coruja já deve ter ido dormir e Júlio ainda lá, tentando ser escritor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinte e três... 23 era o seu número preferido! Duque e terno, sua peça preferida do dominó! Gostava de dominó.&lt;br /&gt;– Uma das coisas sobre a qual eu tenho domínio!&lt;br /&gt;Voltou a se concentrou nas palavras impressas no papel. Pareciam fazer sentido enquanto as escrevia, mas, agora, mal as conseguia ver; eram só um borrão...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um momento e mil desculpas, que este narrador que vos dirige a palavra agora sofre de um bloqueio também. O que Júlio faz a partir daí? Não vai escrever uma Ilíada ou uma Odisséia, certo estou. Produzir um texto de péssima qualidade também seria decepcionante (frustrante!). Ele não pode, também, desistir e ir dormir, porque eu disse que se tratava de uma madrugada “ímpar” (em meio a muitas “pares”). O que ele faz agora? O... que... ele... faz... agora...? O mesmo que eu, talvez!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sem conseguir decifrar o borrão que dominava o papel, Júlio soltou o lápis e fechou os olhos. Lentamente, abaixou a cabeça até encostar a testa na escrivaninha e por lá ficou alguns minutos, forçando a mente, esticando-a, tentando tirá-la de sua suposta inutilidade.&lt;br /&gt;– Mente... mentir.&lt;br /&gt;Estava cansado de forçar a escrita. O supermercado em frente ao seu apartamento já abrira e os caminhões de descarga chegavam fazendo um barulho constante e infernal. Se pôs de pé bruscamente e olhou pela janela do quarto dois caminhões enormes postados na frente do portão de carga/descarga. Ambos ligados, o barulho do motor funcionando. O som tremia gravemente, poderoso, dominador. Incomodava Júlio como que estivessem a balançar sua cabeça ininterruptamente. Como se houvessem enchido suas orelhas de terra e agora a sacudissem para dentro do cérebro.&lt;br /&gt;– Isso é uma falta de respeito! – gritou – Desliguem o caminhão, tem gente que mora aqui!&lt;br /&gt;Nada.&lt;br /&gt;– Puta que pariu, desliguem a porra do caminhão!&lt;br /&gt;Talvez se tratasse de uma desculpa para procrastinar, mas tomou o caso do caminhão como sua causa própria.&lt;br /&gt;– Caso, causa.&lt;br /&gt;Vestiu uma roupa e desceu as escadas apressadamente. Do quarto andar, passou pelo terceiro, onde uma senhora saía com seu cão para passear. O pequeno York Shire tratou logo de latir tão freneticamente como os passos de Júlio. “É o cão filho-da-puta”, pensou e, sem pensar, reproduziu, para o horror da senhora:&lt;br /&gt;– Cão filho-da-puta!&lt;br /&gt;No segundo andar, passou por um moço simpático colhendo seu jornal do chão, mas não deu a mínima. No primeiro andar, não vagava viv’alma. E, finalmente, no térreo, deu com o porteiro do prédio. Parou instantaneamente. O porteiro não notou sua presença a princípio, mas, em seguida, o saudou, como de costume:&lt;br /&gt;– Professor!, o senhor ainda acordado a esta hora?&lt;br /&gt;– Já disse que não sou mais professor. Sou da massa trabalhadora, que nem você.&lt;br /&gt;– Mas a alma do senhor é de professor, que eu sei!&lt;br /&gt;– O que você entende de alma? Nunca conseguiste arranjar mais que cem palavras num papel de maneira que façam sentido, ou que façam sentir!&lt;br /&gt;– Nem o senhor, segundo o senhor mesmo.&lt;br /&gt;– Não me chame de senhor, já disse! Nem de professor, nem de senhor. Meu nome é Júlio, e se eu nunca escrevi foi puro artifício poético para poder me chamar de “escritor-latente”. Agora, me dá licença, que é a última vez que esses caminhões põem suas rodas aqui.&lt;br /&gt;Saiu de vez das premissas do prédio, enquanto ouvia o porteiro falar para si: “e de filho-da-puta, pode chamar?”. O contato direto com o Sol fez seus olhos arderem, mas não suficientemente para que precisasse parar. Em frente aos caminhões, começou:&lt;br /&gt;– Seus...&lt;br /&gt;Mas antes que pudesse continuar, foi atropelado por um carro.&lt;br /&gt;Mentira.&lt;br /&gt;Na realidade, no momento em que iria desabafar, adquiriu uma mudez psicológica.&lt;br /&gt;Também não é verdade.&lt;br /&gt;O que ocorreu, quando Júlio estava prestes a dizer...&lt;br /&gt;Não dá nem para continuar o que eu ia dizer, pois também se trata de uma mentira.&lt;br /&gt;Nada de mais aconteceu, na verdade. Júlio quedou lá, gritando impropérios dos mais indecorosos, os caminhoneiros sem escutar, os ouvidos protegidos pelo barulho dos motores. A vizinhança sem prestar atenção, preocupada com o rumo das suas próprias vidas. Júlio se cansou e voltou ao claustro do lar.&lt;br /&gt;Há quem argumente que já não é mais madrugada, devido à hora, e que nada de especial ocorreu a Júlio, mas ele ainda não dormiu, então, será madrugada até quando for, portanto que ele esteja acordado.&lt;br /&gt;Em sua Torre de Marfim, o escritor-latente sentou na sua cadeira e encarou a escrivaninha. Encarou os papéis do caderno. Encarou a cama e o colchão. Encarou suas roupas. Notou a dimensão do quarto. Mirou o armário; no topo, havia quatroze garrafas fechadas de vodca russa, cada uma proveniente de uma das quarenta e seis oblasts da Rússia. Havia vodcas de Moscou, Leningrado, Omsk, Samara, Saratov, Vladimir, Oriol, Kostroma, Penza, Sverdlovsk, Belgorod, Murmansk, Kemerovo e Kirov; algumas poucas eram industrializadas, as outras, produzidas caseiramente. Subiu na escrivaninha, que ficava ao lado do armário, pegou as garrafas e foi jogando, uma por uma, em cima da cama. Quando todas já estavam embaixo, as abriu e tomou um gole de cada, enfileirando-as, em seguida, em cima da escrivaninha.&lt;br /&gt;Pegou um lápis, apontou-o, tirou o caderno da escrivaninha e o encostou o lápis na superfície de madeira. Começou a organizar cem palavras que se fizessem sentir:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;i&gt; “Diante de mim, jaz um relógio, uma parede e uma escrivaninha. Em cima da escrivaninha, emparelhei 14 vodcas lateralmente, como num bar. De cada vodca, tomei um gole e já estou entorpecido, intruso em mim mesmo. Meu pensamento voa e não dá pista de onde vai parar. Uma coruja piava, agora, o som dos carros e dos caminhões fazem doer os ouvidos. O azul do céu, no entanto, me encanta e me faz esquecer; assim como o verde das plantas. Me sinto preso num escritório, braços atados, alma arrastada, peito estalado, corpo cancelado. Em poucos instantes, respirarei pela última vez”&lt;/i&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Júlio, então, derramou vodca na escrivaninha, nos papéis do caderno, na cama, no colchão, nas roupas e no armário. Sem ter certeza de que vodca era, de fato, inflamável, buscou um velho recipiente de querosene que guardava debaixo da pia da cozinha. Se posicionou no centro do quarto e deu um giro, espalhando o líquido por toda a extensão do cômodo e, em seguida, derramou um pouco em cima de si. Trancou a porta à chave e jogou-a pela janela. Acendeu três fósforos ao mesmo tempo e acabou com a latência.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-7155011073360996221?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/7155011073360996221/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=7155011073360996221&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7155011073360996221'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7155011073360996221'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2011/02/escritor-latente.html' title='Escritor-latente'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-8978878668185325931</id><published>2010-08-25T20:22:00.001-07:00</published><updated>2011-12-04T20:00:12.724-08:00</updated><title type='text'>a aurora do ocaso</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Que não repara quando eu mudo&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ele não conseguia entender por que ninguém reparava que mudava a cada dia. Num, estava mais bonito, noutro, mais feio; e noutro, diferente, mas era impossível de se impor qualquer rotulação estética que indicasse beleza ou feiúra. Num dia, a barba estava asseada, noutro, assanhada. Num dia, suas olheiras pareciam enegrecidas e profundas, noutro, a pele ao redor dos olhos jazia em aurora. Um dia, mais cravos, outro, menos. Nariz maior, menor. Bochechas gordas, rosto esguio. Às vezes, era película em projeção, outras, negativo. Era tevê ou cinema. Era P&amp;amp;B ou Technicolor. Era laranja num dia, contrato sinalagmático no outro. Era o que fosse, mas não era o mesmo; nunca era o mesmo. Como ninguém entendia que, a cada dia, era um clone defeituoso de si, retrato mal tirado, pintura imprecisa, descrição inacurada?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Até que, enfim, pôde apontar na cara dos amigos e, depois, para si mesmo, dizendo, triunfante: “estão vendo como mudei?” – movia a mão de cima a baixo – “Estou velho!”. De fato, havia envelhecido, mas não se preocupava. Já há muito se acostumara com a condição. Contudo, brincava de chamar sua velhice, com aparente desdém, de decrepitude. Um certo humor mórbido que às vezes vem com a idade. A realidade é que se encaixara muito bem com a vida idosa e se jogara de cabeça no projeto de vivenciar aquele momento.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;À rua, quando escutava fervorosos trotes juvenis a alcançá-lo, se encolhia junto ao muro e fazia um gesto cordial para que o jovem pudesse passar em todo o seu ímpeto. “Tão paradoxal” – dizia a si mesmo, prolongando o “R” o máximo que podia e levantando bem a língua no fim do “L”, à moda antiga – “a morte me alcançando e é o garoto que corre”, terminava a linha de pensamento, com sincera ciência da ordinariedade de sua filosofia, mas sempre recebendo descargas de epifania toda vez que percebia isso, pois não deixava de se tratar de uma verdade.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;No quesito “vestuário”, aderiu à boina. Sentia, também, que era mais confortável andar com calças mais frouxas, presas a suspensórios (vez ou outra, também usava uma bermuda com elástico). Caminhava na praça todas as manhãs, com um guarda-chuva na mão, temeroso do que a umidade da chuva poderia lhe causar aos ossos e do que um corpo molhado poderia lhe fazer à saúde. Se permitia, agora, aliar o conforto dos chinelos à sanidade das meias. Camisas de botão lhe evitavam ter que levantar os braços para se vestir, num exercício de alongamento penosíssimo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E, enfim, aquilo que lhe havia chegado através da idade e que mais lhe enchia o peito de alegria. A velhice havia sido muito bondosa com ele nesse ponto, havia se alinhado com ele, que sempre foi um grande observador, de olhos gaviônicos. Quando, em seu andar curvado na rua, avistava a bela visão, não se restringia!, redobrava a atenção e, construindo um sorriso sem mostrar os dentes, mirava, com olhos bondosos e peito obsceno, as colegiais que passeavam na rua. As inocentes meninas lhe cruzavam lascivas, encorpadas de inerentes sensualidade e insuspeitas, e abriam um sorriso em retribuição, essas mostrando todos os dentes, ainda brancos, ainda não manchados de cigarro, café e vida. Rebolavam em deslize pela calçada, os pescoços brilhando de suor do voleibol da escola, os uniformes pólo grudando no lombo, as calças jeans modelando as nádegas, os seios pontudos saltando dentro do sutiã de algodão.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;“Ah”, expirava.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Quando voltava para casa de suas caminhadas, encontrava a mulher, imersa em fragilidade, jogada na poltrona da sala em sono profundo e roncos caóticos. Ao lado, havia outra poltrona para si, idêntica à da esposa: negra, de couro e estirável; bela e moderna, tão dessemelhante à parceira. Amor e conformidade balançavam no seu peito e davam um veredito categórico: deite-se. Deitava-se e caía no mesmo ronco cavernoso que o da esposa. As narinas cabeludas jogadas para o alto e o corpo frágil, como a moral humana.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-8978878668185325931?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/8978878668185325931/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=8978878668185325931&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/8978878668185325931'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/8978878668185325931'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2010/08/o-amor-e-repleto-de-firulas.html' title='a aurora do ocaso'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-6868345749721473605</id><published>2010-08-20T16:18:00.001-07:00</published><updated>2011-12-04T19:15:01.848-08:00</updated><title type='text'>lá jazia um homem inerte</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Que tinha três sinais debaixo do olho, mas um se apagou&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Gostava de se sentir fraco. De não comer por dias e se deitar na cama, respirando arduamente, até não sentir mais o corpo, só a barriga, e em seguida dormir e não saber quando iria acordar. O processo lhe provocava "um delírio doentio", expressão que recalcava seu cérebro como um eco cavernal infinito e importuno.&lt;div&gt;Um dia, acordou como sempre, com corpo postado de barriga para cima e os braços estirados rente ao corpo, porém, não podia se mexer. Sentia frio e calor brincando de gangorra no interior do seu corpo, não suava frio, como seria natural. Os olhos estavam abertos, funcionando, contudo, não se mexiam. Conseguia ainda ouvir em (muito) alto e bom som o trem que fazia aparições a cada meia hora ao pé da sua janela. A princípio, achou que seria necessário apenas juntar umas forças e se levantar de vez; entretanto, ao som do trem seguinte, meia hora depois, finalmente se deu conta do seu lamentável estado, e desejou ter comido a barra de cereais de emergência que mantinha em cima da mesa de cabeceira. Talvez, com um esforço a mais, pudesse alcançá-la... bem ali do lado.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Mais meia hora passada, teve a idéia de gritar. O fez, mas só escutou em sua cabeça; não conseguia projetar sons para fora.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;div&gt;Na meia hora que seguiu a partir daí, começou a descobrir que o corpo é uma casa, o que parece ser bem simples de se deduzir, por uma lógica analogia, mas o que ele experienciou foi uma sensação totalmente diferente do que qualquer ser humano jamais experimentara. Imaginou-se subindo escadas infindáveis até um sótão labiríntico, onde visões do futuro se mesclam com lembranças suprimidas do passado. Olhou para o teto e viu uma estranha porta verde. Pulou para alcançar a maçaneta; uma, duas, três vezes e conseguiu. Girou-o como pôde, a porta se abriu e foi sugado por uma luz. Quando deu por si, tinha treze anos. Viu (e viveu) sua própria mentalidade de quando garoto, contudo, da forma como se encontrava no presente: paralisado, sem controlar seus próprios movimentos. Apenas se sentiu na pele de si mesmo, em suas reminiscências, porém, sem ação ativa. Estava como se visse um filme altamente sensorial, onde não só sons, cores e sentimentos são apreendidos, mas também texturas, odores e gostos. Estava preso num passado, revivendo-o.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;À época, o vício era outro. Desde que aprendera a andar, até o sucedido que viria a suceder já-já, o nosso herói só seguia uma regra na rua: não pisar nas partes mais claras da calçada, quando esta era bi-tri-(ou)policolor. Uma vez, fugindo de uns meninos da rua por uma das variadas trambicagens que costumava lhes pregar, se encontrou num abismo filosófico em que teve de escolher se apanhava por ter que diminuir o ritmo da corrida - visto que havia uma calçada preta-e-branca que imitava o calçadão de Ipanema em sua frente -, ou se era atropelado pelo fluxo tresloucado da autovia ao lado...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Voltou a si. Ainda estava no quarto, na mesma posição, quando escutou a porta abrir. "Moacyr!, claro! Ele volta hoje! Moacyr! Moacyr!...", mas Moacyr não escutou. Este Moacyr, que morava com o rapaz paralisado, jogou as chaves no balcão da cozinha, pegou sua mala, que havia pousado no limiar da porta, levou-a ao seu quarto, descarregou-a e voltou à cozinha. Procurou na geladeira um iogurte, dos que comprava para si, mas não achou. Irritou-se, andou a passos fortes e imprecisos até a porta do quarto do rapaz que jazia na cama, bateu duas vezes e gritou:&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Você comeu meu iogurte? - não o fez com fúria legítima, mas como se fosse um irmão mais velho, chateado porque o caçula quebrara seu brinquedo. Enfim, não obteve resposta. Repetiu o processo, e, como não obtinha resposta, abriu a porta. Lá jazia um homem inerte, de olhos abertos e exalando um fedor insuportável. "Morto?", pensou Moacyr.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Morto! - falou em voz alta.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Não se pode culpar o pobre Moacyr, tão alheio à nossa história. Ainda mais, tinha o tal do cheiro desprendendo do corpo do rapaz, o que contribuía para a inferência nada improvável de que ele estava, de fato, em putrefação. Mas a verdade era que ele não tomava banho há algumas semanas, outro hábito estranho do qual era adepto. A posição em que se encontrava o rapaz, de barriga para cima e braços estirados rente ao corpo, também não melhorava a situação. Moacyr tentou não se desesperar, respirou fundo, e começou a pensar, andando de um lado ao outro do quarto. Enquanto isso, o rapaz tentava se comunicar: "Moacyr, cara, eu tô bem. Não se preocupa. Me passa essa barra de cereal e vai ficar tudo bem!".&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Moacyr pegou a cadeira da escrivaninha e a trouxe para frente do armário. Subiu-lhe e chegou ao topo do armário. Com o canto dos olhos, o rapaz paralisado percebeu o movimento que seu colega de apartamento fazia. "Filho da puta, ele sabe do esconderijo". Moacyr desceu da cadeira com um maço de dinheiro, foi até a sala e pegou uma lista telefônica, voltou ao quarto, tirou o celular do bolso, procurou nas páginas, discou um número e esperou, apreensivo, com o dinheiro na mão.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Funerária "A Luz", boa tarde.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Oi... boa tarde? Vocês são uma funerária e realmente esperam que a pessoa ligando está tendo uma "boa tarde"?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Olhe... vá se fuder.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Desligou. Moacyr, então, procurou um outro número. Discou e...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Funerária "Vá em paz", meu pêsames&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Agora sim, está mais certo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Como?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Nada... é o seguinte... - e explicou a situação, tremelicante, porém, preciso.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O agente funerário então iniciou a fala. O rapaz na cama só ouvia Moacyr dizendo "an-han... sim... sim..." e o som do papel do dinheiro sendo movido de uma mão à outra, provavelmente o colega contando o que teria que gastar. Tudo acertado, Moacyr pôs-se de pé, chegou próximo ao rapaz que deitava e fechou-lhe os olhos, bem lentamente. "Não... não... não!"&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Algum tempo depois, o rapaz percebeu que estava na funerária. Não há maneira de se tentar entender por que não se fez uma autópsia no rapaz, ou, ao menos, ter alguém percebido que seu coração ainda batia. Contudo, aconteceu assim. Na funerária, ele teve seu rosto maquiado, seu corpo delicadamente lavado com uma esponja, seu ânus e outros orifícios propriamente higienizados com um palito comprido revestido de algodão na ponta e sua roupa trocada por um terno de segunda linha. E a vergonha!? E o sentimento de estar sendo manipulado como um mamulengo!? E a impotência de não poder impedir que alguém enfie um palito no seu cu!? Não havia morrido antes e não haveria de morrer depois. Ali era sua morte, seu fim. Tratado como um boneco, sem poder revidar, esperava o momento de ser posto no caixão. "Que isto tudo acabe logo".&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O cortejo fúnebre seguia, ele se atordoava. Cerca de vinte pessoas o acompanhavam. Relembravam histórias sobre si, malandragens que praticara, meninas com quem tivera romance, sucesso profissional (apesar de ter tido um trabalho medíocre, mal pago e ao qual não dava a mínima)... Vez ou outra, escutava um conluio de duas ou mais pessoas, recordando histórias negativas sobre o suposto defunto. Não se importava; mais de cinqüenta por cento do que diziam era verdade.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Chegou perto de onde seria enterrado, descansaram o caixão no chão. O padre disse algumas palavras... "Padre! Porra! Eu disse a papai e a mamãe que não queria padre de jeito nenhum", mas, em seguida, escutou seus pais chorarem desesperadamente sobre o caixão e os perdoou condescendentemente. Se pudesse mover as sobrancelhas, elas arqueariam com o vértice apontando para baixo; se pudesse lacrimejar, o faria em abundância; se pudesse abraçar os pais e confortá-los, também o faria. Não obstante, estava parado, detido, incapaz.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Por fim, uns poucos parentes e Moacyr disseram algumas palavras bondosas, que terminaram que arrasar o coração do rapaz. O buraco já estava aberto, então eles colocaram o caixão no seu fundo, e um coveiro, munido de uma brilhante e prateada pá, assumiu.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A terra era jogada em grandes punhados, e, enquanto escutava a areia cair sobre seu caixão, uma pergunta - "a" pergunta" - inevitável, começou a surgir na cabeça do rapaz: o que há depois da vida? Sua cabeça, trabalhando em modo aleatório, só conseguiu gerar uma resposta (que poderia, ou não, condizer com a verdade que, uma hora ou outra, ele iria conhecer): O que há? Bom... ele mesmo há, como sempre houve. O acúmulo de conhecimento, emoções, sentimentos, dores e tudo mais que se teve na vida serve para a alimentação da alma no que segue depois. Vive-se (e revive-se indefinidamente) de novo, em cima de tudo isso, e tenta-se reorganizar as idéias, que podem ser dispostas e redispostas de infinitas maneiras, até encontrar-se o que quer que seja que se procure: satisfação, completude, Nirvana, Deus... A resposta lhe parecia suficiente, lhe agradava.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Quando finalmente foi coberto por completo pela terra, quando o buraco foi totalmente preenchido e não havia mais perspectivas de retorno, tentou não se agitar, não pensar, não funcionar. Sentiu a barriga vazia tremer escandalosamente e entrou num delírio doentio, para nunca mais sair.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-6868345749721473605?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/6868345749721473605/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=6868345749721473605&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6868345749721473605'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6868345749721473605'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2010/08/la-jazia-um-homem-inerte_20.html' title='lá jazia um homem inerte'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-961510223264938988</id><published>2010-08-18T21:05:00.000-07:00</published><updated>2010-08-26T20:06:50.762-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Possessia'/><title type='text'>pernóstico decrescente (soneto invertido e desmetrificado e comentário sobre o infinito)</title><content type='html'>&lt;div&gt;&lt;i&gt;A JLBorges (e o seu livro 'O Aleph'), a quem agradeço parte da minha curiosidade pelo infinito.&lt;/i&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Amarrem quantas forem as correntes&lt;/div&gt;&lt;div&gt;aos pés de Neil e em minha mente&lt;div&gt;&lt;div&gt;Ambos flutuam com a graça dos astros&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;De vôo alto, ao chão, passo rente&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Sou menos, agora; só um contente&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Em simplicidade jaz meu claustro&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Se miras meus olhos e detectas tristeza&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Não se compadeça do que não deves&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Vês só um prato de apatia servido à mesa&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O Mundo já não me choca, olhei o Aleph¹&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O Aleph é como se supõe que Deus enxerga&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Quem o vê, torna-se cataléptico do pensamento&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Débil, demente, mente em trégua, se entrega&lt;/div&gt;&lt;div&gt;No fim, sou apenas um nada, e o Nada fomento&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;¹ Toda linguagem é um alfabeto de símbolos cujo exercício pressupõe um passado que os interlocutores compartem; como transmitir aos outros o infinito Aleph, que minha temerosa memória mal e mal abarca? Os místicos, em análogo transe, são pródigos em emblemas: para significar a divindade, um persa fala de um pássaro que, de algum modo, é todos os pássaros; Alanus de Insulis, de uma esfera cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma; Ezequiel, de um anjo de quatro faces que, ao mesmo tempo, se dirige ao Oriente e ao Ocidente, ao Norte e ao Sul. (Não em vão rememoro essas inconcebíveis analogias; alguma relação têm com o Aleph). É possível que os deuses não me negassem o achado de uma imagem equivalente, mas este relato ficaria contaminado de literatura, de falsidade. Mesmo porque o problema central é insolúvel: a enumeração, sequer parcial, de um conjunto infinito. Nesse instante gigantesco, vi milhões de atos prazerosos ou atrozes; nenhum me assombrou tanto como o fato de que todos ocupassem o mesmo ponto, sem superposição e sem transparência. O que viram meus olhos foi simultâneo; o que transcreverei, sucessivo, pois a linguagem o é. Algo, entretanto, registrarei. (J. L. Borges, &lt;i&gt;O Aleph&lt;/i&gt;)&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-961510223264938988?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/961510223264938988/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=961510223264938988&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/961510223264938988'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/961510223264938988'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2010/08/pernostico-decrescente-soneto-invertido.html' title='pernóstico decrescente (soneto invertido e desmetrificado e comentário sobre o infinito)'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-1318500738593814474</id><published>2010-08-10T13:20:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:15:32.261-08:00</updated><title type='text'>Quodeteamo</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Quodeteamo&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;E lá vinha ela andando na rua, o cordão da coleira numa mão, um saco de fezes canina na outra e o tal canino marchando diligentemente ao seu lado. O balanço do corpo se dividia entre sensual e gracioso (não que os dois sejam mutuamente exclusivos, mas cada um carrega consigo características particulares), o cordão enlaçava duas vezes o braço e o saco de fezes, ela o segurava longe do corpo, utilizando apenas dois dedos, o médio e o polegar; fazia tudo isso com naturalidade, sem sentir nojo da merda, sem se atrapalhar com o cãozinho que, vez ou outra, tentava ziguezaguear entre as suas pernas. Toda vez que o fazia, simplesmente mandava-o, com uma voz doce, porém firme, se aquietar; e dizia isso sem parar, sem alterar o ritmo do passo, sem mesmo olhar para aquela pequena bola de pelos infernal que me estirava a língua ironicamente toda vez que eu punha os olhos em sua dona.&lt;div&gt;Lá vinha ela, e como todas as manhãs, não olhava para mim, nem de relance. Isso não me machucava, pois ela não olhava para ninguém. E era essa indiferença me indignava um pouco. Eu, assim como ela, passava ali todas as manhãs. Sempre fazia o mesmo percurso até a padaria, via as mesmas pessoas no caminho, a forma como elas se comportavam. Era como se fizessem parte do meu dia. A beleza do quotidiano é essa!: observar esses padrões emergindo, notar a rua como um organismo altamente funcional. Claro que mais interessante ainda é presenciar o colapso de alguns desses padrões, como se sentir triste quando a velhinha que fazia a sua caminhada matinal não aparece mais e conjecturar a respeito do que pode ter acontecido, construir, em seguida, uma linha da raciocínio que, neste caso particular, provavelmente culminaria na melancólica inferência de que ela provavelmente não voltaria a respirar esse pesado ar urbano da manhã enquanto estica as pernas com a finalidade se sentir mais disposta o resto do dia. Matutar sobre a morte e o que ela implica. Sorrir tentando imaginar o que a velhinha sentiria ao saber que um completo estranho se abalou por conta da sua ausência. E, enfim, pensar em como a nossa existência se estende a lugares e pessoas inimagináveis (para não dizer "inusitados"), tudo isso para acabar de volta na metáfora da rua como organismo funcional, interconectado. E como é que a moça que acaba de passar se recusa a reconhecer que faz parte de tudo isso? Como ela consegue passar com o olhar acima do mundo? Como consegue ser tão indiferente aos meus sentimentos, aos das senhoras que caminham, dos outros que compram pão, dos bêbados remanescentes, das putas que voltam para casa, das casas sujas e históricas, dos postes elétricos, das franzinas plantas decorativas, dos outros cães (irônicos ou não, domésticos ou não) que marcham, do asfalto ainda frio e dos escassos carros da cinco e meia da manhã? Como consegue carregar sempre consigo, mesmo em local público, a sua torre-de-marfim, à qual só tem acesso um cãozinho irônico, invejoso de não poder ser homem, de não receber em troca, na intensidade que deseja, o amor devotado que oferece?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Parece que eu falo tudo como que agora estivesse acontecendo. Não obstante, não. Essa estória já faz parte de um passado que não consta mais nas minhas reminiscências, mas numa intuição de que de fato aconteceu. Não posso responder às perguntas que eu levantei. Talvez tenham soado retóricas (talvez não), contudo, são dúvidas genuínas. O que posso fazer, entretanto, é contar como esses padrões - os padrões da moça que caminhava com o saco na mão - entraram em colapso. Pois bem... escutem.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Imaginem a mesma cena que eu descrevi agora há pouco. Exatamente como a descrevi. Exceto que, ao fim dela, em vez da moça passar fantasmagoricamente por mim, através de mim, como se ela fosse uma alma que não pudesse ver o mundo pragmático, ou como se eu mesmo fosse a alma - mas que, assim sendo, todo o mundo também o fosse -, em vez de ela passar por mim, imagine que trombamos epicamente e a merda do cachorro irônico, ainda morna e mole, se projetou em mim, sem poupar rosto, camisa ou calça. Imaginem só, meus caros. Agora ela estava removida da transe. Dava para ver os olhos dela, finalmente!, de perto. Ela os mantinha quase cerrados quando passava, mas agora os abria, completamente, numa reação involuntária do susto.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Eu cria que a moça seguia três regras básicas para caminhar na rua:&lt;/div&gt;&lt;div&gt;1. Não olhar diretamente.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;2. Não entrar em contato físico.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;3. Não criar laços pessoais (mesmo que na ordem de um efêmero "bom dia").&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Duas delas haviam sido quebradas concomitantemente. A outra viria a se desmantelar em seguida:&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Ai, meu deus! Me desculpe, moço!... esse tipo de coisa... não...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Calou-se, como se pecasse. Seu rosto se fez de dúvidas. Enfim, abriu um inesperado sorriso e a terceira regra foi de encontro ao chão.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Eu moro aqui perto e adoraria me livrar de umas roupas do meu ex-namorado.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ora, aquilo lá que ela disse parecia vindo direto de um filme pornô. Será que eu não estou inventando isso? Eu sempre fui meio Woody Allen neste sentido; de pensar que sou (muito) mais bonito do que sou e que as mulheres podem se apaixonar assim por mim, de primeira vista. Não sei se o convite soou de fato dessa forma, porém, posso afirmar com uma certa certeza (pelo visto, não tão certa assim) de que entrei, depois dali, no apartamento da moça, para trocar de roupa. Cem metros subindo a rua, chegamos ao seu prédio. O maldito cão aproveitava cada brecha de desatento que a moça tinha comigo para morder-me (mais para roer-me, visto o seu tamanho) a perna.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Enfim, lá em cima. E eu:&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Você não presta mesmo atenção, né?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Olhe, meu senhor, já estou fazendo o favor de lhe dar uma roupa nova...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Não, não é disso que eu estou falando. É que a gente se cruza... todos os dias.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- E você me nota... assim?... é?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Não... não... é que você faz parte do quo de te amo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Do quê?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Do quotidiano... do meu quotidiano... é que eu noto... tudo! Esta rua, para mim, é São Petesburgo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Sim... se chama rua São Petesburgo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Não!... sim!... se chama São Petesburgo, sim! Eu sei! Mas é como a São Petesburgo de&lt;i&gt; Noites Brancas&lt;/i&gt;, d'O Sonhador... eu a respiro... a gente se respeita... deixa pra lá!&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Eu entendo - e sorriu -, eu entendo muito bem.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Não, você não entende! Você é alheia! Você não percebe... as coisas...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Mas entendo - disse terminantemente - Agora, limpe-se e vista esta roupa.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O fiz. Saí do banheiro um tanto quanto envergonhado. Agradeci as roupas, ela se desculpou.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;À porta, ela disse, com um sorriso soslaiado no rosto:&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Aproveite o fim do quodeteamo; amanhã, não vai ser mais o mesmo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Fechou a porta e eu entrei em êxtase, tendo presenciado o maior dos colapsos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-1318500738593814474?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/1318500738593814474/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=1318500738593814474&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1318500738593814474'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1318500738593814474'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2010/08/quodeteamo.html' title='Quodeteamo'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-7808296348825627309</id><published>2010-06-04T08:09:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:16:05.802-08:00</updated><title type='text'>Zênite e Nadir</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Desde que meus olhos de azeitona encontraram os de jaboticaba dela&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O céu foi ficando claro. As estrelas que brincavam de reluzir na abóboda celeste foram se esvanecendo. No horizonte (agora a linha já podia ser vista com certa clareza), o topo do sol, laranja, começava a timidamente aparecer atrás do mar. Pássaros! A chegada da luz lembrou aos dois homens que sentavam num tronco de coqueiro caído no chão que havia pássaros no mundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um avião, que quando pôde ser avistado pela primeira vez pelos dois homens não passava de algumas luzes vermelhas e brancas - patéticas imitações de cometas -, agora já podia ser contemplado em sua real plenitude. Já podia ser visto como aquele trambolho metálico cortando o vento, deixando uma cauda de fumaça (talvez essa visão seja mais honrosamente comparável a um cometa). O avião passou e os dois homens, Zênite e Nadir, continuaram calados. Estavam perplexos devido aos acontecimentos ocorridos nas últimas vinte horas, quando se conheceram e, ao longo deste tempo, se compreenderam. Raro, duas pessoas que são o oposto uma da outra se conectarem assim.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Percebam, Zênite era uma figura positiva. Seus avós, provenientes da Bulgária, haviam vindo num navio italiano no começo do século passado. Diferentemente dos outros que imigravam, eles prosperaram rapidamente, provavelmente fazendo acordos e realizando negócios escusos com os praticamente escravocratas senhores do café. Quando seus avós morreram, deixaram uma herança razoável de legado ao seu pai que, junto com sua mãe (filha de italianos), foram morar na cidade de São Paulo, onde abriram um cabeleireiro. Quando o negócio foi à bancarrota, alguém os disse que o mercado de cabeleireiros estava prosperando no Recife, onde, segundo a fonte, "querem aparar a juba do Leão do Norte". E foi por causa dessa piada infame que os pais de Zênite acabaram se mudando para Pernambuco, onde, por incrível que pareça, fizeram sucesso inusitado com o seu estabelecimento, enganando as madames da sociedade recifense, clamando vir de Paris e Itália os tão arrojados cortes de cabelo que inventava na hora. A criação que foi legada a Zênite consistia numa mistura equilibrada de fartura material e de malandragem.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Já Nadir não teve tal sorte. Seu pai, um árabe que chegou ao Brasil não se sabe como, não se sabe por onde, era o doido da cidadezinha onde morava, no interior de Pernambuco. Ele acreditava ter assassinado Dom Sebastião na batalha de Alcácer-Quibir, ignorando a incoerência histórica do que dizia, pois a guerra havia sido travada há bem uns quatrocentos anos. Sua mãe, nunca a conhecera, mas supunha ser nordestina, pois seus traços mouros não eram tão acentuados como os do pai. Ostentava um nariz não tão grande, porém notável, a cor bronzeada era mais assim por conta do sol, mas o bigode era cheio e negro, escondia o lábio superior e lhe dava um ar de complacência que não era legítimo. Era amargo, à bem da verdade. E quando seu pai morreu, se aliviou. Nada mais o prendia àquela terra. Levantou o bigode com os dedos polegar e indicador, revelando seu lábio por completo, e cuspiu escarrado no chão da sua casa. Saiu no mesmo dia para o Recife e não voltou mais.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A gente pode imaginar Nadir viajando com uma trouxa de roupas pendurada por uma vareta comprida, romanticamente passeando pelas paisagens metamorfósicas de Pernambuco. Primeiro o Sertão duro e gretado; depois o Agreste um pouco mais ameno, umas tantas plantas ralas enfeitando o amarelo, algumas fazendas de vacas até um pouco gordas; em seguida, vinha a Zona-da-Mata, e cadê a Mata Atlântica?, o que pode-se ver é uns montes raspados, só cana-de-açúcar os cobrindo, mas esta não alcança mais que dois metros para cima da terra; por último, chegava ao Litoral, não tão diferente em clima da Zona-da-Mata, mas quando se vê o Recife, aquele grande bloco desajeitado de concreto, percebe-se que está em terras muito mais que estrangeiras. Contudo, essa aventura severínica não aconteceu. O que aconteceu foi que ele montou num pau-de-arara tão cheio de gente que ficava impossível observar o que se passava fora. Chegou ao Recife, pelo menos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Zênite era um cara que se podia identificar de longe. Vestia roupas floridas, um colar dourado com um crucifixo (apesar de não acreditar na existência de deus - com minúsculas mesmo, não que eu tenha que me explicar), umas três pulseiras prateadas em cada braço e, não raramente, óculos escuros; usava barbicha, cabelo raspadinho e já não tinha a pele mais branca, era toda vermelha, destruída, encascada, do sol. Era bicho de rua também. Além do cabeleireiro do pai, onde trabalhava alguns dias na semana (cortando apenas os cabelos das moças bonitas), também resolvia uns tratados na rua, nada muito exato. Às vezes se tratava de drogas, outras de jogos proibidos, outras de prostituição. Não que não ganhasse dinheiro suficiente do pai, cortando cabelos à preços altíssimos, mas queria sempre um extra, para cuidar dos seus caprichos narcisísticos; roupas, jóias e putas de classe.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Zênite morava no Poço da Panela. Jogou bola desde pequeno com os meninos mais pobres que moravam ao redor do bairro. Um desses seus amigos, Jorge Bira, acabou virando ladrão. Zênite, no início, até tentou dissuadí-lo da idéia, mas ela já estava calcada na cabeça do amigo, que achava o banditismo o mais romântico dos trabalhos.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Jorge era um tipo bem apessoado, bigode ralo e corpo quente, e não se tem evidências de que já tenha posto uma camisa pelo menos uma vez na vida. Quando passou a furtar, corria da polícia e se escondia na casa das menininhas da comunidade. Ia deflorando uma por uma, deixando corações apaixonados por onde passava. A vizinhança já tinha um jogo de apostas em cima dele. Toda semana, tentavam adivinhar em que janela ele pularia e qual garota assustaria de princípio, para fuder no fim. Quem organizava tal bolão era - claro! - Zênite, que, ao contrário do que se pode pensar, não cortava nenhuma parte do bolo para si. Não aplicava esse tipo de truque em gente humilde, não normalmente.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um certo dia, um tal complexo de Robin Hood se apoderou de Zênite. Decidiu que, por causa justa, um delito era justificável. Foi ter com Jorge, pois acabara de conceber um plano para um assalto à banco (depois, distribuiria o dinheiro aos pobres). Não era algo da laia de pega-trouxas que costumava aplicar por aí, era algo grandioso. Explicou o esquema todo, ao qual Jorge ouviu com atenção.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Só tem um problema - admitiu, meio contrariado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E qual é?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- A gente precisa de um bode expiatório.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Hum... Seu Luiz cria um no quintal, mas é muito apegado ao bicho. Só se a gente roubar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não, seu estúpido. Bode expiatório é um cara que leva a culpa pelos outros.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E existe essa profissão?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não. Ninguém se sujeitaria a isto. A gente faz o cara crer que tá com a gente, mas é só enganação. Depois, ele leva a culpa só.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E como é que a gente convence ele a levar a culpa só, se ele sabe o nome da gente e como a gente é?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Se o cara for amigo, não conta nada pros polícias.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E a gente vai levar um amigo da gente pra uma cilada dessas?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não. A gente encontra alguém que não tem ninguém no mundo e faz ele achar que a gente é amigo dele. Ele não vai contar porque é amigo e não vai saber explicar quem somos porque não nos conhece. Temos que encontrar alguém assim, e tem que ser daqui pra amanhã. Você viu no plano. Se não for agora... não será nunca.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Como é que a gente vai fazer um cara achar que é amigo da gente em vinte e quatro horas?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não sei como a gente vai fazer isso, mas sei onde.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;No dia seguinte, por volta das oito e meia da manhã, Zênite foi ao centro. De quando em quando, um caminhão aparecia com uns tantos imigrantes do interior. Apareceu, pois, um. Na Dantas Barreto mesmo eles desceram, e ficaram olhando a cidade. Zênite observava o movimento com olhos de gavião. Pensava "aquilo lá é uma família, esses acolá são amigos, daqui eu conto um, dois, três casais de namorados e...", deteve-se. Um sujeitinho amargo descia por último. Fisicamente, parecia estar com tudo em cima, mas Zênite via alguma coisa nele que dizia "aquele ali é de ninguém e a ninguém quer, mas quem sabe não abre o coração ditas algumas palavras acertadas?". Aproximou-se do moreno de bigodes cheios (que já se pode adivinhar que é Nadir) e disse:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Um homem sozinho é melhor que a planta, porque não tem raiz; é melhor que os bichos, porque não tem &lt;i&gt;habitat&lt;/i&gt;; é melhor que deus, porque não tem filhos e pode vagar pelo mundo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Só que deus pode tudo, mesmo abandonar os filhos que tem.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Mais uma razão para o homem sozinho ser melhor que ele.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Algo me diz que você não é cristão, diminuindo deus dessa forma - disse ironicamente Nadir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E algo me diz que você também não o é, insultando-o assim - retrucou Zênite.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Sou um homem sozinho, o que quer dizer que deus não está comigo. Nem o quero por perto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E eu não o sou no sentido estrito da palavra, mas estou sozinho em várias formas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você não parece mesmo daqui, isso já lhe deixa deslocado um pouco.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E você não &lt;i&gt;é&lt;/i&gt; daqui, então posso lhe dizer o mesmo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;A conversa, que a muitos pode parecer um atrito, foi aos dois um exercício intelectual agradável. Riam-se por dentro. Comungavam de uma mesma idéia. E o que se diz é que a religião pode juntar dois homens, mas nesse caso é a ausência dela que o fez.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Zênite desfez o ar filosófico que postava no rosto e voltou ao seu velho ar de malandro. Pôs os óculos para dissimular a malícia e começou a encantar com palavras o jovem Nadir, sujeito amargo, recém-chegado ao Recife. Um rapaz que era apatia pura agora regozijava de prazer ao encontrar um amigo, talvez o primeiro que já tivera.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Tudo certo, apenas algumas horas depois. Nadir não é do tipo que se convence facilmente, porém, suas barreiras haviam sido derrubadas pela lábia de Zênite. Via-se nos seus olhos que fora ludibriado. Encontraram-se com Jorge. Zênite carregava duas roupas bem arrumadas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Trouxe as roupas, Jorge. Ah, e esse é Nadir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- A cabra, né?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Cabra? - perguntou Nadir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não acho que ele pareça uma cabra, Jorge. Nem cabra, nem bode - disfarçou Zênite.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Ah... nem eu... nem eu... foi um lapso - gaguejou Jorge desconcertado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pois bem. Aqui estão as roupas.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- E o que é isso aí?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- É uma camisa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não entendo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Deixa de ser fresco, Jorge. Aqui tá uma camisa e você vai usá-la.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não vão te deixar chegar nem perto de lá sem uma camisa.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você tem que usar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Não.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Nadir vai fazer o seu trabalho, então.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Que seja.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Zênite piscou para Jorge e virou para Nadir.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Você consegue, Nadir?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- O que exatamente eu tenho que fazer? - disse, num misto de coragem e desconfiança.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Vou explicar... É o seguinte: nesta época do ano, os guardas do banco estão de férias. Então, eles contratam de fora. Ano passado, quando eu fui lá retirar dinheiro, eu notei que um desses guardas é exatamente igual a mim. É impressionante, não é, Jorge?&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- São indistinguíveis - disse Jorge estufando o peito e separando bem as sílabas, numa fala claramente decorada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Pois bem... Às três da tarde, exatamente, ele vai cagar no banheiro dos fundos, enquanto um outro guarda o substitui. E é aí que você entra, encapuzado, com uma arma na mão, e grita dizendo que é um assalto. Eu estarei lá dentro, como vítima. Você me escolhe para recolher o dinheiro, junto com dois funcionários do banco: um loirinho baixinho e outro gordo e nojento; você vai saber quem são. Lá, eu e eles pegamos o dinheiro, eu bato traiçoeiramente na cabeça deles para deixá-los inconscientes, arrombo o banheiro e faço o mesmo com o guarda. Troco a roupa dele pela minha e saio de lá de trás com o dinheiro escondido por todo o meu corpo, pois estarei usando uma roupa por dentro da roupa de guarda que tem vários bolsos, onde posso esconder uma grande quantia de dinheiro. Também estarei com uma arma na mão apontando para você. Você se rende e eu te levo para fora, como se fosse te prender. Mas Jorge vai estar com um carro nos esperando. Saímos de lá e dividimos o produto.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não havia, de fato, um guarda igual a Zênite no banco, mas havia, sim, uma porta dos fundos para a qual apenas um dos funcionários do banco tinha a chave (o loirinho baixinho); e havia outra chave, a do cofre do banco, que quem a detinha era o gordo nojento. Zênite fugiria com o dinheiro pela porta dos fundos, onde Jorge o esperaria. Zênite queria realizar logo o assalto pois o país trocava a sua moeda. Incontáveis notas de cruzeiro novo entravam nos bancos, muitas vezes sem nenhum controle. Ele roubaria esse dinheiro e o distribuiria com a ordem de trocá-lo imediatamente pela nova moeda, dificultando o rastreamento. Além do mais, esta época do mês, o banco guardava notas altas nos cofres, o que facilitaria a trasladação do produto do roubo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Nadir aceitou tudo sem pestanejar. Estava intoxicado pela idéia de estar participando de algo grande na cidade. Era cético, sabia que era difícil se dar bem numa cidade grande. Apesar disso, se mudou para o Recife. Pensava que aquela era a oportunidade que tinha de ganhar dinheiro para começar a viver.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Na hora do &lt;i&gt;vamovê&lt;/i&gt;, tudo deu errado. Zênite não considerou dezenas de coisas. O plano era pessimamente arquitetado e não havia sido ensaiado previamente. Tudo aconteceu tão rápido e, por conta disso, Zênite e Nadir, fugindo da polícia cada um em uma bicicleta, não sabiam como o carro de Jorge havia explodido com ele dentro, como os dois funcionários haviam descoberto que Zênite fazia parte do plano, como ele tinha conseguido derrubar os dois no chão após uma briga exaustiva por conta disto, como os dois pés de Nadir sangravam como o cão, como a polícia havia descoberto tudo tão rápido e como diabos eles haviam parado cada um em uma bicicleta fugindo.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;O fato é que pedalaram por horas e horas. Já se fazia noite e eles pedalavam. Haviam despistado a polícia - era claro já - mas a qualquer momento eles podiam ser encontrados. Agora mais calmos, porém ainda estonteados, os dois conversavam enquanto suas pernas giravam - movimentando as bicicletas - sem mais sentir dor, só querendo ficar naquela inércia.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Pela primeira vez na vida, Nadir sentiu adrenalina. Adrenalina pesada.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;E pela primeira vez, Zênite sentia medo de viver, justamente porque poderia morrer.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Compartilharam entre si tais sentimentos. E mais outros. Falaram da filosofia que conheciam, das suas culturas, de jogos, de mulheres, de tudo. E, no final, Nadir disse:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Eu ainda não vi o mar.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;- Tem uma praia belíssima por aqui. A gente não tá muito longe.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Não falaram mais nada. Seguiram até a praia e sentaram num tronco de coqueiro, de frente para o mar. Zênite tirou do bolso duas notas de dez cruzeiros novos, único fruto do fracassado assalto, que haviam parado lá não se sabe como. Deu uma a Nadir, que agradeceu com a cabeça, e ficou com a outra, apertando-a forte na mão. Voltaram, os dois, a olhar aquela imensidão de água.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: justify;"&gt;Um avião passava, o dia raiou, os pássaros cantaram e Zênite e Nadir permaneceram calados, perplexos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-7808296348825627309?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/7808296348825627309/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=7808296348825627309&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7808296348825627309'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7808296348825627309'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2010/06/zenite-e-nadir.html' title='Zênite e Nadir'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-4614120887973070345</id><published>2010-02-12T10:49:00.000-08:00</published><updated>2011-12-04T19:17:30.109-08:00</updated><title type='text'>Relatos que não existiram de uma viagem que existiu</title><content type='html'>Faz muito tempo que não posto. Na verdade, eu estou escrevendo um texto que está me saindo muito maior do que imaginava. Mas para que não fique parado, o blog, vou postar um texto que eu fiz e que eu acabei modificando para caber no outro texto que eu estou escrevendo. Esse texto está, de forma reduzida, contido no outro. Lá vai. Saibam que eu não o terminei, portanto, não tem muito fim (pode se considerar que sim, mas é um fim insípido). Detalhe: ele é todo é um parágrafo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A Lia,&lt;div&gt;Que deveria gostar mais da minha barba&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu acabara de chegar de viagem e, como as evidências fazem questão de nos esfregar na cara, havia mudado. A barba foi o maior alvo de comentários. Por pura diversão, resolvi criar diversas versões para explicar o porquê de eu, que sempre gostei de ter a cara limpa – não tanto por motivos estéticos quanto por filosóficos e metafóricos –, deixava, agora, que meu rosto criasse pêlos, quando o verdadeiro motivo para o acontecido era nada-mais-nada-menos do que desleixo. Chegou-me Hortênsia para perguntar-me a razão de ter eu uma trepadeira me subindo o rosto. Respondi-lhe que havia esquecido de levar a lâmina de barbear comigo e, como não pretendia gastar dinheiro na Europa – intencionava ganhá-lo –, não comprei uma. Ao meu irmão mais velho, que, ele mesmo, possui uma vasta cabeleira austral, disse que imitava-o, que queria fazer de mim sua mini-versão. Rimos muito da pilhéria, mas creio que ele realmente acreditou nas minhas palavras, pois, agora mais do que nunca, começou a se portar como modelo. Modelo para homens de vinte e um anos não existe de fato. Para Selma, expliquei-lhe que deveria ter retornado há um mês atrás – e, como saí sem data exata para voltar, a mentira, apesar de extraordinária, colou bem –, contudo, num lapso de irracionalidade, amalgamado com o surto de poesia que me sobreveio na viagem, teria decidido volver de navio. Este haveria naufragado e eu teria ficado à deriva por vinte e dois dias, flutuando em cima de um armário de comida da embarcação, que seria feito de madeira e que estaria repleto dos alimentos com que haveria sobrevivido até que um helicóptero que haveria de procurar os escombros do navio me acharia há quilômetros de distância do local do acidente. Péricles, despachei-lhe com um simples “estou me encaixando no espírito universitário, do qual nunca fui adepto, mas que, iluminado pela conhecência de novos mundos, acabei por decidir de sê-lo”. Aos mais crédulos – e, com isto, quero dizer “bestas” –, não me privei de ir mais longe. A Não-me-lembro-quem, por exemplo, contei que escondia, debaixo dos pêlos do meu rosto, uma cicatriz que percorria o perímetro do semicírculo inferior da minha face e que havia sido produzida pelo arranhão lento e peremptório de uma mulher-felina, cujas unhas mediam cinco centímetros e eram pontudas e em cujas linhas da face não se podia distinguir a moça do gato. A outro, disse que me haviam implantando os pêlos contra a minha vontade, pois havia sido raptado por cientistas neofascistas que faziam experiências em estrangeiros. Completei que a barba não podia ser removida do meu rosto pelo poder de nenhuma lâmina. E, finalmente, a um último, fiz-lhe acreditar que sempre havia usado barba, desde que havia nascido. A partir daí, as histórias foram recontadas pela minha cidade afora e, freqüentemente, se encontravam umas com outras, de modo que, vez ou outra, me chegavam, pelas bocas de amigos, casos de “um rapaz que foi transformado em cachorro por universitários europeus”, ou de “uma mulher que queria tanto se parecer com o irmão que se fez implantar uma barba”, ou de “um náufrago que se cortou com uma lâmina de barbear, pois seu filho havia nascido com pêlos no corpo inteiro”.&lt;p&gt;&lt;/p&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-4614120887973070345?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/4614120887973070345/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=4614120887973070345&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/4614120887973070345'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/4614120887973070345'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2010/02/relatos-que-nao-existiram-de-uma-viagem.html' title='Relatos que não existiram de uma viagem que existiu'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-8584308661607053707</id><published>2009-10-05T09:28:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:18:10.319-08:00</updated><title type='text'>- suma!</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A Lia, A Lia, A Lia... até que acabe a tinta da caneta&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;"Vá-se e não volte-se!"&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Assobiando melancolicamente, viu a moça se afastar. Não a veria mais. E foi aí - e só aí -, enquanto ela sumia, que pegou fogo, o coração de Nero. Não que antes, quando se amavam, não ardesse, seu peito. Contudo, ardor e labareda são coisas diferentes. Picância não derrete corações.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Então, então... o coração de Nero derreteu, mas para que seu peito tivesse ainda algo para carregar (condição essencial para se viver) , o fogo tomou conta do recôndito de si. Virou bicho. Uma onça, se não me engano.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A história, contudo, não se trata disso - do que ele virou - mas do que aconteceu para que ele virasse a besta. E começando-a do fim, é evidente - não evidente, tudo bem, admito, mas dedutível - que se termine pelo começo. A história é, portanto, virada de cabeça para baixo. Da mesma forma como começa a cena a seguir:&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Fazendo ioga, Nero se sentia bem. Toda aquela raiva que, usualmente, vivia alojada em seu corpo se dissipava para o alto. Saiu da posição em que se encontrava e a moça chegou, enxugou-lhe a testa com um lenço que carregava no bolso, beijou-lhe no mesmo lugar e se deslocou para a cozinha. Fazia-o sempre. E este era um dos principais motivos pelo qual ele praticava aquela arte de meditar através das posições do corpo, não obstante ter começado a fazê-la antes de ter conhecido a moça. Lembrou-se, também, da única vez em que meditar não lhe foi ato benigno. E foi justo assim que conheceu a moça.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Se lembra como a gente se conheceu?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Não obteve resposta. Levantou-se e foi procurá-la na cozinha. Não encontrou ninguém. Passeou pela casa e nada. Não se desesperou, começou a assobiar sua música favorita, uma bela e triste canção que seu avô lhe ensinara. Foi até a janela e viu, três andares abaixo, a moça caminhando em direção ao ocaso sem nada nas mãos ou nas costas. Esfregou os olhos para ver melhor, pois achava que, também, ela não levava nem as roupas do corpo - como ela mesma afirmara que faria no dia em que se conheceram. Mas não... vestia um vestido. Nem tudo que falara era verdade, ela era muito hiperbólica, inventava essas histórias para que, num futuro mais distante, ele se lembrasse dela como ela contara que era - e foi o que aconteceu, mas no futuro, que não é agora. Na realidade, o findo, o porvir ou o agora é quando o narrador quer que seja. Na linha do tempo, desliza livremente o contador de histórias. Isto será provado.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Era o auge da sua felicidade! Era passarinho, sem saber que viraria onça (conquanto seria mais interessante pensar que lhe engoliu, a onça). Ele e a moça se encontravam às escondidas três vezes por semana, a saber: terça, quinta e sábado (segunda e quarta, ela praticava pilates; domingo, ele passava o dia na casa dos pais; e sexta... sexta era um mistério que ele nunca conseguiu solucionar). Não que alguém os pudesse estar vigiando, haviam combinado que, desta forma, era mais excitante.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Estavam num de seus encontros ocultos, num lugar cujo apelido dado pelos amantes era "Toca". O local, realmente, não era mais que uma morada de rato - nem em asseio, nem em espaço. A única coisa limpa no recinto eram os lençóis cegamente brancos que a moça trazia, até o sexo era repreensivelmente sujo. E foi após o coito, quando estavam os lençóis encharcados de suor e imundos de comida de forma que nenhum dos dois se atreveram a comer após o que delas foi feito, que Nero reparou de verdade o quarto. Desta vez seus olhos, miraculosamente, podiam enxergar além do brilho dos panos desarrumados e do êxtase do sexo tresloucado. Sempre soube que o lugar não era limpo, mas desta vez notou que estavam, de fato, enfiados num buraco malcheiroso e vil. Olhou a moça que, como de praxe, dormia pesadamente após a transa. Imaginou-a morta, seu corpo despojado num lixo pela máfia, pagando o amor com uma morte. Olhou-a novamente e quis se desculpar, mesmo não a tendo dito nada. Viu como dormia e sentiu que a única forma de contrariar o que ela havia dito quando se encontraram era sempre transá-la fortemente sempre que acordava, pois sabia que, em seguida, ela não iria a lugar algum. Nero, então, examinou-se reflexivamente e assentiu que seu corpo semi-quadragenário não aguentaria a empresa por muito tempo se se seguisse assim o ritmo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Acordando-a, propôs-lhe, então, que não voltassem a se encontrar naquela cova de gambá, mas em sua casa. Explicou-lhe que a relação deles já havia passado daquilo de encontros às escondidas e que "não adianta retrucar que o 'encanto' vai ser perdido. Será se continuar assim. Isto aqui já é rotina, e rotina não é aventura. Agora, só navego em outras águas". Olhou o rosto da moça - começara a aprender a lê-la. Detectou: a) dúvida; b) agitação; c) um brilho caleidoscópico luzindo dos seus olhos cujo sentido obscuro acabou por se provar - paradoxalmente - indetectável.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Que tal se, em vez de navegarmos, déssemos um salto? Que tal se eu for morar na sua casa?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Creio que este foi o modo que ela encontrou de fazer uma decisão "ao seu estilo" ao mesmo tempo em que não magoava o pobre homem que via sentado numa cama com nada mais do que sujeira à sua volta. Viveram juntos por seis anos, até o som do assobio encaminhar a moça ao pôr-do-sol do futuro e o desencontro descer forte o seu machado sobre os caminhos dos amantes.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Suam. Os dois. Pois esta é uma reação mais do que natural ao ato que cometem neste instante, neste exato instante, que não escolhi narrar, mas observar. E o que lêem os leitores é - nada mais! - que o reflexo do que vêem meus olhos. O ponto culminante chega, eles gritam e ela desmonta o cavalo de um metro e noventa e três (não encolheu quando virou onça, continuou grande como é). Nero é um rapaz sensível e está para dizer à moça que acabou de conhecer que a amava, já. Parte do que fala já saiu da sua boca, mas nota que a moça está dormindo e que falar aquilo vai soar estúpido, então, neste instante, estica o braço, mas não consegue pegar o "eu te..." no ar. Agradece ao deus em que acredita por não ter dito "...amo" e o amaldiçoa por não ter-lhe dado melhor reflexo. Nota que a moça não imprime reação às duas pequenas palavras e fica feliz. "É melhor esperar, para não assustá-la, mas não há mulher que fuja de um amor assim", pensou.&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: center;"&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Mais do que tudo, irritou-se. Flamejou! Não conseguiu se conter. Explodiu! Tornou-se um vermelho só! Estava nos últimos minutos da sessão de ioga, posicionava-se com a cabeça tocando o chão e os pés balançando no ar e levou uma queda. Tudo isso aconteceu pois vira uma moça que podia fazer mugangas físico-corporais mais estrambólicas e matutantes que as dele. Vira uma paz na face dela que só podia ser combatida com fogo. Caiu, então. Mas, aí, uma nova temperatura lhe tomou conta e o coração de Nero fogueteou pelo salão e foi parar não-sei-onde (ele retornaria em seguida, mas da próxima vez que ele desaparecesse, não voltaria mais).&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A aula acabou. Nero viu a moça saindo por uma porta que nunca havia percebido. Correu para alcançá-la. Saiu pela porta e deu num beco tão sujo como a "Toca", viu a moça, nem a dois metros dele, esticou o braço, deu um longo passo à frente - quase um pulo - e a tocou nos ombros. Ela não se assustou, não gritou e, além do giro que deu para pôr-se face-à-face com Nero, não estampou reação nos movimentos. Permaneceram olhando um para o outro por não se sabe quanto tempo. Coube à moça quebrar o gelo:&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Eu não tenho problema algum em você me querer. Saiba, só, que eu sou suçuarana.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E agora aconteceu o fim, e é bonito!, e este narrador recua no tempo, pois quer presenciar a cena ao vivo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Posso vê-los se beijando, neste instante mesmo. Vejo-os de longe, como que através do olhar furtivo de uma câmera escondida. E o silêncio horroroso...! O silêncio pressiona a imagem. Dentro dos seus corpos, forma-se um vácuo. E ele treme, de cima a baixo. Pensando bem, na realidade, da base ao cume. E ela fecha os olhos e, como toda mulher, se faz de experiente, faz o homem pensar que está sendo ensinado na melhor das didáticas. E o corpo dele está parado no lugar, mas sua mente corre em direção ao tempo em que estudava e, não conseguindo frear, passa direto e vai parar no carinho materno, e sente, quase que inevitavelmente, o gosto do leite. Volta mais no tempo e nada tranqüilamente no líquido amniótico, até culminar num orgasmo de paixão. E este orgasmo se confunde com o prazer enorme de beijar a moça, e pensa que os homens são os mais inseguros seres do universo, e ainda bem que existem mulheres!, que lecionam a gente mesmo sem saber o que ensinam. Estão sempre nos confortando. E a moça mais do que conforta, inspira, lava a alma. Nero descola seus lábios dos lábios dela e arrasta uma palavra, bem baixo, sem querer que ela entenda:&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Musa.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-8584308661607053707?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/8584308661607053707/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=8584308661607053707&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/8584308661607053707'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/8584308661607053707'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2009/10/suma.html' title='- suma!'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-6686278844941003962</id><published>2009-04-13T08:05:00.001-07:00</published><updated>2011-12-04T19:20:02.864-08:00</updated><title type='text'>a vista do Monte Negro</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Que nos dias mais lindos está de fita no cabelo&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Assim como do topo do Monte Negro enxerga-se, bem pequeno, o apartamento de Estela, do apartamento dela mesma, no décimo terceiro andar de um edifício de quatorze, vê-se o topo do Monte Negro. A grande vontade de Estela é experimentar a visão que o monte tem dela, mas, para ela, que não possui nem recursos para subir no humanamente inóspito monte e nem, muito menos, uma câmera filmadora para gravar-se lá de cima e, pelo menos!, ver como sua imagem se afigura na tela, isto é virtualmente impossível.&lt;br /&gt;Estela suspirou, amolengou os braços, anteriormente apoiados na janela da cozinha que dá para o monte, e voltou para o quarto para dormir. O que ela não sabia, nesse momento, é que o monte tinha o mesmo desejo que ela, que suspirou que nem ela e que fechou os olhos, entrou numa negridão ainda maior e dormiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Brilhantíssimo nasceu o Sol por trás do nigérrimo monte. Acordaram Estela e o monte ao mesmo tempo com o canto de um galo que foi projetado bizarramente para o alto, numa acústica anormal às leis da física, mas facilmente explicada pelos crentes nas artes mais ocultas. Galo é sagrado, que fique evidenciado. Levantou-se de Solidão. Solidão, paremos aqui e analisemos, não é exatamente aquela de que todos têm conhecimento, apesar de sê-la do mesmo jeito, mas, aqui, temos um outro significado. Que diga, há algo aqui que se chama Solidão por ter características bem parecidas com o sentimento (ou condição, dependendo do ponto de vista). Solidão, por fim, é o nome que Estela deu, inconscientemente, à sua cama. Isto é, ela tem a sensação de solidão ao ver a cama e o nome da cama é, de fato, este, mas Estela não se apercebeu disto ainda. Bom, muito disso é "com ciência", e o caso aqui, como já foi dito, são as artes ocultas, seja lá o que forem elas. O fato é que Estela levantou-se de Solidão e se dirigiu à porta. Solidão, então, ficaria sozinha, se não fosse o cavalo-de-pau que jazia ao lado dela, a coleção de bichos de pelúcia e romances policiais sobre a prateleira, o armário de madeira, a escrivaninha desarrumada e os outros demais pequenos objetos que compõem um quarto, nenhum deles animados, mas todos portadores de lembrança, especialmente o cavalo-de-pau já mencionado. Contudo, esta aí é uma outra história, que não vem ao caso agora, mas, ao certo, virá à tona, pois muito da vida de Estela está relacionado a este cavalo-de-pau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A hora do café é interessante para Estela, que acende as duas únicas bocas do seu fogão e, numa, cozinha um queijo, assa um pão, ou coisa do gênero, na outra, ela prepara o seu café, forte, porém sem açúcar. Estela fica bem acordada, bem preparada para qualquer trabalho que vier à sua frente, mas ela não trabalha, recebe um dinheiro mensal da Prefeitura, de um processo judicial que ganhou por causa de acidente de trabalho, desde então, vive desse dinheiro, que cobre todas as despesas. Liga o som, onde contém um CD que, quase que imediatamente, toca, retomando o ponto em que estava quando Estela desligara o aparelho.&lt;br /&gt;... &lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;je rêve encore&lt;/span&gt;...&lt;br /&gt;Ela se recolhe para o banheiro.&lt;br /&gt;... &lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;il ne faut pas me laisser&lt;/span&gt;...&lt;br /&gt;Bate a porta, entra no box e liga o chuveiro. A música, agora, pode ser ouvida bem baixinha.&lt;br /&gt;... &lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;sombrer toute seule, quand je m'ennuie&lt;/span&gt;...&lt;br /&gt;Estela sai, enxuga-se e vai para o quarto para se vestir. Em poucos minutos está pronta. Sai.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esta visita que Estela fez é interessante. Vale a pena ler, mas, primeiro, é necessário uma explicação sobre a geografia de onde ela mora. Pensemos como se fosse o prelúdio de uma história:&lt;br /&gt;O Monte Negro é dividido em três áreas, a saber: área um, ou a área do Lago Negro, um local no pé do monte onde banham-se meninos pobres por diversão, e não por asseio, pois o local é exageradamente sujo; área dois, ou a área cultural, que é onde passa-se a história prestes a ser contada, é um outro local no pé do morro onde encontram-se museus, teatros e cinemas culturais, com exibições fora do circuito comercial; e, finalmente, área três, ou a área residencial, também no pé do monte, onde moram pessoas de classe média baixa, assim como a própria Estela, e onde ergue-se majestosamente grande (mas desengonçadamente projetado) o único edifício da região, de quatorze andares e onde Estela mora. Juntas, as três áreas formam um círculo em torno do Monte Negro e, para os lados, há o resto da cidade, as favelas, os condomínios de gente rica, os mercados, os &lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;shopping centers&lt;/span&gt;, os hospitais, os prostíbulos, as casas de jogos, os bares, as sarjetas mais preferidas dos mendigos, uma universidade e tudo o mais que se vê em cidade relativamente grande.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Estela, então, saiu de casa para fazer a sua visita a um museu, um dos mais &lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;undergrounds&lt;/span&gt; da região, mas bem ajeitado, bem endinheirado até. O prédio onde mora fica num beco sem saída e ir direto para o museu a faz dar um arrodeio grande, não tão grande ao ponto de que arrodear pela beira do monte que encosta na beira do rio seja mais curto, porém, foi este o caminho que Estela pegou, simplesmente pela paisagem contraditória que presenciava toda vez que por lá passava. Ver meninos vestidos apenas de bermudas sujas se jogando num rio – que deveria ser uma representação da natureza – ainda mais sujo a fazia ter uma sensação esquisita, não boa, mas que gostava de sentir só por sentir. No fim, chegou ao lugar desejado: o museu. Entrou e presenciou uma amostra fantástica, uma exposição de microquadros. Na exposição, haviam mesas espalhadas pelo salão e, em cima de cada uma delas, um microscópio, onde os visitantes punham os olhos e observavam obras de arte atomicamente produzidas por cientistas com veia artística. Estela observou as nove obras expostas, reobservou, reobservou e reobservou até ficar exaurida. As suas telas preferidas foram três, duas delas porque despertaram sensações distintas a cada observação diferente que Estela fazia e, a outra, porque conseguiu despertar nela uma só, persistente, sensação, mais forte que tudo. A que menos apreciou das três foi uma casa de campo, em seguida, foi o retrato de uma moça que segurava um bebê chorão no colo, e aquela por que ela mais se fixou foi a imagem de um cavalo-de-pau numa sala que continha apenas uma cama.&lt;br /&gt;Voltou para casa chorando, os olhos vermelhos e o Monte Negro servindo de paisagem, ao fundo.&lt;br /&gt;O cavalo-de-pau.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O porquê de ela chorar ao ver o microquadro do cavalo-de-pau só pode ser entendido com, no mínimo, uma rápida explicação sobre sua infância.&lt;br /&gt;No mais, ela foi normal. Estela fazia parte de uma família de classe média média, do que pode se dizer que ela desceu um patamar no nível econômico-social, tendo em conta que ela, agora, pertence a classe média baixa, se esse tipo de termo for aceito, e tem que ser nesta história, pois é com ele que ela anda sendo trabalhada e, além do mais, o termo está sendo usado com um único e restrito sentido de consensualidade. Bom, que seja, ela, sim, desceu um patamar nesta área, mas elevou-se a um patamar espiritual ao qual nunca imaginou chegar, mas, assim como ela chegou nele, chegaremos nessa parte da história, que podemos chamar de epifania, mas que, na verdade mesmo, foi uma avalanche da problemática. Por enquanto, nos contentemos com a infância, que é essencial ao caso, um coadjuvante interessante para a trama. A infância normal que Estela teve foi bem divertida. Dos seus pais, não se pode dizer que eles a davam tudo, de fato não o faziam, pois criam que esse não era modo se criar criança, de se criar ser humano, mas é certo que a ela não faltava nada de essencial e que, vez ou outra, ganhava bônus, em aniversários e Natais. Num desses Natais, naquele em que tinha seis anos, ganhou um cavalo-de-pau, a quem deu o nome de Tempo, depois, retificou a escolha e o chamou Vento, mas, por fim, acabou chamando-o de Vendaval, que é um nome mais aventureiro, perfeito para um animal como um cavalo, mesmo que de pau.&lt;br /&gt;Brincou bastante com o cavalinho, pois ela própria tinha um espírito aventureiro e um senso de liderança que lhe vem naturalmente e que a fazia organizar suas bonecas em grupos de expedições em demanda de tesouros. O trauma envolvendo o cavalo-de-pau só viria a ocorrer nove anos depois, quando, em plena adolescência, Estela arranjou um... Bem, há algo mais que não foi contado. Algo extremamente importante para a história, na verdade, é a chave da história. É o seguinte: Estela tinha uma irmãzinha da qual se orgulhava bastante. Aos quatorze anos, enquanto Estela estudava, a menina, de três anos, sempre a observava do outro lado da mesa. Um dia, quando Estela entrou no quarto da irmã, a viu lendo um livro de cabeça para baixo. Ela riu e mostrou para a irmã como era o certo, mas a menina tomou o livro de volta e começou a ler em voz alta, do mesmo jeito como segurava o livro antes. Estela ficou impressionada e, só depois, notou que a menina havia aprendido por si só enquanto observava os exercícios que a irmã mais velha fazia do outro lado da mesa, do lado contrário. Certo, agora, vamos de verdade à história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O trauma aconteceu quando Estela arranjou um namorado. Daí em diante, ocorreu uma série de eventos comicamente trágicos, e a parte cômica, quando se repara bem, no final das contas, é triste. Com quinze anos, a pessoa já se sente na responsabilidade de fazer coisas para que talvez não esteja preparada. Com quinze e um namorado, Estela, desajeitada e inocente como era, decidiu transar com o namorado. É certo que foi mais uma decisão dele do que dela, mas ela acatou-a passivamente e até ofereceu o seu próprio quarto, no meio da tarde, enquanto seus pais estavam no trabalho e sua irmã tirava a sua soneca vespertina, para realizarem a primeira cópula de suas vidas. O rapaz, que já tinha dezesseis e um buço que parecia próspero, apareceu na casa dela pontualmente. Os dois foram para o quarto e começaram a se beijar deitados na cama, mas, uma brisa bateu e o cavalo-de-pau, que ficava ao lado do leito e que tinha os pés interligados como uma cadeira de balanço, começou a balançar. O rapaz olhou, fez cara de que não se importava e voltou a cuidar dos seus affaires, porém, novamente, uma brisa bateu e o cavalo balançou. Ele parou mais resolvido desta vez, levantou o corpo com os braços e passou um olhar periférico pelo quarto. Viu uma prateleira repleta de romances policiais, um armário de madeira, uma escrivaninha e outros objetos, tudo bem adulto, exceto pelo cavalo-de-pau, tão infantil. E o rapaz não suportava o infantil. "Você é muito menina", disse então a ela. "Mas, o quê?", respondou Estela. "Esse cavalo... é infantil". "É meu cavalo". "É besta". "Você acha?". "Eu sei". "É... acho que já não faz mais sentido guardá-lo mesmo, vou dar para a minha irmã depois". Falado isto, ela deu vários beijos no rapaz, como que fazendo menção de voltar para o que estavam a fazer, mas ele disse: "Agora, não suporto olhar esse cavalo balançando aí do lado mais do que eu vou balançar em você". Estela olhou assustada, interpretou o que ele disse como uma piada, até riu desconcertadamente, mas, enfim, notou que ele havia falado aquilo de uma forma um tanto rude. Mesmo assim, foi à porta da irmã, que não acordaria até meia hora mais tarde (tempo até demais para o rapaz terminar o seu serviço, se arrumar, comer alguma coisa da geladeira, cochilar no sofá e voltar para casa), escreveu um bilhete num daqueles bloquinhos amarelos oferecendo-lhe o brinquedo e colou-o virado de cabeça para baixo na testa do cavalo. Voltou para o quarto, entregou-se, esperou o rapaz se arrumar, acompanhou-o até a cozinha para ele se servir de algo para comer, permitiu que ele cochilasse no sofá e abriu a porta para ele quando ele saiu, deu-lhe um beijo, combinou com ele que se veriam em dois dias, voltou para a sala, deitou-se no sofá e, quando ela mesma ia começar a cochilar, ouviu os gritos afetados de alegria da irmãzinha, que lera o bilhete e já cavalgava. Estela, então, foi até a irmã, deu-lhe um beijo e perguntou se ela não queria ajuda para carregar o brinquedo para dentro do quarto, a menininha disse que era forte, mostrou o muque e arrastou, se esforçando um pouco, o cavalo para dentro do quarto. Estela, então, foi pôr alguma comida numa panela para cozinhar, quando o fez, o telefone tocou e ela foi atendê-lo. Era o seu namorado, que disse que não queria mais vê-la, ainda a achava infantil, e ainda disse que ela era ruim na cama. Chateada, ela correu para o quarto, trancou-o e pôs uma música alta para ouvir, cobriu-se até a cabeça nos lençóis e, de tanto chorar, acabou dormindo. Quando acordou, a casa estava pegando fogo. Correu para a o quarto da irmã e a viu arrastando o cavalo-de-pau para fora do quarto. Ela pegou a menina pelos braços e correu para fora, mas a menina continuou gritando pelo cavalo-de-pau, então, ela deixou a menina fora de casa e voltou para pegar o cavalo. Estela voltou com o cavalo, mas queimou-se nas costas, fazendo uma queimadura perfeitamente redonda de quinze centímetros de diâmetro.&lt;br /&gt;A casa, cuja estrutura era toda de madeira, ao estilo de casas suburbanas americanas, muito na moda entre a classe média desta cidade na época, foi a baixo e, observando o acontecimento sob uma dor excruciante, ela viu surgir, por trás do que restou da sua casa, o Monte Negro, belíssimo no crepúsculo. Horas mais tarde, Estela descobriria que não foi a comida no fogão que provocara o incêndio, mas a curiosidade da irmã superdotada, brincando com fósforos. De toda forma, Estela se sentiu culpada, pois deveria estar vigiando a menina.&lt;br /&gt;Então, esse foi o evento que traumatizou Estela para sempre. Dois anos depois, a sua irmã enjoaria do cavalo-de-pau, pois se interessaria ainda mais em ler, e ela o reaveria. A queimadura de Estela foi cuidada, pois, pouco depois do incêndio, uma ambulância, chamada pelos vizinhos, levou-a ao hospital. Duas marcas ficaram.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em casa, Estela, com os olhos ainda vermelhos, ficou de frente para o longo espelho grudado à porta do seu armário. Torceu o corpo para o lado e tentou manter, ao máximo, a cabeça onde estava. Viu um terço da sua queimadura e sentiu-se perdoada por si mesma. Perdoou-se pelo fato de seus pais terem que comprar uma nova casa e viverem por muitos anos pagando-a, pois, pensou bem, "eles não tinham seguro. Poderiam, muito bem, ter evitado isso". Quanto àquilo que era pessoal e que foi perdido, também perdoou-se, o dia estava para isso. Perdoar.&lt;br /&gt;Mas essa não era a história da vida de Estela. Houve, ainda, fatos mais marcantes, mas aquele era o único que deixara um objeto vivo – inanimado, mas vivo, de fato – para contar a história, todos os dias, até este último do qual falamos, no ouvido de Estela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que acontece é o seguinte: às vezes, não se consegue o que se quer. Estela queria, sempre quis, ser uma escritora de romances policiais à brasileira, de crime tupiniquim, mas o mais perto que chegou disto foi ser taquígrafa. A técnica da taquigrafia é muito interessante. Os taquígrafos são pessoas treinadas em um método que as permite escrever rapidamente, utilizando-se de símbolos especiais, que representam fonemas, e não letras. Estela trabalhava nisto, na Câmara Municipal da sua cidade, aquela em que nascera e que abrigava o majestoso Monte Negro, íngreme, alto, imperante, mas complacente.&lt;br /&gt;Um dia – e, sim, esta é a história de como ela conseguiu a pensão vitalícia por meio da indenização. Vitalícia, pois sim! –, Estela acordou, fez, como de costume – e este costume, como bem sabemos, não iria esvanecer – seu café-da-manhã, incluindo o café forte que tomava sem açúcar, e saiu para o trabalho, tão acordada como qualquer outro dia. Chegou ao trabalho, na Câmara Municipal. Aqui, é preciso que se faça uma pausa para analisar o prédio da Câmara. É, de fato, necessário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A cidade em que Estela mora, como já foi dito, é relativamente grande e, apesar dos problemas tão comuns em cidades deste porte, ela é estruturalmente bem arrumada, um pouco segregadora, mas bem arrumada. Cerca de trinta anos antes, os vereadores da cidade tiveram uma reunião de extrema importância. Tratava do crescimento desenfreado da cidade. Algo precisava ser feito, e o prefeito não se movia, então, os próprios vereadores se mobilizaram e forçaram o prefeito, através de um decreto, a reformar a cidade. O prefeito deu carta branca para os vereadores, em conjunto, cuidarem do projeto, mas este era, mesmo assim, uma obra atribuída ao Executivo. Eles, então, contrataram um engenheiro civil e arquiteto filho de um americano com uma brasileira e formado na Universidade não-sei-das-quantas nos Estados Unidos da América, segundo ele mesmo, o melhor país do mundo (por que não vai morar lá, então?). Este engenheiro-arquiteto, jovem e entusiasmado com o cargo que ganhara, decidiu criar uma região destinada à classe baixa, portanto, mais na periferia da cidade, relativamente perto do Lago Negro, criou uma grande “favela”, e uma região destinada à classe média média e alta e tirá-las da confusão de edificações, já que reformar o centro histórico da cidade, perto do monte, daria muito trabalho. Sobrou, então, para a classe média baixa, o centro histórico da cidade, junto ao Monte Negro, ao Lago Negro e à área cultural.  Foi nessa época que os pais de Estela compraram uma casa na área das classes média média e alta. Essas casas, como já foi apontado, são feitas de madeira. Um número considerável delas, e não só a de Estela, incendiou, a maioria por causa do descuido dos moradores.&lt;br /&gt;Pois bem, a respeito da Câmara, que neste processo não foi esquecida, o engenheiro-arquiteto criou um projeto magnânimo, faraônico!, para um novo prédio, em retribuição ao cargo oferecido a ele pelos vereadores. Contudo, muito dinheiro estava empregado na reformulação da cidade, mas isso não impediu os vereadores, ávidos para terem um novo local de trabalho, de tentar construí-lo.&lt;br /&gt;O dinheiro que arranjaram quase deu, mas houve uma parte do teto que ficou inacabada, sendo, depois, terminada com material de pior qualidade. É aí que se volta à história de Estela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A parte terminada com material de baixo custo ficava justo em cima do palquinho que suportava os dois taquígrafos que trabalhavam anotando reuniões importantes da Câmara.&lt;br /&gt;Estela, quando chegou ao trabalho, cumprimentou a todos, tomou um copo d'água, foi pegar seu material de trabalho e, em seguida, subiu no palquinho e sentou-se diante de uma mesa, ao lado do seu colega, que, imediatamente, se lembrou que havia esquecido algo e se levantou e saiu. Neste momento, um pedaço de madeira de um metro e meio de comprimento caiu na mesa de Estela, em sua mão direita.&lt;br /&gt;Criou-se um pânico, chamou-se um médico e, em pouco tempo, lá estava um, tratando dela. Levou-a para o hospital, tirou uma radiografia e teve que engessar a mão.&lt;br /&gt;Alguns meses depois, ela tirou o gesso, mas descobriu que não podia mais mexer os dedos médio e mindinho, que ficaram rígidos. Estela não podia mais trabalhar como taquígrafa, pois perdera a mobilidade de dois dedos, essencial para a arte da rápida escrita.&lt;br /&gt;Então, Estela entrou em processo contra a Câmara, que passou para a prefeitura, responsável legal da construção do prédio. Daí então, muitas coisas aconteceram, coisas difíceis de explicar quando não se é um advogado. Estela, por fim, ganhou sua modesta pensão vitalícia, que a permitia viver tranqüilamente sem trabalhar, mas sem muita regalia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Após ter-se perdoado, Estela foi deitar-se na cama. Havia uma coisa, que diga, um homem, que não podia perdoar. Uma frase corria a sua cabeça de cima a baixo, de um lado para o outro, traçando, invisivelmente, linhas que formavam os mais incomuns poliedros hipotéticos e cerebrais que já se havia visto: "beleza é estado, não qualidade".&lt;br /&gt;Foi com estes dizeres que um homem de quarenta anos abordou a jovem Estela, de apenas  dezenove anos e meio naquela época, enquanto ela penteava os cabelos em frente a um vidro que refletia sua imagem.&lt;br /&gt;"Como!?", foi o que respondeu Estela, que havia ouvido a frase, mas não a compreendido inteiramente. "Beleza é estado, não qualidade", repetiu o homem, dando mais ênfase às palavras, mas, ao mesmo tempo, sabendo que ela, novamente, não compreenderia. "Não entendi. O que você quer dizer com isso?". "Que beleza é estado, não qualidade", disse o homem pela terceira vez. Saiu. Encontrariam-se, os dois, quatro dias depois, quando Estela já havia entendido o que o homem quis dizer com aquilo.&lt;br /&gt;Naquele dia, no dia em que se encontraria com o homem, Estela pôs sua mochila nas costas e saiu montada numa bicicleta da pequena casa em que, naquela época, vivia com os pais. Ia à universidade, onde estudava Letras, quando desgovernou-se e, antes que caísse de cara no chão, aquele homem que havia encontrado quatro dias atrás pegou-a, aparecendo do nada. Seu nome não será mencionado, em respeito a Estela, que não gostaria de lembrar-lhe, mas, naquele momento, seu nome era tudo que ela queria saber, até ele rudemente abrir a boca. "O estado da sua beleza ia mudar drasticamente". Era um elogio mascarado, mas Estela não viu desta forma e voltou para a sua bicicleta, com a cara fechada, já não querendo mais saber seu nome, mas ele interveio mais uma vez, com um arranjo de flores. Explicou que havia visto-a duas vezes passando por ali aquela hora e decidiu comprar-lhe flores e esperá-la passar alguma hora, para que as pudesse entregar-lhe. O homem levantou as flores em direção à moça, oferecendo-as. Estela, confusa, pensou se pegava, ou não, as flores, até que notou que havia se calado por um tempo considerável para deliberar, então, terminou por aceitar as flores, agradecendo-o com um sorriso tímido de espremer de satisfação o coração de qualquer pretendente, por mais &lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;Don Juan&lt;/span&gt; que fosse. Pôs os caules das flores para dentro da mochila, deixando à mostra as pétalas. Subiu na bicicleta e saiu em direção à universidade, sol a pino e vento forte, numa cena digna das mais belas peças da fotografia.&lt;br /&gt;Para entender as intenções do homem com a entrega do arranjo de flores, é preciso retroceder no tempo em quatro dias, para o dia em que ele a viu pela primeira vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem estava passeando no &lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;shopping center&lt;/span&gt; que ficava na parte cultural da cidade, junto ao Monte Negro. Observava, de longe, uma garota virtuosa que contemplava o monte através do teto transparente do &lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic;"&gt;shopping&lt;/span&gt;. Em seguida, notou que ela virou para uma vitrine, puxou um pente da mochila que carregava nas costas e começou a pentear os cabelos. O homem lembrou-se de uma história que havia ouvido do seu avô, mas que era mentira pura, e ele nunca descobriu isso. O seu avô contou-lhe que aquele Monte, num tempo remoto, era chamado de Monte do Sol, pois todas as suas árvores enchiam-se de flores amarelas no verão. "Lindo, o Monte, meu neto, só você vendo. Hoje em dia... ele é impiedoso, olha-nos com aquele ar misterioso, que nos dá a impressão que vai comer-nos, como um buraco negro". Então, o homem pensou no hoje-em-dia por que passava e percebeu que as coisas mudavam. Resolveu alertar a moça. E foi o que fez. Depois de tê-lo feito e notado a reação confusa típica dos jovens, voltou para casa querendo mudar também, mas junto com aquela moça.&lt;br /&gt;Dois dias após, caminhando para o trabalho, viu a moça passando de bicicleta. No dia seguinte, o mesmo aconteceu. No dia que sucedeu a este, decidiu esperá-la com flores na mão para dizer-lhe que gostaria de conhecê-la, sair com ela, beijá-la, casar com ela...&lt;br /&gt;Foi a um florista. Começou a olhar as flores. Como eu não conhecia nada de flores, perguntou para o vendedor que flor era aquela – e apontou para uma flor azul, belíssima. O vendedor disse o nome, que depois o homem esqueceu, e disse que cada flor tinha um significado. "Esta, por exemplo, é uma flor para dar para doentes". O homem não se importou, achou bela e resolver pô-la no arranjo. Apontou para outra, mais escondida num canto. O vendedor disse que era flor para se dar em ocasião de morte. O homem adicionou-a também ao arranjo, a florzinha branca acinzentada. Escolheu, então, da loja, mais uma porção de flores com significado soturno, todas elas belas à sua maneira e foi esperar no canto da estrada onde havia visto Estela passar.&lt;br /&gt;Estela passou, caiu e ele a pegou. Quando suas mãos tocaram o corpo da moça, achou que um calor subiria por elas e esquentaria o seu corpo, dando-lhe uma sensação de conforto e alegria que o retornaria à infância numa memória das mais edipianas, mas o contrário ocorreu. Sentiu um desalento. Resolveu, de toda forma, elogiá-la do jeito rude que só ele sabia fazer e, ainda, oferecer-lhe as flores. A demora dela para aceitá-las não despertou no homem nenhum sentimento, muito menos o sorriso que ela deu. Nada disso o afetou, estava desencantado. Percebeu que só tinha por ela atração física e resolveu, "já que estava lá mesmo", aproveitar para conquistá-la e levá-la para a cama. Estela pôs as flores na mochila e seguiu pedalando. O homem olhou aquela cena amarela de linda acontecer e não se comoveu, somente disse para si mesmo: "essa já tá pegada".&lt;br /&gt;Sentia-se no direito de abusar dela. Segundo sua própria mente: ela havia-o desiludido&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante o caminho que percorria para chegar à universidade, Estela foi percebendo que estava mais apaixonada pelo homem desconhecido do que usualmente se permitia fazê-lo e, entrando na sala de aula, esperando pelo dia de amanhã, quando provavelmente o veria na rua, sorriu e sentiu-se agoniada ao mesmo tempo.&lt;br /&gt;No dia seguinte, de fato, sem combinarem, encontraram-se no mesmo lugar que no dia anterior. É certo que Estela chegou mais cedo, percebeu que o homem não havia chegado ainda, deu meia volta e se afastou alguns muitos metros, em seguida, retornou pedalando para o mesmo local, para parecer que aparecia casualmente. É certo também que ela repetiu o processo três vezes, até dar de cara com o homem.&lt;br /&gt;Este terceiro encontro foi executado em cima de seduções pelos dois lados. Por parte de Estela, a sedução era sensual e, ao mesmo tempo, amorosa e, por parte do homem, canalha.&lt;br /&gt;Estela faltou à aula e eles foram ao apartamento dele. Lá, o homem disse a ela que a amava. Nem precisava disso, a garota já iria transar com ele mesmo e ele sabia. Fê-lo mais como uma diversão sádica. Ao ouvir o que ele dissera, Estela vivenciou uma sensação particular, que já havia sentido outras poucas vezes: por um instante, suas narinas arderam por dentro, seu olho ficou molhado de lágrimas que não cairiam – não agora –, sua boca, involuntariamente, deu um sorriso meio fisgado e seu coração girou como um peão, com exceção que ele parecia que nunca iria parar. Beijou-o e fez amor com ele, enquanto ele fodia com ela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Passaram-se meses, eles se encontrando na rua e indo para o apartamento do homem. Estela repetiu o período que cursava na universidade. O homem, enquanto não encontrava "nada melhor", continuou encontrando-se com ela.&lt;br /&gt;O homem não queria arcar mais com os custos de transar com a mocinha, já não bastava o abuso, ele queria lucrar com isso. Disse a ela que estava passando por maus bocados e que não poderia mais se encontrar com ela, pois não tinha o dinheiro de ficar levando ela para a sua casa para comer e dar-lhe flores de quando em quando. Disse que estava prestes a ser despejado de seu apartamento se não arranjasse dinheiro em alguns meses. Estela, preocupada, quis ajudá-lo desesperadamente. Ele, então, mostrou-lhe um curso para formação de taquígrafos, oferecido de graça pela Câmara Municipal, que precisava de profissionais. O curso durava apenas dois meses e tinha cinco vagas a serem preenchidas. O melhor dos alunos ganharia uma bolsa. Estela concordou na hora em fazer o curso e, em dois meses já trabalhava na Câmara. Para isto, teve que largar a universidade.&lt;br /&gt;Um ano se passou e o homem se sustentava do dinheiro da moça, que insistia em morar na casa dele, mas ele dizia que eles não estavam ainda prontos para algo assim e que ela era sustentada pelos pais e que o dinheiro que ela dava para ele mal dava para cobrir as despesas, avalie com mais uma pessoa morando com ele.&lt;br /&gt;Mas há uma hora que a paciência estoura e, quando se começa a trabalhar, perde-se um pouco da inocência, pois vê-se o mundo mais como o mundo é. Estela, então, notou que estava sendo, de fato, roubada. Chorou muito e contou tudo para seus pais, tudo!, que tinha saído da universidade, que vinha se encontrando com esse homem etc. Então, seu pai, advogado, propôs que ela entrasse com uma ação na justiça para conseguir o dinheiro de volta e, caso ele não tivesse, o seu apartamento, que Estela vinha freqüentando há pouco mais de um ano. Foi isso, então, que ela fez e, depois de muita briga na justiça, onde adquiriu uma certa esperteza judicial que a ajudaria no caso do dedo quebrado, Estela conseguiu o apartamento do homem, que era, exatamente, aquele em que ela mora até hoje, em frente ao Monte Negro.&lt;br /&gt;Mas não acabou assim, nessa história, algo mais aconteceu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O homem recebeu uma medida cautelar, mas não deixou isso tudo passar em branco.&lt;br /&gt;Numa noite, ele foi, com uma chave reserva que conservava, ao apartamento que antes podia chamar de seu. Chegou ao décimo terceiro andar e pôs a chave na fechadura, tentou girá-la uma vez, o suficiente para tomar consciência de que Estela havia trocado de fechadura. Então, deu uns três passos para trás e se projetou em direção à porta a fim de preterir a barreira daquilo que considerava inadmissível.&lt;br /&gt;O barulho da colisão acordou Estela, que dormia no sofá da sala, pois não queria fazê-lo na cama onde construíra ilusões. De súbito, ela levantou-se e deu de cara com o homem, que já segurava um canivete armado e partia para cima dela, que desviou pulando no chão. Houve, então, uma luta tão embaraçosa que é difícil de descrever, pois o homem estava, na verdade, bêbado, e Estela, ébria de sono. O que se pode contar é o produto dessa briga, que foi um corte de um palmo na perna de Estela e uma queda de treze andares do embriagado homem, que, claramente, perdeu o combate para a delicada Estela. Ela chamou polícia e ambulância e esperou tudo se resolver. E tudo se resolveu eventualmente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da janela da cozinha, Estela não olhava agora o Monte Negro, olhava para baixo, para o pátio do prédio onde morava. Foi novamente ao espelho, olhou a cicatriz na perna, olhou, de novo, a queimadura, tentou mexer os dedos imóveis e pensou que as cicatrizes são lembranças muito piores que objetos, como o cavalo-de-pau, pois, deles, podemos nos desfazer, nos afastar, podemos queimá-los e destruí-los - é certo que sempre algo fica, mas há um certo alívio em despojar-se de algo concreto, mesmo que algo abstrato permaneça. Quanto às cicatrizes, elas ficam, no concreto e no abstrato, o importante mesmo é aprender a conviver com isso, como a moça acabara de fazer (cá está a epifania).&lt;br /&gt;Estela voltou para a janela e olhou para cima, mas não para o Monte Negro, e muito menos para o céu. Olhou para cima, e só.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-6686278844941003962?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/6686278844941003962/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=6686278844941003962&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6686278844941003962'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6686278844941003962'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2009/04/vista-do-monte-negro.html' title='a vista do Monte Negro'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-2326620600475931355</id><published>2009-02-06T10:21:00.000-08:00</published><updated>2011-12-04T19:22:07.834-08:00</updated><title type='text'>a cidade toda branca</title><content type='html'>A Lia,&lt;div&gt;Na sanidade e no absurdo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desde não se sabe onde, o trem marchava carregando um punhado de gente.&lt;div&gt;Um observador, à distância, sentado num precipício, pronto para pular e acabar com sua vida, viu a fumaça cinza-escuro se aproximar. Esperou, por respeito, a Maria passar e, quando não havia mais nenhuma partícula acizentada no ambiente, jogou-se.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O maquinista, que estava distraido cantando uma música, se assustou quando um sagüi se chocou contra o parabrisas do trem. Colocou seu busto para fora do veículo, retirou o corpo do pequeno primata do vidro onde jazia e arremessou-o para longe.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Evaristo, cansado da viagem que já durava não se sabe mais quanto tempo, adormeceu e, logo em seguida, abriu os olhos, pois o trem havia parado. De um alto-falante, saiu uma voz rouca e grave pedindo para que os passageiros que descessem naquela estação colocassem os seus respectivos óculos escuros. Evaristo se levantou, jogou sua mochila vermelha nas costas e pôs na face seus óculos escuros de aros verdes. Foi o único que desceu do trem e, assim que o fez, teve seus olhos, mesmo que protegidos, ofuscados pela claridão da cidade, da cidade toda branca.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Saiu, então, da estação branca e passou por ruas brancas, praças brancas, onde havia bancos de sentar brancos e árvores brancas, casas brancas, com telhados, cercas, portas e janelas brancos, postes brancos, carros brancos, um mercadinho branco, bares brancos, um posto de gasolina branco e muito mais coisas brancas, tudo isso sem se deparar com nenhuma pessoa, branca que fosse!&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Chegando ao fim de uma rua, Evaristo encontrou um orelhão branco, tirou um papel de um bolso de sua calça jeans e um cartão telefônico. Inseriu o cartão e, em seguida, retirou-o de onde o havia colocado, pois, na pequena tela apareceu os dizeres: "Cartão inválido. Favor inserir o cartão branco". Ele, então, ligou a cobrar e esperou a pessoa da outra linha atender o telefone. Uma pessoa atendeu, mas desligou em seguida, provavelmente pelo fato de a ligação ser a cobrar. Evaristo não desistiu e ligou novamente e, novamente, a pessoa atendeu e desligou. Fê-lo mais uma vez, jurando para si mesmo que seria a última, mas mais uma vez a pessoa da outra linha desligou. Evaristo coçou a cabeça, pressionou as têmporas com os dedos médio e polegar da mão esquerda, que não segurava o telefone, e telefonou pela, e agora estava convicto de que não repetiria o processo, última vez. O telefone mal tocou e foi atendido. Depois de esperado o tempo que decorre para ser identificado que é um telefonema a cobrar, a voz arranhada de uma mulher se manifestou.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Alô."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Alô, sou eu, Evaristo. Eu estou num lugar aqui onde tem um orelhão branco."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Há um número considerável de orelhões aqui... e todos são brancos."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Deixa eu ver, então, se tem alguma coisa aqui perto."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;De uma panificadora, nesse instante, liberou-se um cheiro de pão francês quentinho e branquinho. Evaristo, então, aproveitou a pausa que, de qualquer forma, faria, pois tinha que olhar em volta para ver se achava um ponto de referência, para inspirar aquele odor que o retrocedia a tempos tanto remotos como recentes. E, por causa disso, nem notou que a panificadora era o ponto de referência, até que a mulher se pronunciou em elevado volume, tirando Evaristo do seu estado de comoção, sentimento recorrente no dia-a-dia desse homem de cinqüenta e dois anos.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Desculpa, eu me distrai..."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Hum... teve uma daquelas divagações?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Tive... e, ah! Tem uma panificadora aqui do lado, chama-se 'Panificadora'. Conhece?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Conheço! Fique na frente dela que eu tô indo."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Chegou a mulher num carro branco, tão branco, que ofuscava o que fosse ao seu redor, tão branco, que nem se podia saber de que marca era, poderia, até, ser um barco com rodas, e não se notaria, tão branco, que Evaristo, tentando olhá-lo diretamente, desejou estar usando um segundo par de óculos. Evaristo entrou no carro.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Oi."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Oi."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A mulher, com os cabelos organizados de forma esdrúxula e infestados de laquê, deslizou o braço por trás de Evaristo, tocou-lhe o ombro e deu-lhe um beijo na testa, marcando-o de batom branco.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Como foi a viagem, Evaristo?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Insólita, no mínimo."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Como assim?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Eu dormi e tive um sonho estranho. Eu sonhei que eu só falava com vocabulário refinado, o que provocava, em meio aos meus discursos, interrupções de pessoas sensatas a dizer: 'faça-se entender, homem!', ao que eu respondia, com ares ainda mais de filólogo: 'e você, faça como eu, deixe de lado a modéstia e agarre-se à soberba, que é a única coisa que nos resta neste mundo onde todos são nada'."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Estranho mesmo, hein?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Estranho, mas não louco."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"De forma alguma, meu querido. De forma alguma."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Evaristo acordou. Estava numa sala toda branca com quatro lâmpadas fluorescente, em forma de bastões, cuja disposição no teto formava um quadrado. Sentou-se na cama, enxugou uma lágrima proveniente do sonho e levantou-se. Foi até a porta e tentou abrí-la, mas não conseguiu. Não gritou, não imediatamente. Foi até o lugar mais longe possível da porta, correu em direção a ela e colidiu-se com o empecilho entre ele mesmo e a liberdade. Não funcionou, pois a porta era muito pesada, então, foi aí que ele começou a gritar e, em seguida, ouviu gritos ecoando por todos os lados, mas estranhou o fato de nenhum deles se assemelhar à sua voz. Acalmou-se, então, e resolveu esperar. Os gritos cessaram e ele se deitou.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Às oito e pouco, a porta se abriu. Evaristo, deitado na sua cama com o cobertor puxado até o rosto, levantou-se calmamente e olhou curiosamente para o homem extremamente negro e para a roupa extremamente branca que usava.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"A gente vai tomar o café da manhã, tá certo?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Evaristo balançou a cabeça afirmativamente.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Os dois saíram da porta e deram com uma rua branca, por onde caminharam por um tempo que Evaristo considerou longo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Você não tem carro?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Não, não... o 'carro' é apenas para os recém-chegados ou para os que estão piores."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Piores como?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Você vai ver."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Mas o que Evaristo viu foi um banquete imenso armado em uma praça maravilhosamente branca, cheia de gente. Correu para arranjar um lugar e o homem negro foi atrás. Sentou-se e iniciou o desejum. O homem negro, que ficou em pé, andou uns passos para trás para conversar com outro rapaz que estava de pé. Evaristo aguçou os ouvidos e escutou a conversa que, pelo volume da voz, não parecia nem um pouco confidencial ou privativa, mas descobriu que era para ser, pois concernia a ele. O homem negro simplesmente negligenciou sua presença e falou a seu respeito como se o próprio não estivesse presente a três passos de onde ocorria a conversa. Foi isso que se disse:&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Tô cuidando do cara novo aí."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"E ele dá trabalho?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Não dá para saber ainda. Chegou ontem. Se bem que, até agora, não fez nada."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"E ele é o quê?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Meio 'esquizo', eu acho, mas, pelo menos, não é uma bicha como o outro de quem eu tava tomando conta."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Evaristo levantou os olhos, assustado. Bruscamente, virou a cabeça para o lado da conversa, mas, depois, decidiu disfarçar. Pôs mais uma colher de purê na boca e, rapidamente, levantou-se e correu. O negro, que ainda batia papo e estava de costas para Evaristo, foi alertado pelo colega e correu, perseguindo-o. Alguém jogou-lhe uma camisa de força e ele conseguiu alcançar o fugitivo. Murmurou umas palavras reconfortantes que acalmaram Evaristo, mas isto se deu porque, em sua cabeça, elas soaram assim:&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Está na hora de você se enturmar."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Como assim?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Vista-se de branco, como nós. Cá tenho eu um paletó maravilhoso, impecavelmente branco."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Isto não é um paletó."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"É, sim!"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E a camisa de força se transformou um paletó bem em frente a Evaristo que, com os olhos brilhantes, recebeu, de bom grado, a vestidura.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Obrigado! Agora, faço parte da turma!"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"E você vai andar de carro!"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Oba!"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O homem negro fez sinal para um rapaz que estava longe e ele, em seguida, chegou empurrando uma cadeira de rodas.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Enquanto Evaristo via a paisagem passar pela janela do carro, o homem negro empurrava a cadeira de rodas pelos brancos e repletos de quadros corredores do Hospital Psiquiátrico Bispo de Winchester. Chegaram, enfim, a uma sala. Dentro dela, estava a mulher com o cabelo estranho e cheio de laquê que ele havia encontrado no dia anterior. A sua voz arranhada riscou num quadro-negro as seguintes palavras:&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Vejo que está todo arrumado."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Vejo que o seu cabelo, não."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O homem negro se intrometeu:&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"É que ele não tem quase nenhuma noção da realidade, senhora. O seu cabelo está ótimo."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"E você acha que eu não sei?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Virou-se para Evaristo.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Evaristo, talvez você não saiba o que se passa no momento. Todo mundo tenta fugir nos primeiros dias, mas, depois, todos querem ficar aqui para sempre. A gente vai ter a nossa primeira conversa agora, ok?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Evaristo continuou parado.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"A gente precisa conversar sobre realidade."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"A gente precisa conversar sobre o infinito."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Pois bem, se é o que você quer, fale sobre o infinito."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Certo. Eu tenho uma pergunta para você."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Faça-a."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Você acha que, um dia, nós descobriremos tudo a respeito do Universo?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Não, não acho."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Certo, certo. Eu também não. Agora, você acha que existe uma quantidade limitada de conhecimento, ou você acha que ele é infinito?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Como assim?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Como é que eu posso explicar? Você acha que o conhecimento é como uma argola quebrada?, como se a gente pudesse descobrir tudo o que há nela, menos a parte que está quebrada, que foi perdida para sempre e que nós nunca poderemos encontrá-la? Ou você acha que ela é como uma linha com um ponto de partida, mas sem ponto de chegada? Como se houvesse infinitas coisas para se conhecer."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Não estou certa de que entendi."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Você acha que, um dia, nós não poderemos mais descobrir nada, pois tudo que há ao nosso alcance de descoberta já foi descoberto, restando, apenas, no mundo, aquilo que nunca descobriremos, ou você acha que não há alcance de descoberta, que uma descoberta atrai outra, até o infinito, e nós sempre teremos dúvidas novas?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Eu acho que não há limites de descoberta. Que, sempre, haverá novas coisas a descobrir."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Mas você não acha essa idéia perturbadora?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Acho que sim... a idéia de que sempre haverá um vazio é, de fato, perturbadora."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"É, sim, mas não há vazio. O vazio há apenas na metáfora da argola."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Não, não. O vazio da argola, que você quer dizer, é, apenas, estático. O vazio que eu quero dizer, o da linha, é um vazio que muda constantemente."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Muda ou diminui?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Diminui, tá certo."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Mas esse vazio não é infinito?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Sim, de fato."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Como ele diminui, então? O infinito é, sempre, infinito. Não diminui."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"É verdade... então, só há duas respostas para isso."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Quais?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Ou ele aumenta e diminui ao mesmo tempo, ou ele nem aumenta, nem diminui."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Não faz sentido."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Não é para fazer."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Isso! Assim como a vida. A gente não precisa de sentido - de realidade - na vida. Assim, também, como no infinito."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Hum, entendi o que você quis fazer aqui."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Eu só falei do que você queria falar em primeiro lugar."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"É, só."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Pausaram por um instante. Evaristo respirou fundo e perguntou:&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Isto aqui é um hospício, né?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"É."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Aquela hora em que eu liguei do orelhão, eu liguei para você mesmo?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Não, para a sua mãe, você tinha direito a uma ligação."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Hum... Vocês têm a voz parecida... E por que eu liguei a cobrar?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Vai saber!"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"E as ruas? São ruas?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Não, são corredores."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"E o trem? Eu vim de trem, não foi? Sempre quis andar de trem!"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Não, você veio carro. Seu irmão te trouxe, te deixou aqui e foi-se."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Por quê?"&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Você tem umas divagações e passa alguns períodos fora da realidade."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"Não vejo o problema nisso."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;span class="Apple-style-span" style="font-style: italic; "&gt;"E, agora, nem eu."&lt;/span&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;No dia seguinte, Evaristo não acordou, mas o dia acordou mesmo assim, e acordou frio e manchado de sangue. Não havia sangue literalmente, pois a mulher do cabelo desorganizado - que ficou com medo de perder clientes por causa da desmascaração da loucura - assassinou Evaristo, alimentando-o com um jantar envenenado. Mas é muito mais poético, muito mais irreal, pensar que, de manhã, na cidade toda branca, no quarto todo branco, na cama toda branca, jazia Evaristo, coberto com um lençol que deveria ser branco, mas era vermelho.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-2326620600475931355?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/2326620600475931355/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=2326620600475931355&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2326620600475931355'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2326620600475931355'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2009/02/cidade-toda-branca.html' title='a cidade toda branca'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-446518433115854884</id><published>2008-12-19T12:21:00.000-08:00</published><updated>2011-12-04T19:24:31.025-08:00</updated><title type='text'>duas pernas, dois braços, um focinho</title><content type='html'>&lt;span class="Apple-style-span" style=" ;font-family:'Times New Roman';"&gt;&lt;div style="border-top-width: 0px; border-right-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px; border-style: initial; border-color: initial; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; padding-top: 3px; padding-right: 3px; padding-bottom: 3px; padding-left: 3px; width: auto; font: normal normal normal 100%/normal Georgia, serif; text-align: left; "&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div style="border-top-width: 0px; border-right-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px; border-style: initial; border-color: initial; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; padding-top: 3px; padding-right: 3px; padding-bottom: 3px; padding-left: 3px; width: auto; font: normal normal normal 100%/normal Georgia, serif; text-align: left; "&gt;Que tem cheiro de beijo&lt;/div&gt;&lt;div style="border-top-width: 0px; border-right-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px; border-style: initial; border-color: initial; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; padding-top: 3px; padding-right: 3px; padding-bottom: 3px; padding-left: 3px; width: auto; font: normal normal normal 100%/normal Georgia, serif; text-align: left; "&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="border-top-width: 0px; border-right-width: 0px; border-bottom-width: 0px; border-left-width: 0px; border-style: initial; border-color: initial; margin-top: 0px; margin-right: 0px; margin-bottom: 0px; margin-left: 0px; padding-top: 3px; padding-right: 3px; padding-bottom: 3px; padding-left: 3px; width: auto; font: normal normal normal 100%/normal Georgia, serif; text-align: left; "&gt;- Sabe, né?, que, depois que a gente se beija, a gente fica com um cheiro.&lt;div&gt;- Um cheiro?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- É. Um cheiro.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;O rapaz estava ali, ela, aqui. Via-o de longe, por trás das folhagens, o pobre antílope indefeso carregando pelos cantos sua inocente maleta, indo de uma seção a outra. Era dele mesmo que ela gostava (então, pobre era ela, não ele), mesmo sem saber seu nome, mesmo sem nunca ter trocado palavra com ele, mesmo sem nem saber o que ele fazia na mesma empresa que ela, carregando aquela estúpida maleta de seção em seção. Ela não era tímida. Não falava com o rapaz porque notou, logo de cara, que ele era decente. Não queria que ele se decepcionasse com ela pelo seguinte motivo: ela não conseguia se manter numa relação. Não porque não queria, mas porque seus parceiros a estranhavam quando copulavam. É que, para ela, o coito era uma coisa animal mesmo, fora dos limites da lógica humana, e era por isso que, durante o ato, comportava-se como bicho: grunhia. Mas não começava já vigorosa. Haviam fazes por que passava. Não era como se o sexo se jogasse nela e tomasse posse de imediato, era mais como se ele se enrolasse nela, como se começasse de baixo, como uma cobra rastejando, subisse devagar até a sua cabeça e, ainda forte e sereno, dominasse até o seu último fio de cabelo, fazendo com que ela, a partir daí, gemesse baixinho, com uma voz fina, como passarinho recém-nascido, depois, passasse para algo mais alto e mais estridente, tentando chamar atenção, como um cão chorando, e, por fim, quando já estivesse toda enrolada de prazer, encarnasse todos os animais: porco, gorila, onça, baleia... Então, gritava, possessa, olhos revirados, corpo tremendo, pés e mãos contorcidos, calor se irradiando, fogo total! Depois, chegava a vez da respiração ofegante, do sorriso de satisfação, do esfriamento, do relaxamento, do esgotamento das energias. O parceiro ficava, então, olhando aquele bicho que havia se saciado, agora, dormindo. Aproveitava a chance e fugia para não correr o risco de ser engolido por acordar a fera, sem saber que, para acalmar a fera, bastava, apenas, ser mais brabo que ela.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Sempre que o pobre antílope passava por ela, pensava nisso e sentia que ele não daria conta do recado, não conseguiria ser mais brabo que ela na cama.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;- Aaah! Cadê o chão!?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Bateu os braços, então. Bem forte. E voou.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Memória...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Cheirou o seio da mãe, que exalava o olor lácteo. Defecou em lugares e horas inimagináveis. Deixou de usar as quatro patas e passou a usar apenas duas. Brincou. Odiou as meninas. Apaixonou-se pelas meninas. Agitou pela primeira vez seu pênis com o único e exclusivo intuito de excitá-lo. Cresceu. Aprendeu. Vagabundeou. Namorou. Formou-se. Apaixonou-se perdidamente. Casou-se. Teve filhos. Achou que estava feliz e...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;-Aaah! Cadê o chão?&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;***&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ali está a minha mulher, bem ali. Enorme, a bunda dela! Enorme! A barriga também, que ela está prenhe.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Atrás dela vai o resto do trem, a nossa cria, meia dúzia de moleques sujos e barulhentos.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Meu pai e minha mãe estão ali, ó, do lado direito. Não sei nem por que eles estão lá, entregaram-me ao mundo quando eu tinha apenas seis anos, não sei o que querem de mim agora. Justo agora! Eu até admito a presença da minha mãe, ela foi quem me deu de comer, meu pai, contudo, nunca trabalhou.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Meus amigos. Olha eles! Estou vendo uns bem safados, nos quais eu nunca confiei, não entendo por que compareceram, não vão sentir minha falta. Aliás, quem vai sentir a minha falta, só, é minha mulher, que está bem ali, com a bunda enorme, barriga enorme, cria enorme. Como ela vai alimentar esse bocado de gente, eu, sinceramente, não sei.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Inclusive, acho bobagem me enterrarem, deveriam me pegar para comer. Eu tenho um bom volume, dá para fazer um banquete razoável...&lt;/div&gt;&lt;div&gt;É... não dá para ver mais ninguém daqui, as nuvens atrapalham um pouco. Então, não tem muito mais que eu possa dizer, né? Não muito... acho que fico por aqui, então, e pronto e ponto.&lt;/div&gt;&lt;/div&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-446518433115854884?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/446518433115854884/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=446518433115854884&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/446518433115854884'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/446518433115854884'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/12/duas-pernas-dois-braos-um-focinho.html' title='duas pernas, dois braços, um focinho'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-7229432205909164314</id><published>2008-10-30T09:29:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:25:30.206-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='R.-F.'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quo'/><title type='text'>absoluto</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Que anda escutando Vivaldi, enquanto eu ando escutando Mozart&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Acordou com Réquiem, de Mozart. Achou estranho, esfregou os olhos e andou pela casa, procurando o som.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Chovia forte, muito forte.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Deduzindo que, de fato, o som não estava dentro da sua casa, mesmo sendo ele bem nítido, resolveu abrir a janela da sala e escutar de onde ele vinha. Quando o fez, o barulho se fez bem mais forte e violentou seus ouvidos sem lhe pedir licença. Apesar da violência da música, Olegário se sentiu bem, muito bem. Então, calmamente, andou em direção ao antigo piano do seu pai, pelo qual nunca havia se interessado, mas usava como decoração, e abriu sua cauda. Com os dedos, deu peletecos nas cordas e notou que, apesar de anos sem uso, do velho piano ainda desprendia um som harmônico. Fechou a cauda, sentou-se no banquinho e, depois de menos de cinco minutos mexendo nas teclas do instrumento, começou a acompanhar a música que vinha de fora e que não cessava, mas, depois de algum tempo nessa sessão, a chuva foi parando e, junto com ela, a música.&lt;br /&gt;- Hum...&lt;br /&gt;Fechou os olhos e se concentrou. Lá longe, a dois quilômetros e quarenta e três metros de distância, um prédio estava sendo construído. Bate-estaca, martelos, argamassa sendo jogada na parede, carrinhos-de-mão enferrujados, tudo isso fazia barulhos coordenados, notas, melodias, sons. Olegário, então, levantou-se e voltou para seu quarto, onde descansava seu violão, instrumento que, numa tentativa malograda, tentara aprender a tocar aos quinze anos para impressionar mocinhas. Abriu o armário e, no fundo, havia uma caixa preta. Pegou-a, abriu-a e tirou de dentro um violão impecavelmente novo, apesar de haver, naquele instante, mais de vinte anos. Sentou-se em sua cama, posicionou o instrumento sobre suas pernas e deu uma batida nas cordas. O som que ouviu o incomodou bastante, então, ele levou as mãos às tarrachas e, rapidamente, apertou umas e afroxou outras. Deu uma outra batida e estava tudo perfeito, assim mesmo, em poucos segundos. Então, copiou a sinfonia da construção no seu violão, ela flutuava, aumentava, diminuia, esticava e dançava, mas a base era a mesma, marcada pelo bate-estaca. Só parou de tocar quando os operários, todos, pausaram o trabalho para almoçar.&lt;br /&gt;- Hum...&lt;br /&gt;Foi para a cozinha para comer também. Abriu o armário de pratos e pegou um. Este bateu levemente em outros, que tiniram baixinho, mas, mesmo assim, afetaram negativamente os tímpanos do pobre Olegário, que acordara com um dom tão extraordinário quanto inconveniente. Abriu a porta enferrujada da geladeira e sentiu um calafrio, outro ainda maior quando a fechou, depois de pegar alguns ingredientes para uma sopa. Ligou uma boca de fogão eletricamente e se arrependeu disso, pois soa um barulho como que o de uma campainha quando ele a liga assim. E os barulhos quotidianos, tais quais arrastamento de cadeiras, goteiras e insetos miúdos caminhando, que no início do dia haviam lhe dado prazer, pois deles saíam acordes, agora, às duas da tarde, atordoavam-no. Ele cobriu as orelhas com as mãos, deitou no chão e ficou sem saber como reagir.&lt;br /&gt;Deixaram-no absolutamente louco, seus ouvidos.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-7229432205909164314?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/7229432205909164314/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=7229432205909164314&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7229432205909164314'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7229432205909164314'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/10/absoluto.html' title='absoluto'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-6050815756579300793</id><published>2008-10-25T13:50:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:29:11.368-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quo'/><title type='text'>o dia, a dor</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Cujo vestido enlaça meu paletó&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Queria, desejava, almejava, ansiava, precisava de um copo d'água, mas não conseguiu levantar-se, ficou na cama sendo chicoteado por uma dor de dente no primeiro molar superior do lado esquerdo da boca. Fez menção de olhar para o relógio que, habitualmente, se situava em cima da sua mesa de cabeceira, mas se lembrou que ele havia quebrado dois dias antes. Então, olhou para a janela e calculou que deveria ser ou cinco da manhã, ou cinco da noite. Decidiu levantar-se.&lt;br /&gt;A dor de dente era forte e contínua, parecia que não dava para ficar pior do que aquilo, mas, a cada passo que ele dava, sentia a cabeça doer também, uma dor lancinante. Contudo, continuou, obstinado a chegar à cozinha. Parecia que não bebia água há anos. Abriu a geladeira, alcançou uma garrafa e pôs água bem gelada dentro de um copo que pegara, em seguida, engoliu tudo de vez e se sentiu bem melhor. Serviu-se novamente, mas resolveu, desta vez, beber mais calmamente, apreciando a refrescância do líquido. Levou o copo aos lábios e deixou passar um fio d'água por dentro da boca. O toque frio que sentiu no dente que doía o fez arrepiar-se, mas o sabor (sim, pois quando se está com muita sede, a água tem gosto) da água o fazia esquecer de tudo. Por fim, deixou o copo de lado e tomou o que sobrara direto da garrafa. Cambaleou um pouco, recompôs-se e voltou para o quarto.&lt;br /&gt;Abriu o armário em busca de um paletó, encontrou-o ao lado do vestido vermelho de sua falecida mulher, o único que decidiu guardar para si, pois era o seu preferido. Afastou o vestido e pegou um paletó cinza meio fora de moda, antigo, mas conservado. Demorou muito tempo para vestí-lo. Quando terminou, pensou por que o havia posto. Não havia motivo. Na verdade, só o fez porque parecia correto fazê-lo. Olhou-se no espelho e se achou feio, não combinava com esse tipo de roupa, mas, para poupar o trabalho, decidiu sair assim mesmo. Seu dente ainda estava ruim, mas percebeu que a dor de cabeça passara. Ia ao dentista, o único da cidade.&lt;br /&gt;Já era meio dia, soube disso porque viu no grande relógio de pulso que um transeunte carregava consigo. Porém, não aparentava meio dia, estava tudo meio escuro. Pensou que deveria ir ao oftalmologista após a consulta no dentista. "Insólito, o dia, e bata na boca quem disser que não está, porque isso é coisa de Deus querendo algo", era o que diziam os velhos que jogavam dominó na rua. Ele nunca havia notado que em cada esquina havia um grupo de senhores a jogar tal jogo, cada um deles diferente: um profético, outro, científico, outro, filosófico, outro, religioso etc. Porém, entre todos, parecia haver um consenso: o dia estava doido.&lt;br /&gt;Seguiu uma rua estreita de casas geminadas de um lado e de outro. Sentiu-se um pouco claustrofóbico. Finalmente, chegou ao seu final. Estava, agora, na praça da cidade e o consultório era do lado oposto de onde se encontrava. Olhou para a direita e viu uma locomotiva: eram quatro cegos em fila indiana - cada um com as mãos nos ombros do da frente - sendo guiados por um paraplégico em cadeira de rodas. Não queria, mas riu. O paraplégico logo notou que o motivo do riso era a sua situação e, com os olhos, o amaldiçoou, como quem dizia: "eu te vejo, não pense que isto não pode acontecer com você, pois pode!, e vai!, talvez ainda algo pior!". Ele se estremeceu todo e, quando mirou os cegos, viu que todos observavam-no, cada um seguindo, com olhos que não viam, os movimentos tremelicantes do seu corpo, que corriam de cima para baixo. Envergonhado, correu para o consultório. Sentia que as pontadas de dor de cabeça voltavam agora, e mais fortes, e seu dente começou a doer mais ainda. Resolveu, portanto, correr mais rapidamente, mas as dores aumentavam, mais, mais, mais... Chegou!&lt;br /&gt;Bateu três vezes na porta e ouviu o som reverberar na sua própria cabeça: era a dor, que ainda não passara. Bateu mais forte, três vezes novamente. Nada... resolveu tentar a última vez e, quando ia dar a segunda batida, ela se abriu. Seu rosto iluminou-se, tanto, que pareceu que o dia havia ficado claro também, mas não!, onde ele mora, os fenômenos naturais, mesmo os alegres, só casam com a desventura. O doutor o cumprimentou com um sorriso no rosto, mas, lamentando-se, informou-o que não poderia atendê-lo. Ele perguntou por quê, já que não havia mais ninguém à espera. O doutor disse que era o "Dia mundial dos dentistas" e que ele não trabalharia. Ele quis rir daquilo, mas só perguntou ao doutor, meio que zombando: "se hoje é o dia dos dentistas, não é, justamente, o dia em que você deveria trabalhar?". O doutor irritou-se e bateu a porta na cara dele. Ele ia reagir, mas leu na porta um papel que não notara, dizia: três de outubro - Dia mundial do dentista"; e, em baixo: "vinte e cinco de outubro - Dia nacional do dentista". Então, ele refletiu a respeito: "imagina se todos os dentistas não estiverem trabalhando hoje? Que absurdo, obviamente que isso não deve estar acontecendo! Esse cara é que é um vagabundo". Pegou o papel e guardou no bolso para vingar-se do dentista, pois ele havia batido na porta porque não vira o papel, mas haveria pessoas que veriam o papel e, então, voltariam para as suas casas sem bater, porém, sem papel na porta, todos que chegassem lá teriam que incomodar o doutor. Sentiu-se sagaz e bajulou a si mesmo mentalmente, pensando em vários elogios que diriam sobre ele se o vissem realizar tal façanha genialmente maligna. Depois, viu que tudo aquilo era meio bobo, sentiu-se criança de novo, quis voltar e colar novamente o papel, mas percebeu que estava gostando daquele sentimento infantil de vingança besta e, ademais, já havia se afastado bastante do consultório.&lt;br /&gt;Inevitavelmente, pensou no paraplégico: "aquilo ali é bem um pai de santo, um filho duma puta que lançou uma macumba em mim, mas, deixe!, é só eu não acreditar, que nada acontece". Que azar, dor de dente justo no Dia mundial dos dentistas, o dia em que os dentistas preguiçosos podem se dar ao luxo de não trabalhar! Levantou os ombros e seguiu para o único bar da cidade, que também ficava na praça: "o negócio, então, é neutralizar a dor com uns copos de cachaça". Entrou no estabelecimento. O dono, que também era o barman, estava, como nos filmes de faroeste, limpando um copo com um pano. Não havia ninguém lá. Ele, então, pediu uma cachaça. O dono disse que não poderia serví-lo. "Agora deu... por que não?", ele perguntou. O dono explicou que eram ordens da prefeitura: "nada de bebida antes das seis, eles dizem, foi por causa da morte daquele homem na semana passada. O assassino e a vítima, parece, estavam bêbados e fizeram aquele espetáculo à luz solar de que todos lembramos, brigando e terminando a briga com um tiro". Ele disse que "isso é um absurdo! Todos sabem que eu não sou assassino". O dono respondeu que "ordens são ordens, perder a minha licença é que eu não vou, afinal, este é o único bar da cidade... ah, e nem adianta ir nos mercados, eles também não podem vender". Ele disse que queria ter bebida em casa, deu um murro na mesa e saiu aparentando mais revoltado do que triste, mas, na verdade, sentia-se mais triste, bem mais triste!, do que qualquer outra coisa.&lt;br /&gt;Flanou pelas ruas da cidade e só lhe aconteciam coisas ruins: topou a canela diversas vezes, queimou-se numa barraca de tapioca, viu, pela janela de uma casa, a mulher do seu melhor amigo traindo-o, teve que fugir de um cachorro em cujo rabo pisara etc. E tudo isso em meio a uma dor que não acabava nunca! Teve uma idéia! Foi de casa em casa pedindo um gole d'álcool, pedindo uma bebida, mas todos que o viam, vestido em seu terno, que já estava todo rasgado devido aos maus momentos que passara até então, negavam-no qualquer coisa, até aqueles que o conheciam, com medo de ele ter caído numa vida de vadiagem.&lt;br /&gt;Na praça, bateu na porta da casa do homem mais rico da cidade e repetiu o que vinha fazendo: pediu "uma cachacinha, ou coisa assim". O servente que o atendera nem pensou: simplesmente, o levou para fora de casa e deu-lhe uma rasteira. Ele, então, levantou o rosto e se deparou, de novo, com a locomotiva. O paraplégico olhava-o com uma expressão de reprovação. "Você, você, seu pai de santo, filho de uma puta do caralho! Você fez isso comigo", ele disse e, quando já havia se posto de pé, quando já levara o punho cerrado ao alto, quando já estava na iminência de soquear o deficiente físico, um dos cegos, o último da fila, despregou-se do trem e deu-lhe um murro, voltando, em seguida, a ser vagão.&lt;br /&gt;Ele, caído no chão, viu, em sua frente, o dente, fruto de sua dor, junto com mais dois outros que nada tinham a ver com a história, só eram vizinhos do maldito. Olhou para o cego e, não se importando que aquele que o atacou não podia vê-lo mexendo a boca, articulou uma palavra sem que saísse som: "obrigado".&lt;br /&gt;Fechou os olhos e sonhou com a mulher que havia morrido no passado e com um futuro sem dor de dente.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-6050815756579300793?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/6050815756579300793/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=6050815756579300793&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6050815756579300793'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6050815756579300793'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/10/o-dia-dor_25.html' title='o dia, a dor'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-2028024308524422426</id><published>2008-10-02T11:46:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:30:21.576-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='R.-F.'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Possessia'/><title type='text'>história deles (retificada)</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Cujo nome rima com meio milhão de palavras&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Ele... ele era um cara, assim, meio forte, tinha umas tatuagens, a maioria nos braços e um dente de ouro. Era marinheiro, mas meio desgostoso da vida. Andava meio amalandrado, involuntariamente conquistando as mulheres, todas, por onde passava, mas não as dava atenção, pois ficava ciciando uns versos que criava na hora, isso o deixava extremamente concentrado. Naquele dia em que desembarcou no porto daquela cidade que, àquela época exalava um vigor, uma energia e um certo misticismo, mudou sua vida e a de uma mulher. Ele estava fazendo o de sempre: andando meio que dançando e sussurrando para si mesmo uma música.&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;A vida&lt;br /&gt;É uma casca de ferida&lt;br /&gt;Fétida, descolorida&lt;br /&gt;E mais frágil que papel&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O céu&lt;br /&gt;É só um azul jogado ao léu&lt;br /&gt;Com um ruim gosto de fel&lt;br /&gt;E nuvens a flutuar...&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Parou nesse instante. Não acreditou! Apertou os olhos, pensou se era verdade ou não. Era! Uma moça, das mais lindas!, no mar, banhando-se. Apertou ainda mais os olhos. Era linda mesmo! Morena, provavelmente por causa do sol, os quadris largos como a baía em que se molhava, seus cabelos chegavam à cintura, quase, e suas mãos, delicadas, seguravam, pela bainha, o seu vestido amarelo com flores vermelhas já meio desbotado, mostrando discretamente (dependendo do quanto ela movimentava as mãos para cima e para baixo) pedaços de sua coxa não muito grossa, mas firme, lisa e bronzeada. A mudança de clima mudou a música que ele cantava:&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Mas o mar!&lt;br /&gt;O mar me faz ficar sem ar&lt;br /&gt;É só parar e observar&lt;br /&gt;As belezas que ele tem&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;Suas pernas se moveram involuntariamente em direção à moça, enquanto seu coração batia tão forte que parecia uma percursão de filme de suspense, que bate, primeiro, devagar, depois, vai aumentando, aumentando, aumentando, e chega ao cume da cena, que é a mocinha, serena e despreocupada, sentindo uma mão tocá-la nos ombros. Nesse caso, a mão era a dele e o momento seguinte foi acompanhado de um verso que saía da sua desobediente boca, mas a boca não tinha culpa, ela havia aprendido a agir assim com as pernas, que haviam tomado a primeira iniciativa quando resolveram se juntar às pernas firmes e bronzeadas da moça. Enfim, a boca, também doida para se juntar àquela outra boca feminina, cantou isso:&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Meu bem,&lt;br /&gt;O que é que você tem&lt;br /&gt;Que me faz parar um trem&lt;br /&gt;Só pra te olhar um pouco?&lt;br /&gt;&lt;/em&gt;- &lt;em&gt;Seu louco&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Tire as mãos do meu corpo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Ou, então, num grito rouco&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eu vou chamar a polícia&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Que malícia!&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Eu só quero uma carícia&lt;br /&gt;E que, também, me dê notícia&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;De onde eu posso te encontrar&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Sai pra lá.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;E ela, então se afastou dele, andando a passos largos e aborrecida. Ele fez logo uma cara preocupada e foi perseguí-la. Enquanto ela andava e fingia não lhe dar atenção, ele falava.&lt;br /&gt;- Por que a raiva? Não gostou de mim? A brincadeira tava boa, pena que você só cantou uma estrofe, mas era ótima.&lt;br /&gt;Baixinho, ela respondeu:&lt;br /&gt;- Nem tanto...&lt;br /&gt;- Como? Estava ótima! Você costuma fazer versos?&lt;br /&gt;Um velho, com cara de safado, que passava próximo a eles disse:&lt;br /&gt;- Essa faz tudo o que você pedir.&lt;br /&gt;O rapaz fez uma cara de desentendido.&lt;br /&gt;- O que ele quis dizer com isso? Você... tão linda...&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Não ainda&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Às sete, vá lá pra cima&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Procure a "Casa da Alcinda"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que a gente se vê&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Ela correu e subiu uma íngreme ladeira em direção ao "cima" que ela indicara.&lt;br /&gt;-Mas, espera! Você é Alcinda?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No navio onde ele trabalhava como marinheiro, em seu pequeno quarto, que partilhava com mais dois homens, passou três horas esperando o momento de ir a "Casa da Alcinda", que deduzira, logo de primeira, ser um cabaré.&lt;br /&gt;Quando se levantou para ir, confeccionou, com todos os cuidados, uma careta, da mais feia que sabia fazer. Então, virou-se para o espelho e, desta vez, tomou um susto, pois nunca fizera uma assim, tão medonha. Desfez a careta, enfim, e olhou seriamente para dentro dos seus próprios olhos, depois, para seu nariz, que era proeminente, mas, mesmo assim, charmoso; olhou, em seguida, para suas orelhas muito bem posicionadas na cabeça, prestou bastante atenção em seu queixo comprido e másculo, sua testa coberta pelos seus cabelos negros estragados pelo sal do mar e seus dentes absurdamente brancos, exceto pelo dourado, que era o canino direito; continuou, dessa vez, explorando minuciosamente todos os poros de sua pele brozeada, mas não passou pela sua cabeça que a sua barba estava por fazer; por fim, fixou seus olhos demoradamente nos seus lábios, que não eram carnudos, mas, também, não eram murchos. "Sou bonito, muito bonito", pensou consigo mesmo. E, com uma impetuosidade que nunca demonstrava, nem em momentos em que passava perigos em desventuras marítimas, partiu em demanda da moça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Sabes quantas vezes eu fui à Colômbia&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Com o meu rapaz"?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;O quanto já passei de água de colônia&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Para o meu rapaz"?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Sabes o quanto foi que isso me doeu?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Amar, amar"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Como dói deixar ao léu o coração seu&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"Pra navegar"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Você não sabe tanto quanto eu sei&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"De mar, de mar"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não sabe quantos litros eu já derramei&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"De mar, de mar"&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;"De mar, de mar, de mar, de mar..."&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Alcinda desceu do palquinho depois de cantar, com sua voz rouca, mas afinadíssima, uma de suas músicas, que compunha desde que deixara de ser o produto e passara a ser o fornecedor. Já era uma senhora decrépta, contudo, carregava nos olhos um brilho virtuoso, dando a entender que fora graciosa em alguma época da vida, talvez, não num tempo muito distante.&lt;br /&gt;Alcinda, retirando-se, passou pela moça e o rapaz, que já haviam se encontrado e conversavam:&lt;br /&gt;- ... já fui dar até na África.&lt;br /&gt;- Eu só dei aqui, até agora.&lt;br /&gt;Sorriu maliciosamente. Ele, então, percebeu a sacanagem que ela falara.&lt;br /&gt;- Não foi isso que eu quis dizer!&lt;br /&gt;- Tá bom...&lt;br /&gt;- É que... é que marinheiros são assim, a gente conhece bem a língua que fala, mas não a utilizamos corretamente.&lt;br /&gt;- Mentira. Você é que é assim, não os marinheiros. Eu conheço marinheiros, muitos, e todos eles fizeram marinheiros em cima de mim.&lt;br /&gt;Sorriu maliciosamente de novo. Achava que assim, irritava-o, e era o que queria fazer, mas o rapaz, que nunca recebera um tratamento hostil de uma mulher, encantava-se cada vez mais por ela. Eles ficaram em silêncio um pouco.&lt;br /&gt;- Arranje-nos um quarto, estou disposto a pagar!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No depois do durante, eles, deitados na cama, suados:&lt;br /&gt;- Incrível!&lt;br /&gt;- Tá... vamos ver o que você está me devendo...&lt;br /&gt;- Como!? Não vai dizer nada!?&lt;br /&gt;- Hum... tááá, foi ótimo, querido... tá bom, assim?&lt;br /&gt;- Eu te amo!&lt;br /&gt;- Ora...&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Em todo amor deste mundo...&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- Não começa...&lt;br /&gt;- ... &lt;em&gt;Eu já fui navegar&lt;br /&gt;Mas teu amar é profundo&lt;br /&gt;Mais que qualquer outro mar&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Ela suspirou, fazendo uma cara irritada, enjoada. Ele esperou a resposta, sabia que vinha, ela não deixaria passar em branco. Houve um silêncio constrangedor por uns poucos segundos e ela fez uma cara de vencida, mas um leve ricto no canto esquerdo da sua boca denunciava um sorriso quase imperceptível. Ela, então, soltou:&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;É que tu és oriundo&lt;br /&gt;Do mais longe alto-mar&lt;br /&gt;Por isso, eu me confundo&lt;br /&gt;Será que isso vai vingar?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O cérebro dele ficou pasmo por causa da réplica, não conseguia formular outra estrofe, então, coube à sua já dita desobediente boca soltar a tréplica:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- Mas eu vaguei vagabundo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Até te encontrar&lt;br /&gt;E te encontrei no segundo&lt;br /&gt;Em que comecei a cantar.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O sorriso dela se fez mais largo, mas ela logo tratou de disfarçá-lo. Ele, confiante:&lt;br /&gt;- Amanhã eu te levo para conhecer o barco.&lt;br /&gt;- Ma...&lt;br /&gt;-Só por diversão, a gente toma um sorvete depois, eu pago. Vamos!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O amanhã chegou!&lt;br /&gt;Ele, no dia anterior, havia combinado com ela de se encontrar numa pedra bem plana e comprida que ficava do lado do porto e que, de tão resistente que era, não pôde ser quebrada por aqueles que construíram o porto, uns alemães que acharam que a cidade prosperaria e, de fato, por uns oito anos ela prosperou por causa das plantações de cacau, banana e cana-de-açúcar, mas, depois de uma praga, que ocorreu dois anos depois desta história acontecer, todos os alemães saíram, sobrando, apenas, ladrões, amantes e "colegas de copo".&lt;br /&gt;Os dois se encontraram e, nesse dia, como prometido, ele a levou para conhecer o navio e os dois colegas com quem dividia seu quarto. Depois, eles seguiram para a praça, um lugar agradável, com um clima interiorano. No meio dela, havia um arco de metal que media três metros de raio, em baixo dele, uma estátua de um herói da cidade, um soldado que havia lutado e morrido à serviço da coroa na Guerra do Paraguai, o chão era todo de pedras portuguesas, formando um mosaico preto, branco, mostarda e vermelho tijolo. Na praça havia, também, vários bancos para se sentar, mesas de xadrez e o que todos pensavam ser um gigante álamo, mesmo este tipo de árvore sendo típico de áreas boreais ou temperadas, impossibilitando sua existência no clima tropical.&lt;br /&gt;O sol à pino do meio dia e a umidade dava sono às pessoas da cidade e algumas delas, normalmente descendentes de europeus, faziam a sesta na varanda. Os dois estavam praticamente sós na praça, pois todos estavam em casa, esperando o almoço, que logo seria servido pelas donas de casa. Eles, contudo, não tinham donas de casa para serví-los, mas, em contrapartida, eram independentes: podiam comer o doce que quisessem antes do almoço. Então, foram à uma barraquinha ambulante de sorvete de um senhor que ficava por lá todos os dias. Ela riu da falta de criatividade do companheiro, que pediu um ordinário "morango e chocolate". Ele a interpelou:&lt;br /&gt;- E você, que é que vai pedir, então?&lt;br /&gt;Ela virou-se para o sorveteiro e pediu "o de sempre". Este pegou sua colher, esticou sua mão até o fim do buraco da barraquinha em que ficavam os sorvetes e puxou uma bola de cupuaçu. Colocou-a na casquinha. Em seguida, fez o mesmo movimento, porém, trouxe à liberdade uma bola de mangaba, que também colocou na casquinha, em cima da outra bola, e entregou à moça, que, alegremente, balançou o sorvete perto do rosto do rapaz, como que querendo que ele sentisse inveja.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;***&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois do passeio, por volta das quatro horas, eles foram à casa dela. Lá, ela preparou para ele um café e... e o que aconteceu a partir de agora poderia ser expressado em palavras, mas um terremoto explicaria melhor, então, dispensa-se palavras. Fica-se só na imaginação.&lt;br /&gt;- Incrível!&lt;br /&gt;- Foi, sim, pena que foi a última vez.&lt;br /&gt;- Como!?&lt;br /&gt;- A gente não vai ficar junto...&lt;br /&gt;- Claro que vai!&lt;br /&gt;- Não, não vai...&lt;br /&gt;- Por quê?&lt;br /&gt;- Porque a gente não pode se gostar. A gente não se gosta. E ponto.&lt;br /&gt;- É claro que a gente se gosta! Não tem como fingir! Eu já te levei para onde eu moro, já passeamos, já tomamos sorvete juntos... ninguém toma sorvete com alguém que não gosta. Sério... por que você não quer que fiquemos juntos?&lt;br /&gt;- Na verdade, eu já te disse por que na primeira noite.&lt;br /&gt;- Repita, então?&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Porque você sai de porto em porto&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E, desse jeito, solto&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Me aparece, um dia, morto&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Ele, irritadíssimo, retrucou.&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;E tu?, que tua ventura é no corpo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;De homens ignotos&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Velhos, rapazes e moços&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;E você?, que vive como um porco&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;No fundo de um poço&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Num quarto com dois outros&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;E por que você só tem desgosto?&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Não faz nenhum esforço&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Pra gostar de mim um pouco&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Ele já estava no auge da sua irritação, quando a cara dela se fez tenra. Ela piscou lentamente os olhos, virou o rosto alguns graus para a esquerda, mostrando-lhe o seu melhor ângulo e, em seguida, tocou a face dele com os dedos. Virou-se totalmente para a frente dele e cantou, mais docemente do que estavam fazendo até o momento.&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Cala-te e mostra-me o rosto&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Acaricia o meu dorso&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E nos amemos de novo&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- &lt;/em&gt;Sabe de uma coisa? Eu odeio essa palhaçada! Tchau.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;- &lt;/em&gt;Vai pra onde?&lt;br /&gt;- Tenho um encontro marcado...&lt;br /&gt;- Com a solidão?&lt;br /&gt;Tem alma que é assim, alasã. Corre, de medo, de alegria, de susto, corre. Independentemente do que for, corre. E ele correu... poderia fazer mais o quê? Era alasão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;***&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Serei a sereia que queres que eu seja&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E virei, de repente, em um vagalhão&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Moça escamada e dos lábios de cereja &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Que, sem pernas, se arrastará à ti pelo chão&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;- &lt;em&gt;Serei, então, teu porto seguro&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Serei puro, serei teu lugar&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;E não vou te deixar, no duro,&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Chão soturno, se arrastar &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;O dia seguinte ao terremoto era o dia em que ele voltaria para o mar, por isso o reatamento foi rápido, eles, depois de cantarem o poema transcrito, beijaram-se e provocaram todos os tipos de fenômenos naturais. Ele prometeu que não voltaria ao barco, que pediria demissão e arranjaria um trabalho na cidade. Ela prometeu que não voltaria ao cabaré, que pediria demissão e que arranjaria um trabalho também. Eles se beijaram de novo e, mais uma vez, a cidade foi acometida por tornados, ondas gigantes e tremores de terra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fez, novamente, o ritual da careta, desta vez, lembrou-se de fazer a barba. Pegou sua mala, com poucos pertences, no chão, despediu-se dos colegas de quarto e abriu a porta. O navio era cheio de corredores, pelos quais ele passava dançando à sua moda. Assobiava, pois as palavras não aparecem na cabeça de alguém nesse estado de êxtase. Dobrou à esquerda, estava no segundo corredor, seus companheiros de navio olhavam-no pelas janelas do quarto que davam para o corredor, sentiam-se felizes. "É verdade, mesmo, que a alegria é contagiosa! A verdadeira alegria!". Dobrou à direita e, no fim desse corredor, subiria as escadas e encontraria o ar puro de uma cidade que estava, agora, infectada de amor. Mas não teve essa felicidade. Uma mão tocou seu ombro, no momento, ele achou que era ela, que teria ido visitá-lo e que faria o mesmo que ele fez com ela quando os dois se encontraram, tocar a mão no ombro. Mas era o capitão, em pessoa!, dizendo que alguns de seus colegas haviam-no denunciado. "Pena que a felicidade verdadeira também trás inveja".&lt;br /&gt;- Eles disseram que você não trabalhou estes dois dias em que passamos aqui. Você sabia que tínhamos muito a fazer.&lt;br /&gt;- Não tem problema, senhor, eu me demito, mesmo...&lt;br /&gt;- É, mas o trabalho que você deveria ter feito não foi feito e ganhamos menos do que eu estipulei que ganharíamos, isso se deu, provavelmente, por causa da sua vagabundagem.&lt;br /&gt;Era óbvio que a sua falta de trabalho não havia influenciado nos lucros do capitão, aquele era um navio muito grande e muitos funcionários vadiavam, mas o capitão era conhecido pela sua avareza e não deixaria o rapaz livrar-se assim.&lt;br /&gt;- E o que o senhor quer que eu faça, então?&lt;br /&gt;- Dê-me o dinheiro que me deve.&lt;br /&gt;O rapaz, com cara de alívio, rapidamente pôs a mão no bolso, mas com a face triste, olhou a mão que sabia que viria vazia. Lembrou-se: ele havia gastado todo o seu dinheiro, que não era muito, na primeira noite com a moça, na compra dos sorvetes e, também, na compra de um brinco que levaria para ela nesse dia.&lt;br /&gt;- Não tenho nada.&lt;br /&gt;- Tem sua força de trabalho.&lt;br /&gt;- Eu não posso sair daqui, eu vou viver aqui.&lt;br /&gt;O capitão sorriu maliciosamente e isso quebrou o coração do rapaz, que, no mesmo instante, pensou na moça, que sorria assim também.&lt;br /&gt;- Daqui a dois anos, você volta, que é, provavelmente, quando eu retornarei.&lt;br /&gt;- Em dois dias de trabalho, eu pago o que devo.&lt;br /&gt;- O custo da traição é a vida no mar. Eu não pagarei nada a você e você continuará a trabalhar para mim. Agora, vamos, mexa-se! Nós vamos para o sul.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sentada na pedra plana do porto, com as pernas cruzadas, ela esperava-o, calma. Ele a dissera que ela deveria esperá-lo lá, que ele apareceria. Ela só cumpriu as ordens. Achou conveniente, simbólico até, usar o vestido amarelo com flores vermelhas que usava quando se encontraram da primeira vez, este vestido, logo mais, passaria a ser o seu único, porque, impassivelmente parada onde estava, recebeu a notícia de que sua modésta casa estava pegando fogo. Quedou assim, indiferente à dor e à alegria. Minutos depois, levantou-se e sentou-se em cima de uma pedra, usando-a como cadeira. E foi aí que passou nove meses em vigília, olhando para o mar, e seu vestido, a cada dia, ficando mais curto, mais curto, mais curto... não sabiam como ela se alimentava, urinava, defecava, sobrevivia, só olhavam-na, sentada e ponderavam, mais ou menos, quando ela sairia dali.&lt;br /&gt;Quando deu a hora, acordou para o mundo, viu o tamanho da barriga, mas não se assustou, sabia que o tempo havia passado o suficiente para que ela já pudesse dar à luz. Chamaram uma parteira e ela teve o menino normalmente, um menino bonito, mas que se podia ver pela cara que seria um &lt;em&gt;bon vivant.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;- Filho... filho... olha pra mamãe. Vamos dormir, vamos? Não sei nenhuma música de ninar, mas eu sei uma bem bonita que uma amiga minha cantava com uma voz rouca, mas afinadíssima, é assim:&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Me puxa pro canto&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Me mostra por quantos&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Homens cê vale, adônis&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Me pega de lado&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Me pega apertado&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Vem, vem, vem, meu bem&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;O seu bebê, em quem ela havia posto o nome de Jesus, adormeceu, ela deu um beijo em sua testa e deitou-se no chão, ao lado dele. Olhou o céu, as estrelas, depois, sentou-se na pedra que usava como cadeira e olhou o mar por uns dois minutos. Sorriu, não maliciosamente, mas melancolicamente, deitou-se novamente e fechou os olhos.&lt;br /&gt;- Ele não volta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-2028024308524422426?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/2028024308524422426/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=2028024308524422426&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2028024308524422426'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2028024308524422426'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/10/histria-deles-retificada.html' title='história deles (retificada)'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-3888888164855511931</id><published>2008-10-02T10:23:00.000-07:00</published><updated>2008-12-02T16:58:33.454-08:00</updated><title type='text'>sobre Dom Casmurro</title><content type='html'>Após ler Dom Casmurro, de Machado de Assis, um batalhão de pensamentos pulou para dentro da minha cabeça, deu uma volta por lá e, depois, tentou sair, mas eu, e por isso agradeço ao meu ótimo reflexo e à minha sorte, consegui pegar pelos pés e segurar bem forte alguns desses que planejaram a fuga, os mais lentos, é fato, mas todos eles são rápidos como cão e ainda voam alto. Logo em seguida, eu peguei a minha mão direita, que estava fechada segurando os bichinhos, pousei-a em cima de um caderno aberto e, com um martelo na outra mão, golpeei-a fortemente, imprimindo, assim, os pensamentos no papel. Feito isso, eu os li e notei que eram idéias esparsas e que, juntas, ou não faziam muito sentido, ou ficavam repetitivas, pois o tema que eu mais abordei foi, justamente, aquele que é mais comentado: a traição, ou não, de Capitu. Quase que eu dispensei comentários a respeito da estética machadiana, mas, mesmo assim, há nesses meus pequenos textos uma certa preocupação com esse aspecto, mesmo que não muita. E então eu fiquei na dúvida se postava os textos desorganizados assim, foi aí que meu orgulho-próprio entrou em ação e eu comecei a achar as minhas idéias a respeito do livro dignas de serem lidas por terceiros, mesmo com a possibilidade de elas serem refutadas, ridicularizadas ou não entendidas, então, eu disse a mim mesmo (de forma menos elaborada): "mesmo que esses textos pareçam anotações soltas do caderno de um rapaz que, provavelmente, não entende metade das metáforas escondidas 'linha sim, linha não' num livro de Machado de Assis, eu os postarei".&lt;br /&gt;Agora que estou no fim da introdução, estou arrependido de postá-los. Toda essa expectativa em torno deles os fez parecer que são mais ou menos do que são, mas, já que chegamos até aqui, não se pode parar. Só não se decepcionem (porque eu sei que não haverá deslumbramento), tudo já foi avisado, exceto que eu tomei o partido de Capitu na história.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Texto 1&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Bentinho é a mais perfeita representação do homem inseguro e intimidado pelo sexo oposto, daí o fato de ele interpretar mal as atitudes de Capitu, que, por ironia do destino (na verdade, por pura genialidade de Machado), é, de todas as moças do mundo, a mais misteriosa e sagaz. Bentinho a inveja e lhe teme."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Texto 2&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Apesar do que todos dizem e do que a estética literária do período requeria (a tentativa de isenção de sentimentos, dando às obras um caráter científico), o livro Dom Casmurro é movido a amor. Em sua primeira parte, o amor é o de Bentinho por Capitu, já na segunda, ele sofre de ciúmes, que, em outras palavras, quer dizer amor-próprio e resquícios de amor pela pessoa a quem já se amou. Uma prova irrefutável é Bentinho ter construído uma réplica da antiga casa em que morava, a casa vizinha à de Capitu, onde ele aprendeu a amá-la e onde ele passou os seus momentos mais felizes, aqueles em que ele considerava Capitu uma mulher pura."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Texto 3&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Bentinho pinta, o livro inteiro, um quadro de Capitu que o ajuda a justificar tacitamente seus pensamentos, mas mal sabe ele que esta tela, tão minuciosamente pintada, faz-nos afeiçoarmos a ela, tomando-a como uma mulher corajosa, inteligente e digna de respeito, incapaz, portanto, de cometer um adultério."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu disse que não era grande coisa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-3888888164855511931?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/3888888164855511931/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=3888888164855511931&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/3888888164855511931'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/3888888164855511931'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/10/aps-ler-dom-casmurro-de-machado-de.html' title='sobre Dom Casmurro'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-7271132503875607603</id><published>2008-09-21T11:15:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:31:10.278-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quo'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Possessia'/><title type='text'>cheio, lotado de camadas</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ficção&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Lá vai ele pelo caminho, sem destino, vocalista de uma banda instrumental (sim, sim, sim! Porque não existe uma letra que ele cante, ele usa a voz como instrumento. Conceitual, contextual). Vai ele lá, pé pré pé, pós pé, passando periculosamente pelo penhasco, de ladinho, assim-assim, quase que cai, mas não!, se segura. Ele vai lá para não sei onde, não sabem onde, não se sabe onde, enfim.&lt;br /&gt;Nos anos cinqüenta, e tal, ele fazia o som do baixo com a voz, aliás, nem sei mais se era ele ou o pai dele. Pensando bem, agora eu acho que era o pai dele mesmo, porque ele não é tão velho, um pouquinho, mas não tanto. É que ele e o pai são muito parecidos... impressionante!&lt;br /&gt;Então, ele caminha, não é mesmo? O caminho, todo mundo sabe que é a vida, ou coisa do tipo, talvez o próprio pensamento. De toda forma, é metafórico, mas todas as histórias são assim, as reais e as oníricas/psicológicas, como esta mesma. Essa conclusão vem de um diálogo, a que assistiu, entre dois cineastas, esse diálogo pode ter sido gerado na sua própria cabeça ou ter acontecido de fato. De toda forma, a cabeça o distorceu:&lt;br /&gt;- Taí o problema do documentário, pouco tem ele de documental. Você corta, adiciona e, até, encena.&lt;br /&gt;- Os ficcionistas acham que o que eles fazem é puro fruto da imaginação, aí dizem isso. Mas as ficções são reflexos da realidade, tanto pessoal quanto social. É documental.&lt;br /&gt;Et cetera, et cetera, et cetera. Fim de cena. Agora, atrás das cortinas.&lt;br /&gt;Um turbilhão de idéias e um vagalhão para destruir tudo. Reconstrução: frases soltas num caderno, mas formando uma história, História, um conto, dois contos, três contos de réis, um milhão. Ficou rico depois de publicar um livro, mas perdeu Tudo no jogo.&lt;br /&gt;Isto aqui é um poema.&lt;br /&gt;Isto aqui é um avião.&lt;br /&gt;Isto aqui é um caminho cheio de penhascos, sonhos, diretores de cinema, idéias jogadas num caderno e uma vida apostada no poker.&lt;br /&gt;Isto aqui não tem rumo, cimo, como ou sumo, mas tem rítmo.&lt;br /&gt;"Que desordenação!"&lt;br /&gt;É que é o seguinte, aí vai o resumo do que aconteceu e que foi omitido: no meio do caminho, ele passou por uma editora e jogou lá dentro um caderno em que anotava tudo (vocalistas de bandas instrumentais são, normalmente, conturbados, portanto, têm muito para escrever), os editores acharam ótimo, o procuraram e ele fez sucesso, depois, o sucesso fez ele e, mais depois ainda, ele e o sucesso fizeram suas despedidas.&lt;br /&gt;No final das contas, não houve história nenhuma. Nadou, estudou e nadou de novo. Está de volta ao caminho. Lá vai ele, lá vai...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-7271132503875607603?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/7271132503875607603/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=7271132503875607603&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7271132503875607603'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7271132503875607603'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/09/cheio-lotado-de-camadas.html' title='cheio, lotado de camadas'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-7675018452946293737</id><published>2008-09-08T11:44:00.002-07:00</published><updated>2011-12-04T19:36:17.956-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quo'/><title type='text'>entrevista</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Que minha vida é 80% sono&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E meu sonho é 80% Lia&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;ENTREVISTADO: Assim tá bom?&lt;br /&gt;ENTREVISTADOR: Mais para a esquerda.&lt;br /&gt;- E agora, tá bom?&lt;br /&gt;- Quase. Só levanta a cabeça um pouco mais.&lt;br /&gt;- Assim?&lt;br /&gt;- Assim! A gente vai começar agora. (gritando) Vai começar, né, produção? Isso... isso... vai começar.&lt;br /&gt;DIRETOR: Agora, gente. Em cinco, quatro...&lt;br /&gt;ENTREVISTADO: Por que não conta a partir de três? Começar de cinco é estranho.&lt;br /&gt;- É assim que a gente sempre faz. Você já trabalhou na tevê?&lt;br /&gt;- Não, tá certo. (baixinho) Mais que é estranho é.&lt;br /&gt;- Como?&lt;br /&gt;- Ahn?&lt;br /&gt;- Hein?&lt;br /&gt;- Nada...&lt;br /&gt;- Tá certo... vamos recomeçar... todo mundo pronto? Cinco, quatro...&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;"Que cara estranho."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;- ... três, dois...&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;"Se contasse a partir de três, já tinha terminado."&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;- ...&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; um, zero...&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;"Ele conta o zero!? Que idiota!"&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;- ... &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;vai!&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;"Vai? Ainda tem essa.&lt;/span&gt;"&lt;br /&gt;ENTREVISTADOR: Boa noite, o programa de hoje está recheado de emoção! Vamos ter a filha que é irmã da própria mãe, a dupla sertaneja do momento, vocês sabem quem são, não sabem?, e muito mais. Estamos, agora, ao vivo, com nossa primeira entrevista: um rapaz que diz que viu...&lt;br /&gt;ENTREVISTADO: Que diz que viu, não! Eu vi!&lt;br /&gt;- Certo, estamos aqui com um rapaz...&lt;br /&gt;- E eu tenho um nome.&lt;br /&gt;- Estamos aqui com Lacerda, que viu...&lt;br /&gt;- Tudo! Tudo o que não se pode ver, eu vi!&lt;br /&gt;- E o que é "o que não se pode ver"?&lt;br /&gt;- É o que tem de mais bonito na vida, são as coisas particulares e inusitadas, é o que se pode chamar de estranho sem fazer cara feia, são os defeitos, é o lado belo da melancolia, é, finalmente, tudo aquilo que faz você rir e chorar ao mesmo tempo, como sol e chuva.&lt;br /&gt;- E você viu tudo isso?&lt;br /&gt;- Num dia só, imagine o choque.&lt;br /&gt;- Imagino! (olha para a câmera) E vão todos vocês imaginando enquanto a gente vai aos comerciais.&lt;br /&gt;DIRETOR: Corta!&lt;br /&gt;ENTREVISTADO: Pra que isso? Me deixa dizer logo!&lt;br /&gt;ENTREVISTADOR: Nunca viu o programa, não?...&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;"Na verdade, não."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;- ... É assim, a gente tem que ganhar audiência... e esse seu discurso foi ótimo, até eu fiquei curioso para saber o que é.&lt;br /&gt;- Espere os comerciais, então.&lt;br /&gt;- Certo, certo. Ainda bem que você não é a atração principal de hoje. Próximo bloco você já conta o que houve.&lt;br /&gt;DIRETOR: Alguém aí quer uma água.&lt;br /&gt;ENTREVISTADOR: Não, tô bem. Você quer?&lt;br /&gt;ENTREVISTADO: Não, obrigado.&lt;br /&gt;DIRETOR: Beleza, vou dar mais um minuto e a gente entra, tá certo?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DIRETOR: Em cinco, quatro...&lt;br /&gt;ENTREVISTADO: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;"De novo..."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;- ...três, dois...&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;"Já tinha acabado a essa hora... já tinha acabado..."&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;- ...um...&lt;br /&gt;-&lt;span style="font-style: italic;"&gt; "Agora o zero!"&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;- ... zero...&lt;br /&gt;- &lt;span style="font-style: italic;"&gt;"VAI!"&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;- ... vai!&lt;br /&gt;ENTREVISTADOR&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;:&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt; Estamos de volta com o homem que viu&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;de tudo e, logo em seguida, teremos os conflitos emocionais da filha que é irmã da própria mãe e, também, aquela dupla sertaneja que todos vocês conhecem! Já-já! Então, Lacerda, o senhor estava prestes a nos dizer o que você viu.&lt;br /&gt;ENTREVISTADO: É... eu vi, eu vi...&lt;br /&gt;- O quê!? Você faz mais suspense que eu!&lt;br /&gt;- Eu saí de casa e vi o meu vizinho pequeno que havia aprendido a andar de bicicleta no dia anterior dando voltas com seu "veículo", sem lhe dar muita atenção, continuei andando e foi aí que caiu do céu uma carta de uma mulher endereçada a... mim! A carta dizia que eu tinha que ir a um certo endereço a uma certa hora. Claro que eu não iria, mas, logo depois, eu vi um cego sapateando, um cão namorando uma gata e um homem que passou por mim dizendo que estava correndo há quatro dias seguidos, e que sua próxima meta seria voar. Então, eu decidi ir para o lugar onde a carta me mandara ir! Cheguei lá, a porta estava entreaberta, me senti no direito de entrar e vi, no meio da sala, a moça, mais bela que tudo!, de costas, nua e se limpando toda com pétalas de rosa branca. Cheguei perto bem devagarinho e, quando a toquei no ombro, todas as flores da casa murcharam. Me assustei e ela, serena, me disse que não podia ser tocada e que, então, começaria a envelhecer, tudo por minha causa. Logo após, me mandou docemente embora e, tenho certeza!, que quando eu estava fechando a porta, vi seu corpo começar a murchar como as flores. Voltei para casa, triste por ter destruído uma obra de arte viva, e, logo após ter entrado, dei uma olhada da janela para o pátio do vizinho para ver se o pequeno ainda estava lá, dando voltas, mas ele estava era conversando com o pai, dizendo que tinha desaprendido a andar de bicicleta, o pai dizia que era impossível, que não podia, que aquilo era coisa que não se desaprendia, mas o menino subia na bicicleta e, logo depois, caía, mostrando ao pai que dizia a verdade. Saí da janela, fui até a cozinha e coloquei uma comida no microondas, apertei para esquentar por um minuto e, quando abri a portinha, vi lá dentro um jantar farto e delicioso. Comi, comi e comi. Tinha de tudo: frango, macarrão, feijão, purê, carne, frutas, batata... tudo! Terminei. Fiz um grande esforço para andar até a minha sala de tão pesado que estava, me joguei no sofá e liguei a televisão, que, por incrível que pareça, estava transmitindo uma peça de teatro cheia de música e dança. Depois de ter enchido a barriga, enchi os olhos. Foi depois de terminar o espetáculo que eu dormi. Que eu me lembre, não havia nada de surreal no sonho, o que já é surreal, tratando-se de sonhos. Eu sempre durmo pesado e não há nada que me acorde a não ser meu próprio organismo, mas, nesse dia em especial, acordei com o grito do meu pequeno vizinho: "aprendi de novo, papai! Aprendi!"...&lt;br /&gt;- ...&lt;br /&gt;- E foi isso...&lt;br /&gt;- Muito bem... (olha para a câmera) então, vamos aos comerciais e logo voltaremos com a menina que é irmã da própria mãe e... sim! Sim! Aquela dupla sertaneja... você sabe! Voltamos já!&lt;br /&gt;DIRETOR: Corta!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-7675018452946293737?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/7675018452946293737/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=7675018452946293737&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7675018452946293737'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7675018452946293737'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/09/entrevista_08.html' title='entrevista'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-7454332689004137117</id><published>2008-09-03T17:24:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:35:26.109-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quo'/><title type='text'>monotonia da espera</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Pretérito perfeito&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Ida ouviu soar a campainha. Foi um toque tímido, de alguém provavelmente inseguro. "Não pode ser o meu marido, que é bruto como o diabo". Na verdade, ex-marido, mas a idéia de que se separara não estava ainda bem formada na sua cabeça. "Mas, quem sabe?, pode ser ele, talvez esteja mais doce, arrependido". Estava pensando freqüentemente no ex-marido, não porque ainda gostava dele - mesmo, de fato, ainda gostando um pouco dele -, mas porque eles dois haviam combinado de que ele pegaria algumas coisas lá, neste dia, mais ou menos a esta hora.&lt;br /&gt;Pode-se pensar que a pessoa, quem quer que seja, que está à porta já espera a algum tempo, mas não!, essas coisas demoram a ser lidas, porém, passam rapidamente pela cabeça de uma pessoa.&lt;br /&gt;Foi lá e abriu a porta. Era uma vizinha do lado, que é, bem como o seu toque revelou, bastante insegura e que, sempre que entra numa conversa, gagueja um pouco, mede bem as palavra e tenta agradar. Estas atitudes são elevadas a uma altíssima potência quando ela conversa com Ida, que é uma atriz das bem famosas.&lt;br /&gt;O marido da vizinha é piloto de avião e a trancadura de casa foi trocada, então, a vizinha pediu para Ida para ela guardar uma cópia da chave, caso o marido aparecesse e ela não tivesse voltado das compras. A vizinha, enfim, saiu.&lt;br /&gt;Ida, então, se dirigiu à varanda, viu que o alpiste que tinha posto na janela mais cedo havia sido todo comido, provavelmente pelo periquito-namorado que lá sempre aparecia.&lt;br /&gt;Ainda sem ter o que fazer, ligou a televisão e estava passando um programa sobre o tempo. Era a relação do tempo para vários tipos de pessoa, cada uma dando um depoimento. Ela não prestou atenção, mas era mais ou menos assim:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;SALTADOR EM DISTÂNCIA (durante o salto, a voz aparecendo ao fundo): ainda estou neste salto. O tempo que vai demorar para eu pousar é infinito, mas quando eu pôr meus pés no chão, vai parecer que passou uma fração de segundo.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;VELHO (sentado numa cadeira de balanço, filosofando): vivi muito, mas nem parece, queria voltar aos tempos remotos da minha existência, mas não posso.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;CIENTISTA (defronte a um quadro): tempo é relativo... Ah!, e espaço também...&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda tinha uns mais esdrúxulos:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;FETO (nadando num mar de líquido amniótico): tempo para mim é sete meses, às vezes seis, às vezes cinco, depois disso, deixo de ser o que sou.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;MORTO (tudo preto e só a voz no fundo): tempo não existe, não depois que se morre.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desligou a televisão. Andou de um lado para o outro, estava inquieta. "Já se passaram quinze minutos! Nós marcamos às quatro horas!". Talvez ela ainda gostasse mais do que apenas um pouco do seu ex-marido. Pegou o jornal e tentou ler, mas não conseguia, as palavras passavam e ela não as assimilava. Quando descobriu que não tinha lido nada, os seus olhos já estavam olhando para o final da página. Olhou o relógio e, depois, a porta. "Quando ele chega?". Agora, já era inevitável esconder para si mesma: amava o ex-marido. Sentia aquela dor no fundo do peito que fica se remexendo e que só quem fala português pode dizer o nome dela. Sentia outra dor, esta no estômago, que ia de um lado a outro, batendo em tudo que é canto da barriga e que tanto podia ser adrenalina, como angústia. Por fim, sentia uma última dor, era no cérebro, como que tivessem pegado a sua cabeça, substituido-a pelo sino da Basílica de São Pedro e, depois, devolvido-a, essa dor, Ida - e todo o mundo - conhecia muito bem: era a mais pura confusão.&lt;br /&gt;Soou a campainha novamente. Toque forte e longo. Pouco tempo depois, soou um outro toque igual ao anterior. Pensou em caminhar lentamente até a porta, para não parecer que estava esperando atenta, mas logo desistiu, porque, se escutasse um outro toque como aqueles, era capaz de sua cabeça explodir, então, ninguém poderia abrir a porta para, provavelmente, seu ex-marido. Estava a mil, era ele, certeza que era ele! Ela iria dizer tudo: que a vida era monótona sem ele e que pediria mil desculpas, tentaria melhorar. Girou a maçaneta, sentiu o ar de fora bater no seu rosto. Uma voz:&lt;br /&gt;- Senhora... senhora Ida Prazeres?&lt;br /&gt;- Sim.&lt;br /&gt;- Seu marido... digo, ex... ele pediu para que a gente pegasse umas coisas que são dele aqui.&lt;br /&gt;- Pega logo essas tralhas e diz àquele safado, que não teve o nervo de aparecer aqui para pegá-las ele mesmo, que não quero ver-lhe a cara.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-7454332689004137117?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/7454332689004137117/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=7454332689004137117&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7454332689004137117'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7454332689004137117'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/09/monotonia-da-espera.html' title='monotonia da espera'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-5716923307479931190</id><published>2008-08-01T11:11:00.000-07:00</published><updated>2008-09-11T09:02:51.838-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Possessia'/><title type='text'>jantar romântico</title><content type='html'>Num barco apertado&lt;br /&gt;Você ao meu lado&lt;br /&gt;As águas assim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Riso amarelado&lt;br /&gt;Buquê devastado&lt;br /&gt;De rosa e carmim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Feijão enlatado&lt;br /&gt;Eu todo safado&lt;br /&gt;Falando de mim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vinho envenenado&lt;br /&gt;Arroz estragado&lt;br /&gt;Comida ruim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu bem engasgado&lt;br /&gt;Seu olhar culpado&lt;br /&gt;Me dando um fim&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu corpo jogado&lt;br /&gt;No fundo do lago&lt;br /&gt;Eu morto, enfim&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-5716923307479931190?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/5716923307479931190/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=5716923307479931190&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/5716923307479931190'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/5716923307479931190'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/08/jantar-romntico.html' title='jantar romântico'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-6667336584153743231</id><published>2008-08-01T11:10:00.003-07:00</published><updated>2008-09-11T09:02:12.593-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Possessia'/><title type='text'>7</title><content type='html'>7 cores, 7 dias&lt;br /&gt;7 meses, prematuro&lt;br /&gt;7 barrigas vazias&lt;br /&gt;7 metros tem o muro&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7 anos de azar&lt;br /&gt;7 são as cachoeiras&lt;br /&gt;7 homens em um bar&lt;br /&gt;com 7 armas certeiras&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7 brabos cães&lt;br /&gt;7 copos de cerveja&lt;br /&gt;7 filhos de uma mãe&lt;br /&gt;Lutadora e sertaneja&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7 décadas, a vida&lt;br /&gt;7 vidas, uma história&lt;br /&gt;7 graves feridas&lt;br /&gt;7 guerras sem glória&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7 símbolos sagrados&lt;br /&gt;7 noites sensuais&lt;br /&gt;7 beijos bem safados&lt;br /&gt;7 atos conjugais&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;São 7 delegacias&lt;br /&gt;E são 7 manicômios&lt;br /&gt;7, as biografias&lt;br /&gt;de 7 céticos anônimos&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;7 crimes imperfeitos&lt;br /&gt;para 7 diamantes&lt;br /&gt;7 tristes poemetos&lt;br /&gt;7 estrofes cintilantes&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-6667336584153743231?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/6667336584153743231/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=6667336584153743231&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6667336584153743231'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6667336584153743231'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/08/7_01.html' title='7'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-8982102553065204913</id><published>2008-07-27T16:12:00.001-07:00</published><updated>2011-12-04T19:36:39.671-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='R.-F.'/><title type='text'>dedicatória</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Que partilha o gosto por Gabriel García Márquez&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;- "Por sua causa eu encontrei a boa leitura e, por conta dela, encontrei Márquez. Agora, eu quero que Márquez te encontre. Abraços, Policarpo". Tá vendo? Com essa dedicatória aí, o valor do livro cai. Todo mundo gosta de ter a idéia de que o livro é seu.&lt;br /&gt;- Porra, mas eu preciso do dinheiro. E se eu arrancar a folha?&lt;br /&gt;Uma terceira pessoa se intromete.&lt;br /&gt;- Tá doido? Um livro de Márquez? O cara da dedicatória bem que diz aí que é "a boa leitura", arrancar uma folha dele seria o mesmo que arrancar um coração. Eu compro! Quanto é?&lt;br /&gt;- Tanto&lt;br /&gt;- Tem troco pra isto?&lt;br /&gt;- Tenho não.&lt;br /&gt;- Então fica com tudo logo.&lt;br /&gt;Se alguém agora é intrometido são os outros dois, porque a história segue com este último que falou, mas, agora, em outro canto.&lt;br /&gt;- ... Sério! Juro que ele ia arrancar uma folha. O preço ia abaixar do mesmo jeito, talvez não tanto, mas ia.&lt;br /&gt;Soa a campainha.&lt;br /&gt;- Tô indo! Quem é!?&lt;br /&gt;- Sou eu!&lt;br /&gt;- Ah, oi.&lt;br /&gt;- Oi. Eu vinha no elevador pensando e, do nada, aconteceu uma coisa: eu comecei a te amar mais ainda... Opa!, opa!&lt;br /&gt;- Que foi?&lt;br /&gt;- Aconteceu de novo.&lt;br /&gt;- Uuuh...&lt;br /&gt;- Se vocês tentassem, não conseguiriam ser mais bregas.&lt;br /&gt;- Não se importa com ele, que ele é assim mesmo. Olha só esse livro...&lt;br /&gt;- ...&lt;br /&gt;- Depois eu te empresto.&lt;br /&gt;Na semana seguinte, ele emprestou e ela saiu de lá com o livro, deixando mais personagens para trás, seguindo a história, agora, situada num consultório de oftalmologia.&lt;br /&gt;- ... uhum... lavar as mãos freqüentemente... não usar lenço de pano... evitar piscinas, saunas, contatos diretos com outras pessoas... não usar lentes de contato... não coçar os olhos... São, tipo, os dez mandamentos da conjuntivite, é isso?&lt;br /&gt;- Rá-rá. Mais ou menos. Hum... isso aí na sua mão é um livro de Márquez!?&lt;br /&gt;- Ah, é.&lt;br /&gt;- Engraçado... esse eu não li.&lt;br /&gt;- Também não, nunca nem tinha ouvido falar, foi meu namorado que arranjou... num sebo.&lt;br /&gt;- É... só num sebo, mesmo, para arranjar uma raridade dessas. E eu que achei que já tinha lido todos dele.&lt;br /&gt;- Eu também.&lt;br /&gt;- ...&lt;br /&gt;- ...&lt;br /&gt;- Você me empresta?&lt;br /&gt;- Não sei, eu não o acabei ainda.&lt;br /&gt;- Depois, então.&lt;br /&gt;- É que não é meu, não sei se posso.&lt;br /&gt;- Olha só... eu faço o seguinte: eu te dou os colírios que você vai precisar se você me emprestar...&lt;br /&gt;- Hum...&lt;br /&gt;- E não cobro a consulta!&lt;br /&gt;- Fechado! Tome.&lt;br /&gt;Uns dias depois, no mesmo consultório, mas com outro paciente, está lá o médico.&lt;br /&gt;- Eu não entendo! Não entendo! Quando começou isso?&lt;br /&gt;- Há dois dias. Primeiro, eu não achei que fosse alguma coisa, só... sei lá... qualquer coisa.&lt;br /&gt;- E a sua visão, ela está ficando...?&lt;br /&gt;- Branca.&lt;br /&gt;- Branca? Como no livro de Saramago?&lt;br /&gt;- É, mas, lá no livro, acontece repentinamente, comigo, não. Eu ainda vejo bem, mas a minha visão está cada vez mais esbranquiçada. Tem como você fazer alguma coisa?&lt;br /&gt;- Essa doença não consta nos livros, deve ser raríssima. A única coisa que eu posso fazer é uma conta matemática para saber em quanto tempo você ficará cego, já que a gente já fez os exames necessários. Você diria que a branquidão está aumentando em progressão aritmética ou geométrica?&lt;br /&gt;- Acho que aritmética.&lt;br /&gt;- É... então, pelo o exame de vista que eu fiz em você... acho que... dentro de uns quatro dias.&lt;br /&gt;- Quatro dias!?&lt;br /&gt;- Cinco, talvez. Tem alguma coisa que você gostaria de ver?&lt;br /&gt;- Tudo!&lt;br /&gt;- Sim, mas, alguma coisa especial. Seus pais?, uma namorada?, um lugar? Qualquer coisa.&lt;br /&gt;- Tem esse livro.&lt;br /&gt;- Qual?&lt;br /&gt;- Um raríssimo de Márquez, tão raro quanto o meu problema de vista... eu o arranjei com um amigo que é amigo dele. Belo! Tem umas ilustrações impressionantes de Carybé. Ele não publicou, e nem quer publicar, porque acha que ninguém vai entendê-lo. Eu acho que o entendi, eu o li, sabe?, só que não fiquei com ele, dei pra um mestre meu. Ele adora Cem Anos de Solidão, O Amor nos Tempos do Cólera e tal, mas, ainda sim, prefere Manuel Puig, o escritor, a Márquez. Aí, eu digo a ele: "você não conhece Márquez...", porque, sabe?, quem conhece Márquez prefere Márquez, só que ele replica: "mas eu já li todos dele", e então, eu termino a conversa: "mas você não o conhece, um dia ele te encontra, aí, sim, você o conhece". Ele é muito inteligente, esse meu mestre, mas eu soube que se meteu com umas drogas pesadas e ficou devendo dinheiro, isso bem na época em que eu dei o livro pra ele, mas espero que ele já esteja bem.&lt;br /&gt;- Você... aah... huum... senhor Vilar, né? Qual é seu nome inteiro, mesmo?&lt;br /&gt;- Policarpo. Policarpo Amado Vilar.&lt;br /&gt;- É este aqui o livro que você quer ler?&lt;br /&gt;- É esse... é esse mesmo. Como é que você tem?&lt;br /&gt;- Eu acho que é seu, digo, do seu mestre. Olhe a dedicatória.&lt;br /&gt;- Fui eu, mesmo, quem escreveu isso. Você o conhece, meu mestre?&lt;br /&gt;- Não... O namorado de uma paciente minha comprou num sebo. Deve ter sido o problema das drogas. Ele deve ter vendido para alimentar o vício. Acontece.&lt;br /&gt;- Não... mas ele... me dá isso aqui!&lt;br /&gt;- Mas eu tenho que devolver o livro p'ra moça! Ei! Pare! Não pode correr aqui!&lt;br /&gt;Então, Policarpo saiu do consultório à toda velocidade sem notar que a branquidão estava aumentando geometricamente, e não aritmeticamente, como ele pensava, e, enquanto ele corria na direção da casa do seu mestre para tirar satisfações, tudo ia ficando branco... branco. Branco, branco! Até que ficou tudo preto, assim, de vez, pois ele foi atingido por um caminhão. O livro de Márquez voou da sua mão e provavelmente ficou lá, no ar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-8982102553065204913?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/8982102553065204913/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=8982102553065204913&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/8982102553065204913'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/8982102553065204913'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/07/dedicatria.html' title='dedicatória'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-1918807479043793621</id><published>2008-07-13T15:51:00.001-07:00</published><updated>2011-12-04T19:38:07.736-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Maria'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quo'/><title type='text'>Maria 2</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;2&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Seu rosto iluminou, sua boca sorriu involuntariamente e seu corpo adquiriu as qualidades de um liqüidificador, acordando, assim, as borboletas que moravam na sua barriga e fazendo-as bater as asas de um lado ao outro alvoroçadas. Era um dia de chuva; na chuva; com chuva; que seja!".&lt;br /&gt;Era um dia chuvoso.&lt;br /&gt;Maria, da sua varanda, olhava para fora de casa. Os pingos, que não eram bem pingos, eram mais traços, caíam em linhas incisivas e criavam linhas imprecisas na face da moça, outros traços. A chuva a chamava para sair e ela não pôde evitar.&lt;br /&gt;Era de dia, apesar da hora.&lt;br /&gt;O tempo de Maria correr e pegar um guarda-chuva foi o mesmo que um pássaro, que estava na sua varanda, levou para voar até uma árvore para observá-la sair de casa.&lt;br /&gt;Maria olhou seu relógio de pulso, que marcava oito e pouco da noite. "A Lua deve estar atrasada, ainda está claro". Quando tirou os olhos do relógio e mirou o firmamento, já lá estava ela. "Deve ter vindo correndo, percebendo o atraso". Em seguida, olhou para frente, na direção de uma senhora que fugia da chuva com uma expressão de desgosto.&lt;br /&gt;Sentindo que a água não mais chicoteava violentamente o seu corpo, a senhora olhou instintivamente para cima e se deparou com um guarda-chuva. No susto, olhou para o lado esquerdo. Nada. Olhou depois para o direito e lá estava Maria.&lt;br /&gt;- Por que as pessoas não gostam de tomar banho de chuva?&lt;br /&gt;Passou seu guarda chuva para a mão da senhora e voltou para casa tentando se lembrar como era um banho de chuveiro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-1918807479043793621?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/1918807479043793621/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=1918807479043793621&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1918807479043793621'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1918807479043793621'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/07/maria-2.html' title='Maria 2'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-7052057792652996133</id><published>2008-06-13T09:41:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:37:09.647-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quo'/><title type='text'>cartas jogadas ao vento</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A quem eu pretendo escrever uma carta&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Saindo.&lt;br /&gt;Ela abre a porta, passa pelo corredor, pega no corrimão, um som metálico, desce as escadas do prédio calmamente até chegar ao portão. Enfim, o clarão do dia.&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Caminhar.&lt;br /&gt;O seguinte não abre as portas, bate nelas, bate palmas, também, e toca cigarras. Anda pelas ruas, é ambos: remetente e destinatário.&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Adeus.&lt;br /&gt;Já este aqui não sai do apartamento há dias, acorda, se deprime e volta a dormir. O que se pode esperar de um tipo como o descrito é que se despeça em grande estilo.&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Traição.&lt;br /&gt;O último agora é apresentado, sem mistérios ou arrodeios. Gira a aliança que tem no dedo, é um cacoete que tem, não se acostuma com ela, gira também a ponta do bigode e pensa no que fez, mas que não deveria ter feito.&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Não é por causa do clarão que ela fecha os olhos, é porque em frente ao seu apartamento há um daqueles semáforos que apitam, para cegos, e ela costuma fazer uso dele, e só ela sabe por que o faz.&lt;br /&gt;Primeiro passo. Segundo passo. Terceiro passo.&lt;br /&gt;- Opa.&lt;br /&gt;Sente alguma coisa que a toca. De novo. De novo. Abre os olhos: são cartas! caindo do céu. Fecha-os novamente.&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;O carteiro... pois, sim, ele é um carteiro, caso não tenha ficado claro. O carteiro está por aí, pelas ruas, fazendo o seu trabalho. Uma carta aqui, outra acolá, mas só uma encomenda, pesada para o seu tamanho que é de um palmo, ou pouco mais, de comprimento e três dedos de altura mais outros três de profundidade. Leva o pacote ao ouvido de vez em quando, dá uma sacudida, um palpite e diz que "não!, não deve ser isto".&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Levanta-se o suicida... Mas tem que se explicar tudo? Sim, é um suicida, um amador, de fato, pois nunca praticou a ação antes, mas, mesmo assim, um suicida, porque tem a intenção de praticá-la. Então, levanta-se o suicida, havia dias que não se sentia tão contente, iria acabar com a própria vida (e elegantemente, diga-se de passagem). Estava já tudo planejado... bom, nem tudo e, mesmo depois que riscasse tudo que havia na lista os afazeres da preparação, ainda sim, não estaria tudo como deveria. Dizer que está tudo planejado é um engano que nem suicidas deveriam cometer, pois poderiam perder a morte.&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Deste aqui não há nada a ser explicado, é um infiel. Corrigindo: o infiel. Já não basta trair a esposa, fica aí no apartamento, deitado de pernas para o ar (literalmente, gosta de ficar de cabeça para baixo até não suportar mais). Tem a idéia! Escrever uma carta para "a outra" dizendo algumas coisas confidenciais e outras eróticas, pois não gosta de ser sério por muito tempo (nem por muitas letras). Um dos motivos por que quer escrever é porque está desconfiado que a esposa desconfia. Caneta, papel e mãos à obra. Se fosse perguntado a qualquer um, um transeunte na rua, por exemplo, este diria na certa que bom não se sai disto.&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Levanta os braços bem alto e inclina a mão direita, primeiramente, paralelamente ao solo, depois, faz movimento de ondas com elas, isto tudo enquanto caminha ainda de olhos fechados, mas não mais na rua e, sim, na calçada. O vento bate nos seus cabelos e nos seus dedos. Cantarola uma música, que não pode ser ouvida por ninguém a não ser ela mesma, pois, mesmo sem ela notar, um pandemônio se arma na rua, uma gritaria dos seiscentos diabos, um corre-corre. Pega uma carta no ar. Abre os olhos e olha, excitada, para ela. Não quer saber de quem é, então a abre e joga o envelope para trás. Cai na leitura. O mesmo transeunte diria que isto é falta de ética, mas ninguém quer mais saber da sua opinião, o seu momento já passou, era com a situação anterior.&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Rua tal, número tal, bairro tal. Confere! É esta a rua do pacote. O misterioso pacote que o carteiro agora entrega. Não é misterioso, de fato, é, apenas, um pacote, mas é o único do dia!&lt;br /&gt;- Quem sabe se aquele que encomendou o misterioso pacote não fique tão feliz que queira me mostrar o que recebeu?&lt;br /&gt;Pergunta ao porteiro do prédio para que andar deve subir.&lt;br /&gt;- É o quinto, não tem elevador.&lt;br /&gt;"Então é bom que valha a pena", pensou. Mas... espera aí. Os personagens ainda não se encontraram, este deve ser o prédio onde mora alguém. Quem? Tanto pode ser a moça, como o suicida ou o traidor.&lt;br /&gt;Bate na porta, bate palmas, toca a cigarra. A porta se abre.&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Decide o que tem que fazer por último. Um bilhete, claro! Como podia se esquecer? Sempre tem um bilhete de despedida. Sentou-se à escrivaninha. Era escritor antes, hoje, é suicida, talvez não tenha mudado tanto. Pegou um papel e uma caneta e começou a escrever com muito cuidado, seria sua última vez. Terminou.&lt;br /&gt;- Agora é só esperar... a qualquer hora, chega.&lt;br /&gt;E ficou deitado no sofá, já quase dormindo, quando ouviu baterem à porta. Em seguida, escutou palmas. E, por fim, "o idiota achou a cigarra".&lt;br /&gt;Recebeu o pacote e o abriu com um brilho nos olhos. Depois, olhou para o carteiro.&lt;br /&gt;- Sabe o que é isso? É uma adaga. Meu pai se matou com uma quase igual. É como dizem, né?: filho de peixe...&lt;br /&gt;O carteiro, que sorria, fechou a cara.&lt;br /&gt;- Não, não faça isso.&lt;br /&gt;- Você vai me impedir?&lt;br /&gt;Sim! O carteiro pulou em cima do suicida, dizendo que não fizesse aquilo, que a vida há de melhorar. E o outro respondia que não era da sua conta, mas, às vezes, não falava nada, apenas rosnava e mordia. A confusão, então, terminou num incidente desses que acontecem, tanto na ficção, como na vida real: o suicida acabou jogando o carteiro e suas cartas ao vento pela janela. Depois, nota o que fez, pára, chora, pensa um tempo e desiste de ser suicida. Pega a adaga, enfia o bilhete na sua ponta e os joga por aquela mesma janela, com toda a sua força.&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;O infiel, traidor, capadócio, termina a carta. Gira a aliança, gira a ponta do bigode e se levanta com a carta nas mãos. Abre a porta, passa pelo corredor, pega no corrimão, fazendo com que sua aliança produza um som metálico, e desce as escadas do prédio afoitamente até chegar ao portão.&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;Termina de ler a carta. Não acredita. Não acredita que seu nome e o do seu marido estão lá, além do de uma sirigaita. Dá meia volta e procura, entre as diversas cartas, o envelope que ela mesma violara. Acha. Acredita. Rua, número, bairro, nome do remetente, tudo bate. Não se desespera, pelo contrário, permanece paralisada e calada, até que cai do céu uma adaga com um bilhete espetado nela do seu lado.&lt;br /&gt;- O que é que há com São Pedro hoje?&lt;br /&gt;Abaixa-se, pega a adaga, tira o bilhete e lê. Aquele transeunte que já morreu na tua memória, leitor, e na passagem do infiel deve estar se revirando no seu túmulo fictício, sabendo que isto não acaba bem. Termina de ler. Pega uma caneta na bolsa... Certo!, a bolsa não havia sido mencionada, mas existe. Pega uma caneta na bolsa, risca o nome do suicida, que não é mais suicida, do bilhete e escreve o seu próprio nome em baixo. Olha para a adaga, pensa e encosta sua ponta na barriga.&lt;br /&gt;- Me despedir em grande estilo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-7052057792652996133?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/7052057792652996133/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=7052057792652996133&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7052057792652996133'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7052057792652996133'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/06/cartas-jogadas-ao-vento_4318.html' title='cartas jogadas ao vento'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-1014555117709313451</id><published>2008-05-22T18:03:00.001-07:00</published><updated>2011-12-04T19:37:59.817-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Maria'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quo'/><title type='text'>Maria 1</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;1&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Enquanto segurava alto e numa inclinação de quarenta e três graus sua jarra térmica amarela com bolinhas laranjas, deixando cair, numa corrente fina e constante, o café ainda quente na grande e desengonçada xícara, Maria, uma pessoa normal e com um nome normal, observou, escondida num canto da mesa de jantar, uma garrafa de suco que comprara na manhã daquele mesmo dia, onde estava escrito, em letras relativamente médias: light.&lt;br /&gt;- Hum...&lt;br /&gt;Maria concebeu em sua cabeça um futuro não muito distante onde tudo que se fosse de comer seria light. "Pois, ora, se até o suco é, o que mais não seria?". E mais: que as roupas do dia-a-dia dariam umas descargas elétricas no abdômen, como aqueles aparelhos que ela viu aparecer e desaparecer nas propagandas de tevê. Também imaginou que as pessoas só andariam a pé, pois o petróleo acabaria e os carros alternativos, na verdade, se mostrariam um grande fracasso. "Então, todos seriam magros!". Mas logo viu que não era bem assim. "Há sempre um rebelde!". Um rapaz que não faria a barba por um mês estaria lá, andando sem camisa e comendo areia para engordar.&lt;br /&gt;O tempo em que se deteve pensando não foi o suficiente para o café transbordar da xícara - o que seria bem provável que acontecesse -, mas o bastante para enchê-la. Constata-se, então, que o pensamento é rápido. Rápido também é o reflexo de Maria, que notou o fenômeno de ocorrência próvavel que estava a ponto de acontecer e tratou logo de pousar a jarra.&lt;br /&gt;Levantou a xícara e, no momento em que ia encostá-la na boca, um outro pensamento a abordou. Era alguma coisa importante, talvez genial, mas ela esqueceu logo, pois na sua mente veio um terceiro pensamento, que não a abordou, mas a assaltou de vez. "Qual é a diferença entre light e diet?".&lt;br /&gt;Resolveu, então, não pensar em nada e ficou com aquela agonia de quem quer se lembrar de alguma coisa, mas não se lembra.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-1014555117709313451?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/1014555117709313451/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=1014555117709313451&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1014555117709313451'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1014555117709313451'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/05/maria-1.html' title='Maria 1'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-7304347249912141754</id><published>2008-05-12T17:13:00.000-07:00</published><updated>2008-08-01T11:11:35.103-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quo'/><title type='text'>Crônica</title><content type='html'>Devido a falta do que postar, eu resolvi colocar uma crônica que o meu professor de português me mandou fazer. Eu não gostei, na verdade, mas ele usou como exemplo lá numa tarefa, então, não deve estar ruim. Aí vai:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Divagação sobre o ócio e o estudo&lt;br /&gt;&lt;br /&gt; De manhã, pego o ônibus para ir à Universidade. Não sei por que o pensamento me assalta a cabeça e certas tremedeiras me desafiam o corpo no tempo que passo ociosamente em transporte público. Quem sabe não é a estrada que incita a reflexão? Talvez seja vento batendo no rosto que nos trás à tona sentimentos, ou a presença de pessoas desconhecidas, que nos dá a impressão de conhecermos melhor a nós mesmos. O certo é que, nesta viagem, cada vez que chego mais próximo do destino físico, afasto-me do mental.&lt;br /&gt; Ironicamente, enquanto nada faço, penso nos meus afazeres - os escolares, especificamente - e para onde minhas escolhas me levarão. Para que me serve o estudo? Para me formar, arranjar um emprego, namorar, casar, comprar uma casa e uma tevê vinte e uma polegadas para ver o rosto de Francisco Cuoco um pouco maior, ter filhos, me divorciar, me ver livre dos filhos, me aposentar e morrer? Acho que não. Prefiro estudar para saber. E só. Melhor do que uma vida pré-fabricada.&lt;br /&gt; Chegando à Universidade, a única certeza é de que as dúvidas vão persistir e de que vai ser longa a volta para casa.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-7304347249912141754?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/7304347249912141754/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=7304347249912141754&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7304347249912141754'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7304347249912141754'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/05/crnica.html' title='Crônica'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-4969432246969450355</id><published>2008-04-14T15:12:00.000-07:00</published><updated>2008-04-16T10:00:30.449-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Trilogia de Bar'/><title type='text'>tempo, bar e ilusões</title><content type='html'>O barman se assustou quando viu George entrando no bar e continuou se assustando por algum tempo. Depois se lembrou que não precisava reagir desta forma. Deixou de se assustar.&lt;br /&gt;E então vinha George andando e se aproximando rápido, com a expressão irritada, mas a verdadeira face atrás daquela, e dava para vê-la claramente através da transparência da raiva, era de tristeza.&lt;br /&gt;- Um uísque, por favor.&lt;br /&gt;Aparentemente, George não havia olhado à sua volta, não havia olhado para aquele lugar sujo, desarrumado e virado de ponta cabeça. Pareceu também que ele não havia olhado para si mesmo em sua camisa pólo engomada, calça de linho e sapatos sociais. Aquele não parecia ser o tipo de lugar onde se servia uísque, muito menos o lugar certo para ele. Mas ele sabia onde tinha entrado e por que motivo. E todas estas contradições, contraditoriamente, não foram o que impressionou o barman. Já havia visto disto.&lt;br /&gt;- Nós servimos apenas cerveja e pinga, senhor.&lt;br /&gt;O tom educado do barman parecia tão inapropriado para o lugar quanto a presença de George.&lt;br /&gt;- Pinga, então... obrigado.&lt;br /&gt;E quando ele pôs o copo na boca, lembrou-se de perguntar alguma coisa, mas decidiu que terminaria de beber antes. Quando engoliu tudo, percebeu que tinha esquecido.&lt;br /&gt;- Aah. Qual é seu nome?&lt;br /&gt;- George. Não é "Jorge", tem que pronunciar como se escreve, assim disse minha mãe: Ge-or-ge.&lt;br /&gt;- Certo, Ge-or-ge.&lt;br /&gt;Pronunciou sílaba por sílaba, mas sem malícia ou sarcasmo, era de seu total interesse ganhar a confiança deste cliente em especial.&lt;br /&gt;- Também atendo como pobre-coitado, desiludido e infeliz.&lt;br /&gt;- Mas por quê? Que motivo teria um jovem bonito e arrumado como você pra ser infeliz?&lt;br /&gt;Perguntou isto num tom paternal, talvez fraternal. Alguém que não os conhecessem os confundiriam como pai e filho. De fato, eles eram estranhamente parecidos fisicamente, apesar do barman ser uns trinta anos mais velho, mas de forma alguma eram pai e filho.&lt;br /&gt;- Mulher! Minha namorada.&lt;br /&gt;- Ora, se ela é um problema, deixe-a.&lt;br /&gt;- Ela não é um problema, mas nós temos problemas freqüentemente.&lt;br /&gt;- Ser problema ou causar problemas é a mesma coisa...&lt;br /&gt;- Não acho...&lt;br /&gt;- Mas é!...&lt;br /&gt;Desta vez, quase que gritou. E continuou falando alto.&lt;br /&gt;- Esta Mariana vai acabar com sua vida...&lt;br /&gt;- Como você sabe o nome dela? Eu não disse o nome dela.&lt;br /&gt;- Disse, sim!, você é que está muito bêbado para perceber.&lt;br /&gt;Talvez fosse isto mesmo. Talvez ele estivesse muito bêbado.&lt;br /&gt;- Eu vou sair daqui.&lt;br /&gt;- Não!, não saia.&lt;br /&gt;Enquanto George saía irritado do bar, o barman pensou em correr atrás dele, pensou em pegar a arma que escondia na gaveta atrás do balcão, mas se lembrou que se irritava muito fácil e, se algo desse errado, se um dos dois reagisse, seria ruim para ambos. Quando o fogo da sua cabeça se apagou, sentou-se numa cadeira, deu um gole de pinga e, olhando para a porta por onde George saiu, organizou um pensamento que soou na sua cabeça como uma historinha:&lt;br /&gt;- "Você vai sair daqui e vai para casa. Lá estará Mariana. Você vai desmaiar quando vê-la, ela vai cuidar de você a noite inteira. Vocês farão as pazes, namorarão por mais dois anos e se casarão. Ela irá morrer num acidente de carro, você entrará em depressão, perderá o seu emprego promissor e arranjará um outro trabalho, como barman. Por estar muito bêbado, você não lembrará de nada de hoje, até o dia em que você tomar um susto quando ver a si mesmo entrando num bar imundo".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-4969432246969450355?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/4969432246969450355/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=4969432246969450355&amp;isPopup=true' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/4969432246969450355'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/4969432246969450355'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/04/tempo-bar-e-iluses.html' title='tempo, bar e ilusões'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-2317673295391317176</id><published>2008-04-12T12:54:00.000-07:00</published><updated>2008-09-14T15:16:32.397-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Trilogia de Bar'/><title type='text'>ilusões temporais num bar</title><content type='html'>- Eu acho a fé muito válida, mas ela está longe de ser divina: é, puramente, humana. É a busca pelo prazer, ou a busca pela busca pelo prazer.&lt;br /&gt;E todos balançavam a cabeça concordando.&lt;br /&gt;- Opa, olha só, acabou meu gin. Garçon, mais gin, por favor.&lt;br /&gt;- Nós servimos apenas cerveja e pinga, senhor.&lt;br /&gt;O tom educado da voz parecia estar certo, mas as palavras, não.&lt;br /&gt;- E eu sou um barman, não garçon.&lt;br /&gt;Foi então que Claude notou que não estava no restaurante que achava que estava e que não estava conversando com as pessoas que achava que estava. Estava, mesmo, era num bar dos mais imundos e em que não se servia nem gin! Mas não fez chilique.&lt;br /&gt;- Nada, então. Muito obrigado.&lt;br /&gt;Olhou em volta: um só homem sentado no bar, num canto escuro, tomando uma cerveja. Virou-se de volta para o barman, estendendo a mão.&lt;br /&gt;- Sou Claude. Minha mãe é francesa, então ela insiste que eu chame "Clôde", mas isto aqui é o Brasil, não é? Temos que chamar como se escreve! Ah, e eu sou sociólogo... com mestrado em Antropologia.&lt;br /&gt;- E eu sou formado em Direito com pós-graduação em Ciência Política.&lt;br /&gt;Só podia ser mentira! Por que ele estaria trabalhando num bar destes, então? Poderia estar, pelo menos, num mais limpo. Mas ele não falou ironicamente, pelo menos não soou desta forma. Algumas pessoas, às vezes, têm senso de humor esquisito.&lt;br /&gt;- Você tem os pés bem fincados no chão, Claude.&lt;br /&gt;E, neste momento, o homem sentado no canto escuro se levantou.&lt;br /&gt;- Eu não o conheço de algum lugar? Você me é familiar, seu... Claude, é isso?&lt;br /&gt;- É... você também me lembra alguém... observando bem.&lt;br /&gt;O barman não pôde deixar de revirar os olhos para cima e bater a mão na testa. Eles eram idênticos! E não haviam notado ainda! E passaram algum tempo se olhando.&lt;br /&gt;- Vocês são iguais.&lt;br /&gt;E foi aí que bateu! Os corações dos dois começaram a bater mais forte. Finalmente, o homem que estava no canto escuro falou:&lt;br /&gt;- Talvez você seja eu mesmo, mas do outro lado do espelho. Canhoto ou destro?&lt;br /&gt;- Canhoto.&lt;br /&gt;- Droga! Também!&lt;br /&gt;"Este outro aí é tem os pés meio que voando", pensou o barman.&lt;br /&gt;- Qual é seu nome mesmo? Acho que você não disse.&lt;br /&gt;- Jean...&lt;br /&gt;Foi aí que as borboletas voaram de cima para baixo na barriga de Claude.&lt;br /&gt;- Umas pessoas gostam de chamar de "Jan", mas é Jean.&lt;br /&gt;E foi aí que ele esquentou e esfriou infinitas vezes num segundo.&lt;br /&gt;- Mas, na verdade, mesmo, eu não me importo.&lt;br /&gt;- Você é meu irmão gêmeo...&lt;br /&gt;Só o silêncio tinha força para tomar conta desta pausa.&lt;br /&gt;- E eu te matei sufocado quando tínhamos seis anos. Ninguém nunca descobriu. Eu não queria, e não quero, ser igual a ninguém. Eu não queria dividir a atenção de mamãe.&lt;br /&gt;Claude esperava tudo, menos o abrir de um sorriso no rosto de Jean.&lt;br /&gt;- Sabe qual é o seu problema, Claude? Você fala demais e não sabe porra nenhuma.&lt;br /&gt;E, então, Claude se deu conta que Jean estava segurando um travesseiro, mas não sabia se já estava lá, ou se havia aparecido misteriosamente.&lt;br /&gt;- Morrer sufocado é ruim pra caralho.&lt;br /&gt;Claude achou aquelas palavras muito sinceras e até sensatas, mas era tudo tão surreal (porém, de uma certa forma, real) que era possível que estivesse num sonho. Então, deixou que seu irmão o matasse. Tinha que fazê-lo um agrado, afinal era seu irmãozinho cinco minutos mais novo.&lt;br /&gt;Jean fez o que tinha que fazer e deixou o corpo do irmão, que em não muito tempo ficaria mais fedido que o bar, deitado ali mesmo.&lt;br /&gt;- Me desculpe pela bagunça, seu barman...&lt;br /&gt;- Não tem problema, não sou eu quem limpa o chão.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-2317673295391317176?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/2317673295391317176/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=2317673295391317176&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2317673295391317176'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2317673295391317176'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/04/iluses-temporais-num-bar.html' title='ilusões temporais num bar'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-299599658203256254</id><published>2008-04-10T18:53:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:39:29.460-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Trilogia de Bar'/><title type='text'>bar das ilusões temporais</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Ilusão&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Se não houvesse uma janela que dava direto para a sórdida rua, podia-se jurar que aquele bar ficava debaixo da terra. Tinha uma atmosfera densa e era sujo e úmido.&lt;br /&gt;Pelo susto que levou, dava para perceber que Bartholomeu não sabia onde estava.&lt;br /&gt;- Bicho, cê tá chapado?&lt;br /&gt;- Não, que é isso? Eu estava alí passando quando vi... digo, quando não vi, aí... Puf! Eu já estava aqui.&lt;br /&gt;- Que barra...&lt;br /&gt;- É...&lt;br /&gt;Até que, finalmente, Barthô percebeu.&lt;br /&gt;- ... Como é que é!?&lt;br /&gt;- É uma barra, bicho, uma coisa dessas acontecer assim.&lt;br /&gt;Num pulo, Barthô se ajeitou. Tirou a poeira das calças e da camisa e mirou o interlocutor, um rapaz, assim como ele mesmo, alto, magro e por volta dos vinte e poucos anos. Mas tinha cabelos longos e desarrumados. Eram tão parecidos que poderiam ser a mesma pessoa.&lt;br /&gt;- Por que você fala assim?&lt;br /&gt;- Porque todo mundo fala assim!&lt;br /&gt;E essa conversa ficou por aí. Barthô não queria continuá-la, preferiu ficar sem entender do que ficar com a cabeça mais complicada do que já estava. Enfim, sentaram-se numa mesa. O barman, um senhor incompreensivelmente refinado, levou-lhes duas garrafas de cerveja.&lt;br /&gt;- Não teria vinho?&lt;br /&gt;Provavelmente, Bartholomeu ainda estava com a cabeça um pouco balançada. Aquele bar não parecia ser do tipo que se servia vinho. Aquele era um canto dos desolados, do tipo que só se servem as bebidas baratas e as populares.&lt;br /&gt;- Nós servimos apenas cerveja e pinga, senhor.&lt;br /&gt;O tom gentil do barman não pareceu impressioná-lo, talvez, aquilo tudo fizesse parte de uma alucinação só. Barthô aceitou as cervejas e prestou atenção, novamente, ao ser estranho, mas, mesmo assim, estranhamente familiar (e esta palavra parecia ser a mais certa de todas), sentado ao seu lado.&lt;br /&gt;- Ah, acho que não disse: meu nome é Bartholomeu. Com "th". Qual é o seu?&lt;br /&gt;O jovem de cabelos longos se levantou e pegou Barthô pelo pescoço.&lt;br /&gt;- Como eu sei se tu não é milica? Bizarro desse jeito.&lt;br /&gt;Com a voz distorcida, mas ainda compreensível, ele só pôde responder a verdade.&lt;br /&gt;- Porque, se não, eu não lhe diria que há dois deles entrando no bar.&lt;br /&gt;Os dois correram instantaneamente para salvar suas vidas, o cabeludo talvez com um motivo, já Barthô, por impulso. E quando eles pularam atrás do balcão, caíram em cima do barman, que, com cólera nos olhos, segurava uma arma, pronto para atirar. Mas Barthô a tirou de sua mão e, ele mesmo, apontou para os policiais.&lt;br /&gt;- 'Mbora, seus porras! Se se mexerem, é bala!&lt;br /&gt;- É isso aí, bicho, tô contigo e não abro!&lt;br /&gt;- Agora, virem-se de costas!&lt;br /&gt;- Chocante!&lt;br /&gt;E foi aí que, antes mesmo dos policiais pensarem se iam se virar ou não, Barthô matou os dois em dois tiros.&lt;br /&gt;- Chocrível!&lt;br /&gt;- Como?&lt;br /&gt;- Chocante e horrível.&lt;br /&gt;E os dois correram para fora do bar e saíram rua afora. Barthô atravessou-a rapidamente e sem se distrair, mas o rapaz dos cabelos compridos ficou fascinado olhando o modelo futurista do carro que vinha em sua direção. Foi no instante em que o automóvel o acertou que Bartholomeu notou que estava em frente à própria casa. Entrou nela e chamou seu pai para ajudar o novo amigo. Quando os dois chegaram, o pai de Barthô se assustou. Observou bem o garoto que jazia no asfalto. Lembrou-se dele mesmo fugindo da polícia, do cabelo longo que tinha, das gírias que usava.&lt;br /&gt;"Sou eu".&lt;br /&gt;E, enquanto os três quedavam-se ali parados, a visão do rapaz do cabelo comprido escurecia, de modo que ele não podia ver que pai e filho desapareciam, desencarnavam, em plena rua, em plena luz do dia. Era como se Barthô nunca tivesse existido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-299599658203256254?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/299599658203256254/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=299599658203256254&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/299599658203256254'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/299599658203256254'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/04/bar-das-iluses-temporais.html' title='bar das ilusões temporais'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-9022522165493768391</id><published>2008-04-10T18:47:00.000-07:00</published><updated>2008-04-16T10:00:30.451-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Trilogia de Bar'/><title type='text'>Trilogia de Bar</title><content type='html'>Acabei de terminar uma trilogia. São textos independentes, mas que funcionam juntos. São como que crônicas de um bar só.&lt;br /&gt;É o seguinte... eu descobri que tem gente que eu conheço que lê o blog, mas não comenta. A parte de "ler o blog" foi a que mais me impressionou. Então, eu queria pedir que quem ler o post, por favor, comente. Pode falar mal. Sério, não tem problema, é até melhor. Eu só quero saber se alguém lê, porque já é suficiente.&lt;br /&gt;Então, se vocês lerem os textos, comentem.&lt;br /&gt;Eu começarei a postar a trilogia... agora! Postarei o segundo post daqui a dois dias e o terceiro, daqui a quatro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-9022522165493768391?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/9022522165493768391/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=9022522165493768391&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/9022522165493768391'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/9022522165493768391'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/04/trilogia-de-bar.html' title='Trilogia de Bar'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-5270671008635553371</id><published>2008-01-27T09:43:00.000-08:00</published><updated>2011-12-04T19:43:22.412-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='R.-F.'/><title type='text'>esse som</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Que fez o Sol aparecer&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;A luz ia abocanhando a escuridão e esta, fazendo o que podia, cercava aquela pelos cantos. Até hoje elas brigam, viraram o dia e a noite.&lt;br /&gt;Era noite quando seu Flor saiu de casa.&lt;br /&gt;Chovia, também, o vento uivava e as árvores balançavam num arco perfeito e estranhamente sincronizado, como um relógio, só não era mais insólito porque não se ouvia o tiquetaquear. Feita essa observação, seu Flor olhou seu próprio relógio, levou-o ao ouvido e percebeu que não saía barulho, apesar do ponteiro funcionar perfeitamente. "Talvez tenha ficado surdo... de verdade e não como minha mulher diz que eu sou". Mas reparou que escutava o barulho do vento. E só. Não escutava o farfalhar dos galhos, apesar de o vento, que tirava som não-se-sabe-donde, agir sobre eles. "Talvez o tempo tenha parado! Quem sabe se neste tipo de situação o som não para antes que a luz?! Ou, melhor!, muito melhor!, quem sabe o tempo não esteja voltando atrás e que este único som que escuto, e que julgo ser do vento, não seja o de uma fita rebobinando?! Ora, quem sabe? Pode ser também que eu tenha, de fato, ficado surdo, tal qual diz minha mulher que já estou, e este som que ouço é o da foice da morte arrastando, ou o do grito do meu próprio cérebro, ou, quiçá, o do eco do Big Bang!".&lt;br /&gt;Parou de andar. Momentos como este merecem uma retrospectiva da vida, desde a semente até o momento presente. "Semente" riu "Parece ironia meu nome ser Floriano". E desistiu de voltar mentalmente ao passado, porque a graça substituiu a preocupação. "E ainda mais: se, de fato, estou retrocedendo físico e cronologicamente ao passado, de que me vale o esforço de voltar mentalmente?". E ficou ali parado, esperando que a paisagem mudasse de cor, que as casas devastadas pelo tempo-lógico, com o poder do tempo-reverso, se reconstruíssem sem que precisasse de trabalhadores e que seu rosto, enfim, desenrugasse. Permaneceu assim por alguns minutos. Mas todas as coisas ficaram como deveriam ter ficado: do mesmo jeito, apenas um tempo mais velhas. Ah!, e aquele uivo que Deus-sabia-mais-lá se era vento, mesmo, se era tempo, mesmo, se era foice, grito ou explosão... O que Deus e Floriano sabiam, mesmo, era que parecia o perecer de mil lobos.&lt;br /&gt;"Porra! Que merda é esta, então?". E correu até tropeçar e cair. "Talvez eu esteja cego e vejo através do som, como os morcegos. Talvez este som que eu escuto saia de mim mesmo". Mas notou que não falara uma palavra até agora e que o único ruído que poderia ter produzido era o dos sapatos, mas notou que o choque deste com o chão não tinia, assim como tudo o mais.&lt;br /&gt;Pôs-se de pé, deu meia volta e seguiu em frente. Pensou bem e achou que tinha passado um bom tempo naquela reflexão interminável. "Por que o Sol não nasceu, então? Por que não encontrei viv'alma no caminho? Deve ser coisa da cabeça".&lt;br /&gt;Pôs o pé no primeiro degrau da escada que levava à porta de sua casa e tudo clareou-se. O céu e a Terra, não sua mente. Passou pela cozinha onde sua mulher preparava o café e ela o percebeu: cabisbaixo e acabado, como se tivesse se mantido acordado por dias. Do tanto de coisas que ela falou, ele só escutou o "você-está-me-ouvindo-Flor?" habitual. Não se deu ao trabalho de responder e se entocou no quarto, ainda coçando a cabeça. "O que raios foi que sucedeu esta noite, que diabos foi aquilo?". O sucedido diabólico foi, na verdade, uma grande batalha que a escuridão venceu da luz. Durante trinta dias, foi noite, e, enquanto isto, nenhum animal quedou-se acordado, exceto por seu Flor, que, enquanto pensava que o tempo voltava para trás, mal sabia que este estava correndo para frente, e tão rapidamente, que parecia até que um mês na escuridão era só uma noite mal dormida. Não sabia, e nem vai saber, Floriano, que, por ser ausência de luz, a escuridão gosta da ausência de som. Não sabia ele, também, que o uivo que perturbou sua cabeça durante o tempo no escuro era, na realidade, o bramido de guerra da luz.&lt;br /&gt;Seu Flor entrou no banheiro colado ao quarto, lavou o rosto e se olhou bem no espelho. "Ei! Que rugas novas são estas?".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-5270671008635553371?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/5270671008635553371/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=5270671008635553371&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/5270671008635553371'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/5270671008635553371'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/01/o-tempo-o-som-o-vento-e-tudo-o-mais.html' title='esse som'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-6677631346831841998</id><published>2008-01-11T15:27:00.000-08:00</published><updated>2011-12-04T19:41:21.984-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='R.-F.'/><title type='text'>o mormaço (ou ensaieto sobre o aquecimento global)</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Que pediu paz e, no entanto, me ganhou&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;O clarão reluzindo nas pedras do chão, soltando faíscas incandescentes, como se aquilo fosse uma guerra épica entre o Sol e a Terra. A derrota desta é iminente.&lt;br /&gt;Era o janeiro mais janeiro de todos.&lt;br /&gt;Cê queria estar num canto equidistante entre o céu e o solo. Não o Céu e a Terra, o Sacro e o Mundano, a Morada dos Deuses e a Morada dos Homens. Queria flutuar, estar com o pensamento fora e com os olhos dentro. Mas o calor era forte, reduzia-o à fraqueza, à imortalidade humana. Estava abaixo do solo, mas em cima do Sol.&lt;br /&gt;Estava, mesmo, era num inferno terreno.&lt;br /&gt;De quando em quando, subia-lhe um frio agudo e seu corpo estremecia de prazer, esperando a neve que, mesmo estando no Sul tropical, sabia, ao certo, que cairia. Mas em questão de milésimos de segundo, a quentura tomava-lhe conta novamente e ele mergulhava numa negridão de medo de morte, de pavor de derreter.&lt;br /&gt;Cê não acreditava que suas octagenárias pelancas estariam fazendo, agora, o trabalho que ele implorava para que fizessem durante os invernos alemães de sua pobre infância, mas que nunca faziam, que era esquentá-lo.&lt;br /&gt;Fevereiro, enfim, chegou, com um certo bafafá abafado e feliz (porque o Carnaval é, sim, uma grande briga alegre, como a Capoeira). E o bafo arruaceiro, que subia nas janelas da casa de Cê, invadia seu quarto e entrava pelo seu corpo, misturado aos pulos foliões, dava a impressão de que a Terra racharia até tudo virar um grande Sertão, mas não seco, e, sim, molhado de suor e água.&lt;br /&gt;Por fim, tudo que era sólido mudou de estado e os Estados-Nação inundaram.&lt;br /&gt;Era a cartada final do Astro-Luz.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-6677631346831841998?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/6677631346831841998/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=6677631346831841998&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6677631346831841998'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6677631346831841998'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2008/01/o-mormao.html' title='o mormaço (ou ensaieto sobre o aquecimento global)'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-4200288412551246841</id><published>2007-12-28T11:55:00.000-08:00</published><updated>2011-12-04T19:42:45.881-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='R.-F.'/><title type='text'>reverso</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Adulta desde menina&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Tudo começa com a morte, indesejável, mas, às vezes, previsível.&lt;br /&gt;Estavam envelhecendo desigualmente.&lt;br /&gt;Com o tempo correndo em progressão geométrica, cada dia que se passava era um que ela riscava no calendário, é como uma contagem regressiva, que reinicia-se sempre no ano seguinte. Tinha a ilusão de que viveria sempre o ano inteiro, do começo ao fim, por que o fizera sempre, desde que nasceu, no dia primeiro do mês primeiro do ano. Achava, inclusive, muito bonito morrer no dia do aniversário: celebraria-se vida e morte num mesmo dia, como num poema trágico.&lt;br /&gt;Ele aprendeu, com o tempo, a ter paciência, consigo mesmo e com os outros. Não usava mais relógio. Além do tempo, algo mais o ajudou a ser tranqüilo: sonhou que ainda era um feto e pressagiou que sairia logo da barriga da mãe, uma força o dominou, sentiu-se angustiado, moveu-se, girou trezentos e sessenta graus e rodopiou em sentido contrário como um iô-iô, saiu molhado e ensangüentado para chorar seu primeiro choro. Isto deu-lhe a certeza de que saberia a hora da sua morte.&lt;br /&gt;Cansara de pensar nos pequenos problemas, como o estilo "Elvis-ultrapassado" do marido, e descontar em outras coisas, como na cama, na verdade, na não-cama. Não teve coragem de dizê-lo, então, simplesmente, assentiu. Finalmente, notou que tinha se acostumado, achava bonitinha a alienação à moda do companheiro. Até que, sem que ela o pedisse, ele deu um trato na aparência.&lt;br /&gt;Sentia que a mulher não estava gostando de algo. Tirava a vista das notícias de jornal, observa-a passo-a-passo. Enfim, descobriu! Tomou a coragem que não tinha, pegou emprestada energias da força sexual, que estavam sendo canalizadas há algum tempo, e o fez: raspou a costeleta.&lt;br /&gt;Ela odiava aquela costeleta. Antes, não, pois como sua barba universitária estava sempre por fazer, a costeleta não se sobressaía assim, mas, desde que se casaram, ele raspa tudo que não seja ela. Vai do cabelo ao pescoço. Cada fio deve ter por volta de dois centímetros e meio. Cheia. Flamejante, assim como o seu cabelo esvoaçado, que parece ainda mais com fogo do que a maldita.&lt;br /&gt;No começo, ele não fazia idéia do ódio. Achava que, fazendo a barba, a mulher acharia melhor, aparentaria mais limpo, mais arrumado. De fato, aparentava. E, de fato, ela gostaria que ele raspasse a barba, mas queria toda. Só que não podia desvencilhar-se, assim, da costeleta. Nunca a raspara em toda a vida. Os primeiros indícios de homem que apareceram-lhe no rosto foram ali, entre orelha e olho: pêlos finos, patéticos, até.&lt;br /&gt;Cochichou com uma amiga sobre o rapaz que fazia engenharia elétrica. Uma graça, ele é.&lt;br /&gt;Comentou com um amigo, numa festa, que aquela garota que fazia direito e que dançava na pista era linda. Tornou a comentar a mesma coisa, com o mesmo rapaz, mas, desta vez, a relação entre eles era de noivo e padrinho. A garota, contudo, caminhando para o altar, ainda parecia estar dançando com seus passos leves.&lt;br /&gt;Desde menina, já era adulta. A espera por tudo a fazia crescer. Sentada no sofá, esperava o pai chegar do trabalho. Enquanto ele não chegava, atazanava a mãe. Esperava as notas das provas, o fim de semana, as férias, o cachorro que tinha ido ao veterinário... Anos depois, esperou, também, que aquele seria seu marido a convidasse a dançar.&lt;br /&gt;Olhou-se no espelho. Lado esquerdo do rosto, pouco abaixo da linha de onde a orelha terminava, um fio comprido, vermelho como o seu da cabeça. Era a barba, enfim! Na sua família, de origem escocesa, já era costume: quando um garoto aparecia com pêlos no rosto, a festa se fazia, chamava-se os parentes, amigos e vizinhos, e o menino tomava o primeiro gole de uísque.&lt;br /&gt;Ela nasceu, finalmente, depois de muita espera: desde já, sabia que ia ser um ótimo ano, ótimos anos.&lt;br /&gt;Ao mesmo tempo, envolto por um líquido nojento, ele se contorcia e girava: sabia que logo chegaria sua vez.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-4200288412551246841?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/4200288412551246841/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=4200288412551246841&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/4200288412551246841'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/4200288412551246841'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/12/revs.html' title='reverso'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-3313312886913091245</id><published>2007-12-04T17:22:00.000-08:00</published><updated>2011-12-04T19:40:24.402-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quo'/><title type='text'>desenhos e caricaturas: desventuras de um desenhista de retrato-falado</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Que não merece estar na dedicatória de um texto tão - tão - ruim&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Um dia normal numa delegacia. Mas não uma delegacia normal. Ela é 'anormal' não porque é povoada por seres mágicos. O motivo pelo qual ela não é normal é por acontecer apenas uma coisa de estranho: ela funciona, as pessoas, nela, trabalham.&lt;br /&gt;Floriano Errasa partiu do interior de não-sei-onde para a capital para tentar ser artista. Ora, bastante comum. A maioria dos interioranos que vão para a-cidade-grande o fazem por três motivos: ser artista, médico ou advogado. Esse é um dos motivos pelo qual eu admiro o meu pai, pois foi o único dos seus irmãos que não escolheu uma dessas profissões, virou engenheiro. Pois bem, Floriano queria ser pintor, mas não conseguiu vender nenhum de seus quadros, virou, então, desenhista de retrato-falado.&lt;br /&gt;Esta, sim, é uma profissão interessante. Mais interessante é o que Floriano pensa dela. Mas esses são sentimentos que vão se adquirindo e se perdendo ao longo da carreira. O que importa, agora, é o seu primeiro dia de trabalho.&lt;br /&gt;O Sol clareia suavemente o dia. A estranha delegacia recebe Floriano, o seu novo funcionário, um desenhista de retrato-falado. O antigo empregado, neste mesmo dia, deixa o trabalho. Houve uma espécie de problema com ele. Basta saber que, logo após ele ter recebido uma licença de saúde há poucos minutos atrás, três presos muito feios foram inocentados e soltos.&lt;br /&gt;O ambiente é típico de filme hollywoodiano: as pessoas correm; os telefones tocam; um homem tremendo, que é levado por dois policiais para fora, olha fixo para Floriano; os corredores são finos; uma secretária, passando com papéis na mão, esbarra num homem, ele a ajuda a catar os documentos... Com lápis e caderno na mão, Floriano se esgueira por entre os funcionários e anda contra-corrente em direção à sala do delegado Silveira. Chega. Entra. Silveira explica-o que não há, normalmente, muito trabalho, mas que "de quando em vez, seu Esarra, aparece trabalho de túia; e não é brincadeira", "Errasa, na verdade", mas essa resposta foi apenas um pensamento dentre muitos. Um sorriso sem jeito de Floriano e um adeus sem graça.&lt;br /&gt;Mal senta na cadeira de sua própria sala (pois é, desenhistas de retrato-falado têm sua própria sala) e entra um policial com uma testemunha chorosa. Floriano sua frio e acha que ele próprio está sendo interrogado. Um emprego, antes para ele tão trivial e possivelmente passageiro, causava-lhe, agora, vertigens. Começaria a retratar a cara da Morte, do Roubo, do Estupro e da Violência. Bobagem dele, nada disso tem rosto e, se tivesse, a face seria a da própria sociedade humana. Mas ele personifica essas coisas, e sente um frio na espinha todas as vezes que desenha alguém.&lt;br /&gt;A testemunha, ainda com os olhos vermelhos do trauma, reporta tudo minuciosamente. Enquanto ela fala do "homem alto, magérrimo, pardo, cabelo curto e liso e nariz grande, fino e retorcido para a esquerda...", Floriano imagina um pirata e, acidentalmente, põe no desenho um tapa-olho, "desculpe-me, é meu primeiro dia...", conserta o erro, "...a propósito, que crime ele cometeu?", "...".&lt;br /&gt;Em casa, com uma cópia do retrato-falado, fez uma caricatura do desenho: um pirata urbano, a bordo da sua caminhonete, assaltando postos de gasolina.&lt;br /&gt;Terceiro ano de trabalho, já pegando prática. Em sua sala, rabisca algo no caderno. Senta um gordo velho em frente a sua cadeira. O senhor é bastante suspeito e digno de uma caricatura, pois tem um sinal 'francês' (encostando no lábio). Falava enquanto cuspia (isto mesmo), "baixo, negro, olhos grandes...", "e o que foi que ele fez, mesmo?", "...".&lt;br /&gt;Em casa, Floriano desenha um 'Fuscão-preto' e um tanque d'água que vaza, o nível da água é alto e o Fusca vai se afogar. Sabe, ou pensa, que fez um belo trabalho e coloca o desenho no seu mural de caricaturas.&lt;br /&gt;Décimo ano de trabalho, experiente. A carreira de pintor foi para o espaço, não tem mais tempo para isso, tem que pensar no trabalho, na mulher que agora tem, uma secretária com quem esbarrou, derrubou dúzias de papéis e a ajudou a recolhê-los, "ora, e delegado Silveira disse que não havia trabalho, quase; mas é o dia inteiro, milhares e milhares de pessoas entrando, noites acordado". Uma mulher, ainda em estado de choque, entra na sala, "uma chacina... velhos, dezenas deles, eu vi", "viu o quê?", com palavras soltas, ela descreve e, com o pouco de informação que coleta, Floriano desenha.&lt;br /&gt;Desenha, também, em casa, um rapaz louro, que coleciona cabeças de idosos.&lt;br /&gt;Décimo sétimo ano de trabalho, não sabe fazer nada além disso na vida. Reporta no papel a décima mulher que já teve que desenhar, uma sedutora, que dá golpes em homens estúpidos e os mata depois.&lt;br /&gt;Volta para casa. Desenha uma Medusa. Cola no mural que fica agora na garagem, pois o antigo cômodo onde ele ficava é, agora, o quarto do filho. Olhando o mural, finalmente percebe: nunca vira, de verdade, as pessoas que desenha. Será que foram presas?, "que faço um bom trabalho?", Que acerta os rostos?, "devo acertar, ninguém nunca reclamou", nem congratulou.&lt;br /&gt;Vigésimo quarto ano de trabalho, está inútil. As mãos tremem do café e do nervosismo, não consegue desenhar mais, "o crime", repete, "o crime; eu sei como é o crime, que cara ele tem; eu sei como ele é; eu o vejo na rua todos os dias, está nos rostos" que ele desenhou. Tem medo, mas não pode deixar o trabalho, "eu salvo pessoas", diz para si, com as mãos na cintura e olhar heróico.&lt;br /&gt;Mas a tremedeira atrapalha o trabalho, as testemunhas reclamam dos desenhos, "não foi assim que descrevi", "mas vai ter que ser assim", diz com um tom fanático. E envia as imagens, faz caricaturas, interroga mais e repete todo o processo.&lt;br /&gt;O novo delegado o chama para sua sala, "não é possível, coronel Silveirinha, na época do seu pai, as pessoas não eram assim", "coronel Silveira Filho, por favor; e talvez não sejam as pessoas, seu Esarra...", "Errasa", pensa, e pensa ainda que este é, mesmo, um filho de peixe, "..., talvez seja você; vamos dar-lhe uma licença de saúde, já temos até um novo rapaz que vem trabalhar aqui", Floriano começa a tremer. Bastante. Silveirinha, assustado, chama dois policiais para acompanhá-lo. Os homens chegam e conduzem-no pela delegacia...&lt;br /&gt;Num canto, uma secretária entulhada de papéis esbarra num policial ao soar dos telefones e em meio à multidão. Noutro, caminha curioso um jovem com caderno e lápis na mão. Floriano, ainda tremendo, encara-o de longe.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-3313312886913091245?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/3313312886913091245/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=3313312886913091245&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/3313312886913091245'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/3313312886913091245'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/12/desenhos-caricaturas-e-desventuras-de.html' title='desenhos e caricaturas: desventuras de um desenhista de retrato-falado'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-387291814187370905</id><published>2007-10-20T10:55:00.001-07:00</published><updated>2011-12-04T19:44:42.873-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='R.-F.'/><title type='text'>Sobre a injustiça, Deus, a ciência e o amor</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Para um ateu, a única forma de estar próximo de Deus&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;É sabido que todo ser humano sofre de uma só tristeza. Ela tende a se esconder, mas sempre a máscara cai e ela se mostra, num choro ou, até, num sorriso. Essa tristeza é a das injustiças, e todas as outras são filhas dela. Ora, e porque não haveria de ser? É uma lógica simples: quando nos tiram alguém do mundo, é injusto; quando não atingimos a um objetivo, é injusto; quando qualquer coisa de ruim nos acontece, é injusto. E, se pensarmos bem, a alegria vive em função da injustiça: um pão que comemos é aquele que outro não comeu; a vaga do concurso que tomamos, é aquela que de outro foi tirada. O Mundo gira, movido pela corrupção e ganância, em torno da injustiça. Mas é como se ele fosse uma charrete velha puxada por um jumento ainda mais caduco: qualquer dia a charrete quebra, qualquer dia, o jumento morre.&lt;br /&gt;Este conto é sobre alegria e, portanto, sobre injustiça, ganância e a charrete, que é o Mundo. Na verdade, é sobre parte do Mundo, mas não faz diferença alguma, pois o Mundo é infinito e, neste caso, a parte do todo é o próprio todo. O Mundo, assim como todas as outras infinitas coisas, é feito de vários Mundos infinitos.&lt;br /&gt;Porque a enrolação é grande e o espaço é pouco, terei de começar o conto agora, pois, se delongar pouco mais, serei obrigado a dar a partida do meio, o que prejudicaria bastante o entendimento da maioria (não digo de todos, porque eu me incluo neste grupo. E eu entenderia, afinal, é meu, o conto). Comecemos, então, do começo:&lt;br /&gt;No tempo em que Deus padecia no seu Trono e ascendia, quase soberana, a Ciência, sentada numa Poltrona acolchoada e que tinha até caixas de som e porta-copos, algo de muito estranho acontecia na cidade do Recife.&lt;br /&gt;O estouro de um poste de luz na rua Misael Montenegro anunciou o final dos tempos da energia elétrica. Este fato fez com que a Terra fizesse um caminho inverso/reverso, que projetou toda a humanidade para um tempo que lembrava os tempos remotos, lá pelas tantas do século dezessete.&lt;br /&gt;- Ora, mas não era um conto alegre? - Pois, e não é? Criando esse parágrafo anterior, transportei a humanidade atual e seus valores para um cenário muito mais interessante, mais, até, digo, idílico, pois, com a falta de energia, a vida tornou-se campestre e bela. Valei-me desse recurso por três motivos básicos: desfrutarei duma sociedade atordoada e, portanto, interessante; terei, como já disse, um cenário completamente diferente, onde escombros de fábricas e plantações de milho se confrontam, quase que se engolindo; e, por último, o que eu acho mais genial e precioso, que é o fato de eu não precisar fazer pesquisas históricas ou consultas literárias, pois esse povo desnorteado e anacrônico é o meu povo, sou eu.&lt;br /&gt;A respeito do cenário, nada mais vai ser falado, não por já ter sido citado antes, mas por pura falta de paciência mesmo. Portanto, vão sabendo logo que, quando os meus personagens ainda não apresentados se encontrarem, estarão, ou num prédio destruído, ou numa plantação de algo (provavelmente de cana-de-açúcar). Mas nunca num rio, pois não muito tempo se passou e estes ainda estão poluídos.&lt;br /&gt;Ana: negação, palíndromo, e que, com uma simples troca de letras, pode voar. Ana é uma personagem principal mulher. A minha primeira. Não quero demonstrar o meu bem-querer por ela assim, descaradamente, mas é impossível. O que ela faz? Não sei bem: se desvendar ainda mais sua vida, desencanto-me, e isso não é coisa que se faça a personagem alguma.&lt;br /&gt;Sentado estava eu num banco, à sombra de uma árvore, e olhando o mar quando ela chegou. Sentou do meu lado. O disco solar, como que numa divina providência, se fez sobre ela em questões de segundos (talvez não tivessem sido segundos, talvez tivessem sido horas e eu não percebi). Aconteceu que seu cabelo alourou ainda mais, sua pele dourou e seus olhos brilharam. Queria aquela imagem para sempre, se o que aconteceu logo após não tivesse acontecido: para fugir da luz, Ana se arrastou ao longo do banco para junto de mim, de modo que, antes que eu percebesse, nossas pernas se colavam. Me doeu o peito (cabeça, mãos e todas as outras partes do corpo).&lt;br /&gt;- Como é ser assim? - perguntei-lhe.&lt;br /&gt;Sua resposta veio no rosa das bochechas. E só.&lt;br /&gt;Neste momento, o que deve passar na cabeça de vocês é se não seria eu o personagem principal da história, e não Ana. Na verdade, não. Na verdade, nem era eu sentado ali no banco, tanto é que, primeiro, eu não teria coragem de falar o que falei a pessoa alguma e, segundo, esse lugar onde eles estão não existe e ela não existe, e, se existem, a pessoa que a falaria essas coisas seria Aramis. Aramis, porque é nome de mosqueteiro e muito mais bonito do que o meu. Aramis, que continua o diálogo por mim.&lt;br /&gt;- Nosso encontro foi orquestrado pelas forças do Universo. As forças do Acaso e do Improvável. Aquelas forças que tendem a juntar um homem e uma mulher. Observa-se dois casos diferentes de ajuntamento: ou dos que são espelhos um do outro, ou dos que são rigorosamente diferentes.&lt;br /&gt;- Você acredita nessas coincidências românticas? Eu acho muito mais belo o contra-tudo-e-todos.&lt;br /&gt;- Tanto acredito, que já sei que somos o segundo caso.&lt;br /&gt;A minha vontade, admito, é de terminar, agora, o conto, mas seria injusto para com os que estão gostando de lê-lo (não suponho que muitos). O problema é que seria o único modo de terminar alegremente esta tentativa de história (pois está mais para um depósito-de-pensamentos-aleatórios do que para uma história). Então, quebro o pacto (que não foi verdadeiramente um pacto, mas duas passagens que podem até ter passado despercebidas pela maioria) feito no início do texto a respeito de escrever um conto feliz e parto para um novo rumo para terminar a história. Afinal, se eu me esforcei tanto para começá-la do início, por que não haveria de terminá-la no fim?&lt;br /&gt;E o fim é este: brusco (para tentar evitar a dor) e doloroso (pois, para Ana, passou em câmera lenta, e não bruscamente):&lt;br /&gt;Acabou que o eletricista finalmente consertou o poste e, quem diria?, justo na hora do beijo!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-387291814187370905?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/387291814187370905/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=387291814187370905&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/387291814187370905'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/387291814187370905'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/10/conto-ou-depsito-de-pensamentos.html' title='Sobre a injustiça, Deus, a ciência e o amor'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-2105721056517580652</id><published>2007-09-26T16:16:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:45:12.001-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='R.-F.'/><title type='text'>Ciclo infindável</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Em loop&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;"A vida é um ciclo infindável do qual todos nós fazemos parte. Mas não é aquele que você acha que é, aquele em que transferimos nossos pensamentos e descobertas através das décadas. É um ciclo em volta de nós mesmos. Basta saber que todos os tempos estão acontecendo agora mesmo e já aconteceram infinitas vezes, desde o princípio dos tempos (que na realidade não existiu e o cito apenas para ilustração). O que eu quero dizer-lhe é que a sua vida, a minha, a de César, a de Rousseau e a de todas as outras pessoas do Universo estão acontecendo nesse exato momento e que uma espécie de cordão da vida nos puxa, de modo que não temos controle algum sobre nosso próprio destino, pois ele nos leva sempre ao mesmo fim do filme, que é, na verdade, o começo desse próprio filme: a nossa vida. Isso, como você pode perceber, explica os &lt;span style="font-style: italic;"&gt;déjà vus&lt;/span&gt; e 'a luz no fim do túnel', que é a luz que se diz que se vê quando morre, e, de fato, se vê, pois ela é, nada-mais-nada-menos, a luz do Mundo, que se vê quando se sai da barriga da mãe. Portanto, já vivesse este momento de agora, este em que eu, inutilmente, falo sobre o seu próprio destino, que tem como ponto de chegada/partida o instante do seu nascimento, da sua morte e de todos os outros infinitos fatos fastidiosos e felizes de sua vida. E está vivendo-o agora mesmo, e viverá futuramente, esteja certo, pois a vida não é nada mais que um ciclo ao nosso redor".&lt;br /&gt;Isso foi o que o meu professor de Ciências da sétima série tentou enfiar na minha cabeça e dos meus colegas. Confusos e com falta de argumentos contra esta teoria, que era "a absoluta" e mais aceitável do nosso tempo (aquele que, segundo o meu professor, repetia-se infinitamente), ficamos calados. A maioria aceitou. Eu, não, mas também não "desaceitei".&lt;br /&gt;E, a partir daí, foi-se andando a minha vida (segundo o meu professor, puxada por esse estranho e invisível cordão).&lt;br /&gt;Na minha época mais impressionável, naquela em que eu acreditei nisso tudo, eu saia pela rua e via o Mundo como uma película velha, que reprisava, como reprisam os clássicos na tevê todos os anos.&lt;br /&gt;Já na época mais radical, eu não fazia nada que eu quisesse, pois pensava, assim, estar burlando o "sistema" que me tinha sido imposto, um sistema despótico, que não nos dava escolha. Mas sempre existiam aqueles lapsos, aqueles em que eu pensava que fazer-o-que-eu-não-queria era, exatamente, fazer o que eu tinha feito nas minhas vidas passadas e repetir o que os meus antigos (e futuros?) "eus" haviam feito.&lt;br /&gt;Num dado momento da minha jornada pelas dúvidas da essência humana, meditei. Passei dias sem comer, sentado, recluso, pensando se "não vivendo", apenas meditando, eu conseguiria burlar o sistema, ou, quem sabe, descobrir que ele não existia, na verdade. Um torpor me atingiu, uma vertigem me abalou e um estalo que vinha de dentro da minha cabeça me fez cair num lugar desconhecido. Era um branco impecável, não havia nada. Era um lugar só meu, aonde eu achei a falha na chamada "Lei do Universo". Naquele branco, eu escreveria as minhas memórias e ninguém as leria, mas causaria uma Revolução tão grande que influenciaria todas as épocas, quebraria o ciclo e poria o Mundo numa ordem cronológica lógica. E foi aí que eu pensei: com que caneta? O problema logo se resolveu, como se nunca tivesse existido e, com apenas uma cajadada, matei dois coelhos. Para ver se aquilo era real, usei a minha unha para cortar-me (e doeu!) e com o meu próprio sangue, comecei a escrever a minha história no branco.&lt;br /&gt;Mas quando eu colocaria o ponto final na obra mais pessoal da História, escutei um novo estalo e acordei. Aparentemente, o meu jejum causara aquele desmaio e, conseqüentemente, o desvario onírico-literário.&lt;br /&gt;Por uns instantes, fiquei em silêncio, pensando no curso que minha vida havia tomado, a importância que eu havia dado a algo tão frívolo como o ponto final das nossas vidas e pensando no grande e redondo ponto de interrogação que eu fui, enquanto poderia ter sido um franzino, porém feliz, ponto de exclamação.&lt;br /&gt;E, porque, nesse momento, a falta de alimento pesava mais do que o questionamento à vida, dei-me por vencido e suspirei o que poderia ser o meu último suspiro. Morri.&lt;br /&gt;Vi o preto dominar-me e senti que a morte no negro fazia mais sentido do que aquela vida no alvo e, involuntariamente, comecei a desvendar todos os mistérios que haviam me afligido. E, enquanto desvendava quase todos os fatos da vida (que ela não era uma só, mas que bem que podia ser repetitiva), me vinha uma luz, mas que não me parecia a luz do Mundo e, sim, a da Razão.&lt;br /&gt;E, quando ia descobrir a verdade (ou, pelo menos, a minha verdade), a luz me pegou como um todo.&lt;br /&gt;E tudo que se pode ouvir nos próximos segundos foi um choro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-2105721056517580652?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/2105721056517580652/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=2105721056517580652&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2105721056517580652'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2105721056517580652'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/09/um-ciclo-infindvel.html' title='Ciclo infindável'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-3664007163789703125</id><published>2007-08-05T07:36:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:45:33.467-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='R.-F.'/><title type='text'>A nada interessante história de amor de Rosa e Juarez</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: left;"&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;E aos seus cookies!&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Começou às três da tarde, na casa de Rosa.&lt;br /&gt;- Um só pedaço, vá! Coma!&lt;br /&gt;- Não, eu não posso...&lt;br /&gt;- Claro que pode! Fui eu quem fiz. Agora, coma!&lt;br /&gt;- Mas...&lt;br /&gt;Mas a insistência de Rosa fez com que Juarez comesse, não um, mas cinco pedaços do seu bolo, enquanto olhava o rosto dela e enquanto cresciam bolhas vermelhas em sua bunda, devido à sua alergia a chocolate, fato que Rosa nunca descobriu.&lt;br /&gt;Daí surgiu mais um daqueles romancezinhos insossos, com namoricos no portão, cochichos entre amigos e rizadinhas que apenas aparentavam tímidas, mas que eram o contrário disto.&lt;br /&gt;Não se sabia se Rosa gostava mesmo de Juarez, mas era óbvio que ele estava apaixonado por ela. Ele estava tão encoleirado por ela, que, às vezes, quando Rosa dizia "eu te amo", jurava escutar um latido como resposta.&lt;br /&gt;Mas tem uma hora que o cão para de babar e morde.&lt;br /&gt;- O que você está escrevendo aí no papel?&lt;br /&gt;- Nada. São só umas contas.&lt;br /&gt;Juarez se aproxima.&lt;br /&gt;- Não são contas! Eu estou vendo, são palavras!&lt;br /&gt;- Não! São contas!&lt;br /&gt;- ContOs, você quer dizer.&lt;br /&gt;- Não, contas mesmo, só que são em algarismos romanos, por isso você está se confundindo.&lt;br /&gt;- Você está me traindo?&lt;br /&gt;E a briga seguiu com muitos "você não me ama mais", "não acredito que você não acredita em mim" e "eu vi o jeito que você olhou para o carteiro". E o final clássico coube a Rosa, que jogou o papel amassado no rosto de Juarez e saiu. Finalmente só, Juarez leu o que tinha no papel e constatou que, ou era muito burro, ou aquilo escrito eram, realmente e surpreendentemente, contas em algarismos romanos.&lt;br /&gt;Para casos como estes, só se tem uma saída. Um ramalhete de flores e...&lt;br /&gt;- Desculpa.&lt;br /&gt;- Não!&lt;br /&gt;- Desculpa.&lt;br /&gt;- Não!&lt;br /&gt;- Por favor!&lt;br /&gt;- Não!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;- Mas o que eu posso fazer?&lt;br /&gt;- Volte no tempo!&lt;br /&gt;Então, Juarez foi para casa e meditou durante quinze anos. E quando ele saiu para a rua, notou que não envelhecera, mas rejuvenescera.&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Estranhou, portanto, ver tudo à sua volta mais moderno do que era antes, do que se lembrava dos tempos antigos.&lt;br /&gt;Concluiu, finalmente, que estava no futuro, e não no passado, que era o que a lógica o permitia supor. Surpreendeu-se porque os carros permaneciam no chão e porque as pessoas usavam os mesmos ternos cinzentos e sem-graça de sempre.&lt;br /&gt;Voltou para casa com a cabeça ainda desarrumada e permaneceu desta forma, até se lembrar que era, na verdade, filho de Juarez e que mal podia esperar para que desse três da tarde e sua mãe entrasse no seu quarto com um pedaço de bolo.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-3664007163789703125?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/3664007163789703125/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=3664007163789703125&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/3664007163789703125'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/3664007163789703125'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/08/um-conto-sobre-relacionamento.html' title='A nada interessante história de amor de Rosa e Juarez'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-2119024353189339065</id><published>2007-07-23T09:31:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:47:22.062-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='R.-F.'/><title type='text'>Ordinário mistificado</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Com quem eu espero navegar&lt;/div&gt;&lt;div&gt;(sem naufragar)&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Quando Ernesto se deu por acordado, viu que estava em terra firme, numa pequena ilha. Olhou em volta e não viu nenhum companheiro de viagem por perto. Procurou-os por todos os cantos, mas não achou ninguém. Fez sinais de fogo na praia, gritou, chorou, esperneou. Vendo que não havia mais nada que poderia fazer, olhou o tempo passando no relógio e continuou olhando por vários dias sem piscar nenhum dos olhos. Quando a bateria acabou, cronometrou cada segundo com a própria cabeça. Contou 32 anos, 11 meses, 2 dias, 1 hora e 9 segundos até que caiu duro no chão, ainda vivo, mas um vegetal. Seus olhos, de tão desidratados, pareciam casulos de borboletas secos, sua pele foi rebaixada ao cargo de pelanca e seu cabelo se misturou de tal forma com o mato que estavam indistinguíveis entre si.&lt;br /&gt;E assim ele viveu os seus últimos dois anos de vida, deitado no chão, sonhando com conversas de prostíbulo, ônibus lotado e panelas de comida malfeita. Porque é melhor conversar com putas do que conversar consigo mesmo, é melhor pegar um ônibus cheio de gente para ir a algum lugar do que ficar sozinho e sem ter aonde ir, e é melhor o gosto do feijão queimado do que insipidez da luz.&lt;br /&gt;E assim ele morreu, na posição de anjo-de-neve, com os braços abertos e o rosto sem expressão, na beira-mar, com o corpo tão queimado pelo Sol, que ele era a maior fonte de calor daquela ilha. Até que o mar o levou.&lt;br /&gt;Quando um par de pescadores o encontrou, Ernesto era uma verdadeira colônia de animais marinhos e parecia que havia morrido há bem um século. Duas conchas selavam o seu nariz, haviam esponjas cobrindo suas costas, seu cabelo se transformou num viveiro de peixes e sua barriga, que agora tinha um profundo corte, era um depósito de ovas de tubarão.&lt;br /&gt;Os pescadores, intrigados com aquilo que julgavam ser um homem, levaram-no para sua vila. Quando chegaram, logo amontoou-se um grupo de pessoas, o que é bastante comum em povoados desinteressantes como aquele. Um dos pescadores ordenou que mandassem buscar as mais respeitadas donas-de-casa do local. Acostumadas a catar feijões e piolhos nas cabeças dos meninos, as senhoras puseram as mãos no cabelo do morto e começaram a puxar os peixes, mas, quanto mais desenroscavam-se peixes, mais deles apareciam. E isso virou uma profissão para elas, por anos catou-se peixes na cabeça de Ernesto.&lt;br /&gt;Chegaram médicos, antropólogos e outros estudiosos para tentar descobrir tudo sobre o homem, e saíram os médicos, os antropólogos e os outros estudiosos, decepcionados em saber que ele havia vivido naquela mesma década e que era um ser humano normal. Mas os moradores da vila não acreditavam que, em tão pouco tempo, se era capaz de juntar tantos peixes numa só pessoa e transformaram aquele rapaz, que só estava viajando de avião em família há pouco mais de quarenta anos, num deus.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-2119024353189339065?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/2119024353189339065/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=2119024353189339065&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2119024353189339065'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2119024353189339065'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/07/ordinrio-mistificado.html' title='Ordinário mistificado'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-5015366126351186560</id><published>2007-07-22T10:32:00.000-07:00</published><updated>2008-11-03T17:44:35.053-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Casimiro Vicente Andrada e a História retorcida do Brasil'/><title type='text'>7. O fim do relatório (ou Os círculos da História)</title><content type='html'>- Filho, você gosta dessa bola?&lt;br /&gt;- Muito, pai, é a coisa que eu mais gosto!&lt;br /&gt;- Mais do que seu pai?&lt;br /&gt;- Não, né?&lt;br /&gt;- Então, eu sou seu herói?&lt;br /&gt;- É!&lt;br /&gt;- Quer ver uma coisa bonita? Chuta essa bola aí no rio, que seu herói vai pegar.&lt;br /&gt;E eu chutei bem forte para o rio Capibaribe. E ele disse que não ia pegar, que era para eu aprender a não confiar em ninguém.&lt;br /&gt;Minha vida é a menos interessante da minha família. Os meus antepassados viviam soltos como bichos-do-mato, enquanto eu vivia preso na coleira de ordens do meu pai. O único fato importante que vivenciei foi o maldito presságio, que marcou minha morte e que, quem sabe, marcará a vida de muita gente.&lt;br /&gt;A partir daquele dia, como já disse, comecei a escrever este relatório, que termino em algumas linhas, e descobri uma outra História, num mundo paralelo, numa mesma Geografia. O mundo que eu descobri é o terceiro lado da História, o lado de quem não ganha nada, nem necessariamente perde, pois ainda tem os ideais. É a repetição de fatos que já ocorreram e é o que o genial Márquez tenta explicar na sua principal obra: que tudo se repete, até que os "cem anos" se completem e tudo aquilo que já ocorreu, não ocorrerá nunca mais. E é o que Marx tenta explicar em seu ensaio sobre o 18 de Brumário de Luís Bonaparte citando Hegel: "todos os fatos e personagens de grande importância na história do Mundo ocorrem, por assim dizer, duas vezes"; e acrescenta: "a primeira vez como tragédia, a segunda como farsa". Mas é nesse único ponto que eu discordo do santo gênio Marx, porque acredito que "o Brasil já foi esculachado tantas vezes e de tantas formas diferentes, que todas as 'segundas vezes' vão ser as do povo, as do terceiro lado". Apesar do fracasso das revoluções da minha família, fomos, sempre, a segunda vez e, sempre, o terceiro lado.&lt;br /&gt;Agora, liderarei uma revolução que sei que será apagada da História Oficial. Por isso, clandestinamente, deixo aqui, na Biblioteca Popular, o meu relatório, onde consta os mais belos movimentos populares da "História Retorcida do Brasil" e espero que alguém, um dia, procurando mais do que História cuspida, ache-o e faça o mesmo que eu farei agora.&lt;br /&gt;&lt;div&gt; &lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Fim&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-5015366126351186560?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/5015366126351186560/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=5015366126351186560&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/5015366126351186560'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/5015366126351186560'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/07/7-o-fim-do-relatrio-ou-os-crculos-da_22.html' title='7. O fim do relatório (ou Os círculos da História)'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-7043463563652149336</id><published>2007-07-20T09:26:00.000-07:00</published><updated>2008-11-03T17:39:27.976-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Casimiro Vicente Andrada e a História retorcida do Brasil'/><title type='text'>6. Redemocratização (ou A menina, a moça, a velha parda do Povo brasileiro)</title><content type='html'>Caterina, nascida do ano de 1967, era a menina parda. Dos Cavalcante, mas com o nome dos Vicente. Tinha sangue de preto e de branco, mas a cor era de índio. Seu ensino fundamental foi todo na época do Regime Militar. Seu conhecimento histórico seria todo defasado, se ela não tivesse lido o diário de seu pai.&lt;br /&gt;No final da década de setenta, quando estava com cerca de dez anos, começou a sentir algo estranho: sentiu que faltava gente nas ruas do Brasil. Então, fez força para que as pessoas voltassem. Os presos políticos e exilados começaram a ser anistiados, entre eles, o líder político Miguel Arraes, o mito, também chamado de "Pai Arraia". Um fato curioso é que, no interior, haviam pessoas que colocavam o seu "santinho" de campanha em cima de um copo de água dormindo uma noite e, depois, dava para um doente beber. Voltando a mamãe, por uns cinco, sete anos, ela continuou fazendo força e quando chegou em 1983, percebeu que estava dez anos mais velha do que deveria estar, era uma moça, a moça parda. Por fora, tinha mais de vinte anos, mas, por dentro, ainda era inocente e, por causa disso, acabou caindo na lábia do meu pai, Péricles Andrada e casou-se com ele. Juntos, tiveram um filho, em 1984, Casimiro Vicente Andrada, eu.&lt;br /&gt;Só que, quando se tem um filho, perde-se toda a inocência, pois toda ela é transmitida, através dos genes, para a criança. Foi no momento em que eu saí dela, ensangüentado e chorando que ela viu que eu, naquele momento, era a mais bela e perfeita representação do que o povo brasileiro estava passando. Ela se sentiu a mãe do Brasil.&lt;br /&gt;Quando eu tinha seis meses, ela saiu de casa sem levar nada, mas, com o tempo, ela estava levando uma legião de seguidores à Brasília, eram tantas pessoas, que superavam de longe o número de manifestantes da campanha pelas Diretas Já!. No seu discurso, ela enfatizava que as Diretas eram necessárias, mas que não era apenas isso que mudaria a estrutura da sociedade brasileira. Citou os exemplos da proclamação da Independência e da República e mostrou às pessoas que poucas tinham sido as vitórias do Povo.&lt;br /&gt;No dia primeiro de janeiro de 1985, ela organizou um comício monumental aos pés do congresso, onde milhões de brasileiros de todos os estados compareceram. Empoeirado, na Biblioteca Popular do Recife, achei o único folheto que guarda o discurso que mamãe fez naquele dia. A cada palavra que ela falava, envelhecia mais ainda, carregando o peso do Mundo. Envelheceu tanto, ao ponto de estar com, aparentemente, noventa anos quando falaria a última palavra do seu pronunciamento e da sua vida:&lt;br /&gt;"... existe mais na História do que revelam. Existe o Povo participando ativamente, existe o Povo pedindo por mais, mas a sua luta é sempre sufocada pela união dos ricos. Que mudanças nos trouxe a Proclamação Independência? Brigamos por ela, mas o que ganhamos? Que mudanças trouxe a Proclamação da República? Preciso responder? De toda forma, é fácil olhar para trás e ver que poucos foram os que nos ajudaram, mas, percebam: agora, vamos olhar para frente, porque esse é o tipo de memória que queremos ter: aquela que vem à nossa frente, aquela que nós faremos. Honraremos os nossos antepassados e concretizaremos seu sonho, que era nada mais que um país justo. É necessária a..."&lt;br /&gt;Mudança. É isso que mamãe falaria, mas soou um tiro e, quando se viu, Caterina estava no chão, morta. Não se sabe se ela morreu por causa do tiro ou por causa da velhice precoce, também não se sabe de onde veio o tiro, haviam milhões de pessoas. Mas é óbvio que o atentado foi muito conveniente, pois, duas semanas depois, estava sendo eleito o moderado Tancredo Neves à presidência da República com o apoio, até, das forças aliadas à Ditadura. Assim como mamãe previu.&lt;br /&gt;Não sei se foi pela conturbação do momento histórico, ou porque aquilo tudo de envelhecer antes do tempo parecia tão surreal, mas as pessoas acabaram se esquecendo da velha parda do Povo brasileiro.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-7043463563652149336?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/7043463563652149336/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=7043463563652149336&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7043463563652149336'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/7043463563652149336'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/07/6-redemocratizao-ou-menina-moa-velha.html' title='6. Redemocratização (ou A menina, a moça, a velha parda do Povo brasileiro)'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-2338817131275901162</id><published>2007-07-19T08:39:00.000-07:00</published><updated>2008-11-03T17:29:57.298-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Casimiro Vicente Andrada e a História retorcida do Brasil'/><title type='text'>5. 1968 (ou Os cem mil)</title><content type='html'>Centenas de admiradores do grupo de Costa de Fogo foram, no outro dia, visitar o local do trágico acontecimento. Dois deles, um casal, Isidoro e Zulmira (sem sobrenomes), encontraram o bebê num buraco de dois metros de profundidade molhado de sangue. Logo reconheceram ser o filho de Cardim Cavalcante, a mulher primeira de Costa de Fogo, pois ele estava enrolado numa bolsa de couro enfeitada de estrelas. Botaram-lhe o nome Costa, mas sempre o chamaram "Costinha", inclusive, registraram-no, posteriormente, com o nome "Costinha".&lt;br /&gt;Após nove anos de peregrinação procurando a família de Costinha, Isidoro e Zulmira acharam sua bisavó, Selma, na cidade do Recife, mais que centenária e morando num casebre no centro da cidade.&lt;br /&gt;A matriarca abençoou o menino mesmo a contragosto dos tutores, que eram anti-católicos, e deu permissão para que fosse posto o sobrenome da família. Fez as contas na sua cabeça meio enferrujada e percebeu que a idade do menino batia com a época em que Cardim estava no convento, juntou os fatos e concluiu o óbvio. Isidoro incitou o menino a abraçar a animada bisavó. Logo depois que o fez, ela morreu. Isso atormentou vovô por toda a sua vida, tanto é que este fato foi citado no último texto do seu diário, que eu achei entre as coisas de mamãe.&lt;br /&gt;Costinha Cavalcante ficou morando na casa de Selma junto com Isidoro e Zulmira. Sua timidez e seu silêncio levaram os pais adotivos a pensar que ele tinha problemas mentais, até descobrirem o seu talento para a escrita e sua fome por livros. Costinha leu todos os escritos de Karl Marx e dos teóricos comunistas. No ano de 1948, teve a mesma visagem que teve seu bisavô Cícero, pensou que o Brasil podia adotar uma política Socialista só dele, para o povo brasileiro, respeitando a cultura e dando atenção a seus focos principais. Então, não se enterrou mais, como fez quando tinha um ano de idade, e nem se fez homem de atitude, virou somente um rapaz que escrevia. Isso até o fatídico ano de 1968, quando viu que não tinha mais o que escrever e tinha mais o que fazer.&lt;br /&gt;1968 é o ano mais inexplicável do século XX, mais do que quando os homens, abençoados por Santos, começaram a voar; mais do que quando duas rosas gigantes invadiram o Japão e, estranhamente, causaram pânico, e não comoção, que é o sentimento que se tem quando se vê uma rosa; mais inexplicável do que o povo que vive no meio do Mundo, que não come, mas sobrevive mesmo assim e que pede ajuda ao resto do Mundo, mas este não ajuda. O ano de 1968 foi uma completa desorganização, porque, no final de 1967, morreu um dos maiores zeladores do Planeta: "San Ernesto de La Higuera".&lt;br /&gt;Com o Brasil em plena Ditadura Militar, Costinha decidiu que tinha que se mexer e ajudar, mas acabou que seu desajeitamento e sua péssima estratégia de guerra levaram o Brasil aos seus piores anos do século XX (ou não).&lt;br /&gt;Costinha complicou tudo, juntou a ANL do seu tempo de menino com a ALN, de 1967, viu a idéia Comunista crescer no Mundo com a Revolução Cubana de 1959 e com a força da URSS, viu o forte ideal de esquerda da juventude brasileira e viu que o povo lutava também por educação, assim como na época da sua mãe. Fez uma salada só de frutas vermelhas.&lt;br /&gt;No dia em que Dolores Motta percebeu que corria perigo com as idéias do marido, tentou fugir com a filha de sete meses, Caterina Cavalcante, minha mãe. Mas Costinha descobriu e foi atrás dela. Se encontraram no centro do Recife, onde ele pegou a menina nos braços, levantou-a e gritou:&lt;br /&gt;- Esse é o símbolo do Brasil, a menina parda, vermelha da mistura das cores do povo...&lt;br /&gt;E ela era, de fato, vermelha de índio, mas não tinha nenhum antepassado dessa cor.&lt;br /&gt;- ... e a minha mulher está com medo de que o governo leve a cor do Brasil, mas aí o povo se rebela! Está com tanto medo? Pronto! O nome da menina agora vai ser Caterina Vicente, igual àqueles Vicente direitistas do interior. Aí está, ela não corre mais perigo. Registre-a, já que a gente ainda não o fez!&lt;br /&gt;A multidão aplaudia o ato, seus olhos se ofuscaram. Olhou em volta. Havia cem mil. E estes cem mil iriam com ele a qualquer lugar. Trancou-se em casa, planejou tudo, iria concretizar aquilo que seus parentes não fizeram: iria transformar o Brasil em uma República Socialista. Organizou uma passeata, a maior de todas. Uma passeata que cruzou o Brasil, protestando, pedindo uma melhor qualidade de vida e dizendo viva à Revolução.&lt;br /&gt;O que era para ser um passeata pacífica, se transformou num exército, porque seus integrantes se viram obrigados a participar de oito guerras, uma em cada estado em que estiveram, e perderam todas, assim como o Coronel Aureliano Buendía em sua cruzada Colombiana. Mas resistiram vivos, os cem mil, até chegarem no nono estado, o Rio de Janeiro, onde tiveram seu fim numa dura repressão, que, pela violência, não deu tempo nem de ser uma guerra.&lt;br /&gt;Ou, quem sabe, tudo isso não passou de uma desventura quixotesca, minuciosamente (e até demais) detalhada no diário do meu avô, e misturada e complicada com as coisas que ocorreram naquele ano. No seu último dia de vida, escreveu. Transcrevo aqui o último parágrafo de sua vida:&lt;br /&gt;"... porque depois que abracei vovó, pensei que a tinha matado, pensei que não traria nada de bom para o Mundo, isolei-me, até aquele dia em que disse coisas bonitas e todos aplaudiram. Mas, hoje, vi que que bonitas são só as minhas intenções, quis ser um líder, quando sabia que num Comunismo real, não existem líderes, existe um todo. Além disso, fui péssimo organizador. Morro hoje e, é claro, com a sensação que passei uma boa mensagem para sociedade, mas vou-me com o peso de cem mil pessoas nas costas."&lt;br /&gt;Verdade, ou não, aquilo que vovô escreveu, foi decretado, em dezembro daquele ano, por Costa e Silva, o AI-5, o mais cruel de todos os Atos Institucionais da Ditadura, fechando o Congresso Nacional, suspendendo direitos políticos, intensificando a censura, entre outras coisas. Logo após decretá-lo, Costa e Silva morreu de derrame cerebral, mas isso não impediu que o ano de 1969 chegasse para concretizar tudo aquilo que vinha sendo o Regime Militar: um belo de um boquete.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-2338817131275901162?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/2338817131275901162/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=2338817131275901162&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2338817131275901162'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2338817131275901162'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/07/5-1968-ou-os-cem-mil.html' title='5. 1968 (ou Os cem mil)'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-4640881243431474962</id><published>2007-07-17T16:54:00.000-07:00</published><updated>2007-10-16T18:06:04.719-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Casimiro Vicente Andrada e a História retorcida do Brasil'/><title type='text'>4. Coluna Prestes (ou O choque do Cangaço)</title><content type='html'>Mulata, Cardim Cavalcante, minha bisavó, nasceu no ano da pseudo-harmonia racial brasileira. O ano em que "os negros não tinham mais nada do reclamar, pois eram livres". E Pedro nem se deu ao trabalho de participar da farsa, saiu de fininho para não assinar o Lei Áurea.&lt;br /&gt;Selma, com medo de que Cardim seguisse os passos lindos, mas arriscados, da subversão (digo subversão no mais belo e revolucionário sentido da palavra), mandou-a para um convento, do qual ela saiu em 1925, pelo motivo que Selma só iria saber dez anos depois.&lt;br /&gt;Cardim vagou por Pernambuco até chegar nas portas do Sertão, Arcoverde, e entrou num grupo de cangaceiros meio esquerdistas (pois a esquerda é uma das sinas da minha família, uma boa sina).&lt;br /&gt;Nesse mesmo ano, a Coluna Prestes saía. Ao contrário do que dizem por aí os livros de História, "A Coluna" era um movimento esquerdista, e não elitista. Além do quê, tinha um grande homem à sua frente, comunista desde que nasceu: Luis Carlos Prestes, o Cavaleiro da Esperança; segundo São Jorge (Amado).&lt;br /&gt;No ano de 1926 houveram duas convocações para a guerra, uma oficial e uma extra-oficial.&lt;br /&gt;Oficialmente, a Coluna pedia a ajuda do povo nordestino, mais precisamente, a ajuda do grupo de cangaceiros do qual minha bisavó fazia parte, liderado por Costa de Fogo.&lt;br /&gt;Extra-oficialmente, o Governo do Brasil pedia ao grupo de Lampião para que impedisse a Coluna.&lt;br /&gt;De um lado, tinha-se o religioso, mas pecador, Lampião, do outro, tinha-se Costa, anti-católico e puro (se comparado ao carniceiro Lampião). Os grupos se encontraram nesse mesmo ano, na cidade de Juazeiro do Norte, no Sertão dos Cariris, Ceará.&lt;br /&gt;A partir daqui, eu posso reproduzir todos os diálogos com precisão, porque foram documentados pelo célebre lítero-jornalista Bento Abelardo, que acompanhava o grupo de Lampião naquele ano de 1926 (dez anos antes daquele estrangeirado Benjamim Abraão fazê-lo).&lt;br /&gt;- Até tu, Lampião, não gosta do povo?!&lt;br /&gt;- Fogo, o povo não tem nada com isso!&lt;br /&gt;- Claro que tem. Ah, e, gostei do olho novo!&lt;br /&gt;- Do cego? É coisa de macho, de bicho!&lt;br /&gt;- Soube que foi espinho, coisa de mulher!&lt;br /&gt;- Pois saiba que foi um tiro e que nem senti!&lt;br /&gt;- Mentira! c'um tapa tu não fica em pé!&lt;br /&gt;- Cabra! Se não quer morrer, sai daqui!&lt;br /&gt;E o tiroteio mal começou, acabou. O grupo de Costa foi dizimado e nenhum homem de Lampião saiu ferido. Lampião, cheio de si, saiu de Juazeiro gritando e tomando um porre:&lt;br /&gt;- Um já foi, falta aquela mulherzinha do Sul! Vai morrer também!&lt;br /&gt;Por sorte, o massacre não foi total. Debaixo da terra-pó, da terra-barro do Sertão, enterrado que nem cobra, sobrou o menino de um ano de idade que minha bisavó carregava por aí numa espécie de bolsa, tal qual índio: seu filho (meu avô); filho, também daquele padre estuprador, Manuel Rosa, do convento em que ela vivia.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-4640881243431474962?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/4640881243431474962/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=4640881243431474962&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/4640881243431474962'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/4640881243431474962'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/07/coluna-prestes-ou-o-choque-do-cangao.html' title='4. Coluna Prestes (ou O choque do Cangaço)'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-1152908217127749523</id><published>2007-07-15T16:37:00.001-07:00</published><updated>2007-08-06T13:17:15.450-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Casimiro Vicente Andrada e a História retorcida do Brasil'/><title type='text'>3. Proclamação República (ou Traição da República)</title><content type='html'>Carlos Cavalcante, meu trisavô, cresceu ouvindo a história do pai, Cícero Cavalcante, e jurou Pedro II de morte. Foi ele quem começou com o hábito de não chamar Pedro pelo título "Dom" (Dom Pedro) e foi algo hereditário porque, desde antes de eu saber sobre a minha família, eu chamava esse reizinho, simplesmente, de Pedro, porque, para ter título, tem que ter honra. Via a cara deslavada dele nos meus livros e cuspia no chão desdenhoso.&lt;br /&gt;Tudo que era contra o rei e o sistema, Carlos fazia. Andava dias até a Zona-da-Mata só para queimar plantações de cana-de-açúcar, gritava viva à Revolução no centro da cidade e roubava as vendas. Para fugir, ele corria, pulava no rio, se enterrava no chão, chegou até a voar algumas vezes, mas só quando o perigo era grande mesmo.&lt;br /&gt;Aconteceu que, em fevereiro de 1888, não sei se por amor ou só pelo simples prazer de contrariar as normas, ele fugiu com uma escrava. Durante dois dias, fizeram sexo enterrados na areia, até que foram encontrados por capangas do dono da escrava. Ele se enterrou mais ainda, só que ela não conseguiu se salvar e foi pega. O que aconteceu com ela foi o que acontecia de praxe: chicotada.&lt;br /&gt;No mesmo ano, dois meses após promulgada a Lei Áurea, chegou a escrava na casa dele, grávida de cinco meses. Eles, Carlos e sua mãe, Selma, chamavam-na Lelê, pois não entendiam o seu nome. Na verdade, não entendiam nada que ela falava. Lelê tinha sido traficada ilicitamente e estava no Brasil há pouco tempo. Ela morreu após o parto de Cardim Cavalcante, minha bisavó, em 1888.&lt;br /&gt;O Brasil entrou no ano de 1889 cheirando à República. Carlos era o que sentia mais esse cheiro. Planejou tudo o que ia fazer, pegou suprimentos, deixou Selma tomando conta de Cardim e partiu para o Rio de Janeiro. Lá, ia proclamar a República com a mão direita e a Revolução com a mão esquerda. Foi só.&lt;br /&gt;Ao contrário do que as pessoas pensam e do que a História diz, a Proclamação da República foi o episódio mais sangrento do século XIX.&lt;br /&gt;Um homem que corria na velocidade do primeiro trem do Brasil (que não foi implantado por Pedro II e, sim, pelo Barão de Mauá em 1854, porque nem para implantar trens o nosso antigo monarca prestava), se enterrava no chão que nem tatu e voava às vezes chegou no Rio de Janeiro em 13 de novembro daquele mesmo ano fazendo essas mágicas e xingando o rei de todos os nomes possíveis e imagináveis, chamando-o para a briga. Deu dois dias daquele espetáculo e um exército foi formado para proteger o rei. Só que a raiva que Carlos tinha de Pedro era tanta, que um exércitozinho não foi suficiente, ele matou metade deles e estava pronto para mais. Os sobreviventes se renderam e prometeram entregar o rei a Carlos, para que ele pudesse matá-lo com suas próprias mãos, mas no minuto em que ele baixou a guarda, levou trezentos tiros de canhão e ainda ficou vivo um instante para mandar todos para a puta que pariu e dizer viva à Revolução.&lt;br /&gt;Os militares já planejavam um golpe contra o rei desde a década de 1870, mas Carlos apareceu repentinamente estorvando seu caminho para o poder, tinham que matá-lo. Depois disso, os militares conseguiram abafar a humilhação de ter perdido metade de um exército para "apenas um homem" e desfrutaram do tão desejado poder enquanto durou a República da Espada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-1152908217127749523?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/1152908217127749523/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=1152908217127749523&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1152908217127749523'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1152908217127749523'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/07/proclamao-repblica-ou-traio-da-repblica.html' title='3. Proclamação República (ou Traição da República)'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-1044389089963898721</id><published>2007-07-14T17:54:00.001-07:00</published><updated>2008-11-03T17:08:59.860-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Casimiro Vicente Andrada e a História retorcida do Brasil'/><title type='text'>2. Revolução Praieira (ou Transmissão de pensamento vermelho)</title><content type='html'>A história política da minha família começou por causa de uma transmissão de pensamento.&lt;br /&gt;Sou tetraneto de Cícero Cavalcante, que participou da Revolta Praieira no Recife, no final do ano de 1848.&lt;br /&gt;Não é 'aquela' Revolução Praieira, que envolve 'aqueles' Cavalcanti (tanto é que o nome do meu tetravô é Cavalcant'e'), aqueles senhores de engenho filhos-das-putas ("Ou há de ser Cavalcanti, ou há de ser cavalgado"). É outra Revolução Praieira, uma de verdade, reflexo dos pensamentos teóricos de São Marx e Santo Engels que, em fevereiro de 1848, escreveram o Manifesto do Partido Comunista, minha "Bíblia", como se pode notar. O motivo pelo qual as idéias - dos Santos, Apóstolos, seguidores do Deus "Sociedade Humana", Marx e Engels -, demoraram quase um ano para chegar aqui é porque os fuso-horários naquela época eram doidos e, em vez de serem horas de diferença, como hoje em dia, eram meses.&lt;br /&gt;No ano de 1848, os homens moradores das palafitas que ficavam onde hoje é a praia do Pina, entre eles, meu tetravô, Cícero, destruíram metade dos seus lares e usaram a madeira para fazer lanças. Eles deixaram a outra metade para as suas esposas, incluindo aí a minha tetravó, Selma Felicidade, que tomava conta do meu trisavô, então com um ano, Carlos Cavalcante, e saíram descendo o litoral até o Rio de Janeiro, capital da época, liderados pelo meu tetravô. Essa foi uma verdadeira Revolução Praieira, pois a maior parte do seu tempo se deu na praia.&lt;br /&gt;O que aconteceu foi que, telepaticamente, Cícero recebeu a tese Comunista enquanto estava ainda em elaboração. Perplexo com a genialidade da proposta, difundiu as idéias de Marx e Engels pela comunidade das palafitas. Ninguém acreditou nele, mas, quando as teses chegaram aos portos, trazidas por piratas, trataram-no como um líder.&lt;br /&gt;Estava tudo certo, Cícero já tinha adaptado o Comunismo à realidade brasileira da época, e eles saíram transformando as cidades litorâneas da Costa-do-Brasil em fazendas socialistas, varrendo-a como que numa Verdadeira "Primavera dos Povos".&lt;br /&gt;Quando eles chegaram ao Rio, se depararam com um Exército munido de canhões e armas de fogo potentíssimas, mas isso não os impediu de cravarem lanças em alguns dos soldados e gritarem sempre que acertavam o inimigo:&lt;br /&gt;- Pobres, miseráveis, escravos, proletariados! Todos os povos oprimidos! Uni-vos!&lt;br /&gt;Com medo de que o ideal da revolta do meu tetravô se espalhasse, o reizinho de merda, Pedro II, deu uma mídia estrondosa àquela falsa Revolução Praieira (dos Cavalcanti, da Rua da Praia, do Manifesto ao Mundo e de todas aquelas baboseiras liberais), porque ele preferia liberais à comunistas. Tanta foi a mídia que ninguém além do povo das palafitas do Recife e das fazendas comunistas (que foram destruídas naquele mesmo ano) se lembrou da Primeira Revolução Comunista da História do Brasil.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-1044389089963898721?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/1044389089963898721/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=1044389089963898721&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1044389089963898721'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1044389089963898721'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/07/revoluo-praieira-ou-transmisso-de.html' title='2. Revolução Praieira (ou Transmissão de pensamento vermelho)'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-3945526326641661372</id><published>2007-07-13T16:22:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:48:59.714-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Casimiro Vicente Andrada e a História retorcida do Brasil'/><title type='text'>1. Introdução (ou Vida e Morte)</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Por favor, não leia nada que eu escrevi nessa época&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Eu sou Casimiro Vicente Andrada e faço Ciências Políticas na Universidade do Recife. Sou órfão de mãe e me considero órfão de pai também. Meu pai é um direitista nojento que tenta pôr coisas na minha cabeça. Ainda bem que, desde que eu entrei na Universidade, eu aprendi a ter uma visão mais aberta. Não sou escritor, esse relatório é o reflexo de quase um ano de intensa leitura sobre o tema que eu mais gosto: eu mesmo. Comecei a escrevê-lo para completar a minha vida, que está chegando ao fim.&lt;br /&gt;No início de 2006, eu tive um presságio no meio da minha aula de Sociologia. Descobri que dentro de um ano, eu ia morrer. Desesperei-me!, saí correndo da sala. Eu estava muito certo disto, foi muito real o que eu vi. Na verdade, eu não vi como ia morrer, só que ia morrer. Só podia fazer uma coisa sobre isso: aproveitar.&lt;br /&gt;Transei e bebi loucamente, só não usei drogas pesadas nesse mesmo dia porque, ainda à tarde, eu já estava caído no chão. Passei essa noite no hospital. Vi que a única forma de ficar em paz comigo mesmo não era me embebedar, era pesquisar sobre as minhas origens, sobre quem eu sou, já que o meu pai, aquele escroto, me escondia tudo. Reneguei a família dele e fui pesquisar sobre a única que me interessava, pois dela eu não sabia nada: a da minha mãe.&lt;br /&gt;Fui à Biblioteca Municipal, à Biblioteca Popular, ao Instituto Histórico Pernambucano, pesquisei parentes através da internet, andei como um louco nos cantos históricos do Recife e visitei várias cidades de Pernambuco. Finalmente, achei a as histórias de uma estirpe direta que ia desde um tetravô, passando por um trisavô, por uma bisavó, por um avô, pela minha mãe e chegando, finalmente, em mim. As suas histórias são repletas de política e guerra, num Mundo paralelo ao que vivo, com Revoluções das quais eu nunca tinha ouvido falar, mas que têm o mesmo nome daquelas que aconteceram no mesmo ano ou têm relações diretas com elas (vocês, óbvio, não estão entendendo, mas vão). Estranhíssimo, mas não tão estranho quando a bizarra numerologia das suas datas de Vida e Morte. Todos eles morreram em suas Revoluções e todos tiveram um filho um ano antes delas. Isso me levou a uma conclusão que me doeu o peito: eu estava certo sobre a minha data de morte, só que eu não tinha um filho. Foi aí que eu me lembrei do sexo tresloucado de janeiro daquele ano de 2006 e conclui: cavei o meu próprio túmulo.&lt;br /&gt;E, ainda, neste ano de 2007, teremos uma Revolução que será apagada da História Oficial.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-3945526326641661372?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/3945526326641661372/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=3945526326641661372&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/3945526326641661372'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/3945526326641661372'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/07/1-introduo-ou-vida-e-morte.html' title='1. Introdução (ou Vida e Morte)'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-8445258183407814505</id><published>2007-07-13T16:11:00.000-07:00</published><updated>2007-08-06T13:17:15.451-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Casimiro Vicente Andrada e a História retorcida do Brasil'/><title type='text'>Casimiro Vicente Andrada e a história retorcida do Brasil</title><content type='html'>É uma história dividida pelas gerações da família Cavalcante e alguns dos mais importantes fatos da História do Brasil. É dividida em 7 partes.&lt;br /&gt;Quem narra é Casimiro Vicente Andrada, um Cavalcante de sangue. Aqui vai a árvore genealógica de sua família:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://2.bp.blogspot.com/__GGPrtc7fOQ/RpgIdkvJDnI/AAAAAAAAABg/GbDRAVQ2MfU/s1600-h/%C3%81rvore+Geneal%C3%B3gica+dos+Cavalcante.png"&gt;&lt;img style="margin: 0px auto 10px; display: block; text-align: center; cursor: pointer;" src="http://2.bp.blogspot.com/__GGPrtc7fOQ/RpgIdkvJDnI/AAAAAAAAABg/GbDRAVQ2MfU/s400/%C3%81rvore+Geneal%C3%B3gica+dos+Cavalcante.png" alt="" id="BLOGGER_PHOTO_ID_5086825083285606002" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-8445258183407814505?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/8445258183407814505/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=8445258183407814505&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/8445258183407814505'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/8445258183407814505'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/07/casimiro-vicente-andrada-e-histria.html' title='Casimiro Vicente Andrada e a história retorcida do Brasil'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://2.bp.blogspot.com/__GGPrtc7fOQ/RpgIdkvJDnI/AAAAAAAAABg/GbDRAVQ2MfU/s72-c/%C3%81rvore+Geneal%C3%B3gica+dos+Cavalcante.png' height='72' width='72'/><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-2887084620930002294</id><published>2007-06-15T11:08:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:49:57.757-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='R.-F.'/><title type='text'>a aposta</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Eu lhe ofereço uma bola de ferro do tamanho de uma batata&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Um tiro para cima. Uma bandeira balançando.&lt;br /&gt;Percival sai do hipódromo devendo até as calças. Mas não é dessa aposta que se trata o conto.&lt;br /&gt;Panelas batendo. Colheres na mão.&lt;br /&gt;Dolores não é uma simples dona de casa, ela faz parte de um grupo de música alternativo que tira sons de instrumentos cotidianos.&lt;br /&gt;Num ferro-velho, Dolores escolhe instrumentos e vê que o som na frigideira não é tão forte quanto o numa panela funda qualquer. Nesse mesmo ferro-velho, Percival está se escondendo do agiota.&lt;br /&gt;É de se esperar um encontro romântico em meio a uma floresta metálica, os dois sozinhos, por obra do destino, enquanto o Sol se põe e as cigarras cantam o seu grito de morte. Mas eles não se apaixonaram nesse dia e nem vão se apaixonar em qualquer outro dia, em qualquer que seja a situação. Inclusive, é provável que Percival tenha pegado tétano quando recebeu (sem querer) de Dolores uma panelada na cabeça que lhe fez um corte.&lt;br /&gt;- Puta que pariu!&lt;br /&gt;Dolores vira, assustada.&lt;br /&gt;- Que foi?&lt;br /&gt;- Porra, a minha cabeça. Tá sangrando!&lt;br /&gt;- Ai, é mesmo!, deixa eu te levar pra casa.&lt;br /&gt;- Não posso, tenho que ficar aqui.&lt;br /&gt;- Por quê? Você mora aqui?&lt;br /&gt;- Não, longa história.&lt;br /&gt;Dolores devia ter deixado a conversa por aí, mas insistiu em levá-lo para casa. Ele cedeu.&lt;br /&gt;O que ela não sabia é que ele não passa de um apostador compulsivo. O que ele não sabia é que ela é obcecada por vitórias.&lt;br /&gt;- Dolores, você não sabe é de nada.&lt;br /&gt;- Como?! Você só pode estar louco? Isso não existe!&lt;br /&gt;- Aposta quanto?&lt;br /&gt;Daí surgiu "a aposta". Uma aposta que ninguém além deles tinha conhecimento, mas que, mesmo assim, foi a mais estranha que alguém já fez.&lt;br /&gt;- Tá apostado! Agora, tem como a gente escrever isso em algum canto? Que é pra mostrar pra todo mundo que eu ganhei e ninguém duvidar.&lt;br /&gt;"Balaiapê, 13 de Setembro de 2005, terça-feira. Essa aposta, que obriga o perdedor a pagar uma taxa  no valor de 5 reais - com a pena alternativa de colocar um abacaxi no cu -, tem, como fim, provar que (...). Assinar aqui."&lt;br /&gt;Os dois assinaram.&lt;br /&gt;Nesse momento, passaram na rua cinco homens vestidos com calças tão impecavelmente brancas que todos os personagens da minha história - ou seja, os dois - cegaram, emudeceram, ensurdeceram, embranqueceram e  desequilibraram. Suas calças eram tão brancas e exclamativas que ninguém leu a importante mensagem que traziam em suas camisas. Estes cinco homens nada têm a ver com a história, mas a pausa e a reflexão serviu de amadurecimento para Percival e Dolores.&lt;br /&gt;- Como fomos crianças, Dolores... 5 reais é muito pouco. Tu não é macho?&lt;br /&gt;- Sou mais macho que tu, cabra, mesmo sendo a mulher mais mulher daqui! Vamos soltar as onças pra brigar!&lt;br /&gt;- As onças (esganiçado)? Ca-ham, você quer dizer duas onças de cada, não é?&lt;br /&gt;- Ér... isso mesmo. É isso! Cenzinho.&lt;br /&gt;"Apostado", é o que os dois falaram ao mesmo tempo para selar uma nova aposta. Mudaram o tratado de 5 para 100 reais e retiram a pena alternativa - a contragosto secreto dos dois, pois ambos preferiam um abacaxi direto no reto do que 100 reais a menos, mas nenhum deles queria "afrangalhar".&lt;br /&gt;Pás nas mãos.&lt;br /&gt;Os dois desenterrando caixões no meio da noite no cemitério da cidade de Balaiapê. Percival queria provar - e, assim, ganhar a aposta - que algumas pessoas têm o coração de ferro, ou porque comeram muito feijão quando eram pequenos ou porque nasceram sem coração, então Deus teve que dar um jeitinho. Segundo ele, os corações de ferro nunca se decompunham. O cheiro fétido dos corpos em decomposição, o cansaço e a competição. Como há gente que pensa que eles poderiam, um dia, se apaixonar depois de tudo aquilo? Dolores murmurava a noite inteira "que bobagem, que bobagem", enquanto Percival roubava os anéis de ouro dos mortos mais ricos. Quando o último túmulo foi revistado, Dolores pediu o dinheiro da aposta, mas Percival, com sua retórica infalível, disse:&lt;br /&gt;- Esses não são todos os corpos mortos do Mundo.&lt;br /&gt;Então o tempo foi justo com Dolores, parou, e eles ficaram numa eterna noite revistando túmulos, lendo filosofias de epitáfios, sentindo aquele cheiro que nunca mais sairia deles e parando de vez em quando para descansar deitados na terra. E quando não houve mais corpos mortos no Mundo, Dolores pediu mais uma vez o dinheiro. E Percival, tão frio quanto da outra vez, respondeu-lhe:&lt;br /&gt;- Existem, ainda, os corpos vivos.&lt;br /&gt;O tempo, mais uma vez, foi favorável a Dolores, continuou parado. Eles saíram mundo afora estripando vivos presos pelo tempo.&lt;br /&gt;A tática de Percival foi genial, o tratado que os dois assinaram foi molhado com o sangue dos dois e, se tratando da aposta mais interessante do Mundo, ele (o Mundo) resolveu dar crédito aos dois. O tempo não estava parado por causa de Dolores e, sim, por causa da aposta, e só iria voltar a andar quando tudo fosse acertado.&lt;br /&gt;Os dois mataram toda a humanidade, exceto eles mesmos. Fria, Dolores desfere um golpe de peixeira bem em direção ao coração de Percival. Ouve-se um som metálico. Ela abre o peito dele e vê que no coração do último homem da Terra estão incrustados os milhões de anéis de ouro que ele roubou. Secamente, ela diz:&lt;br /&gt;- Isso não é ferro.&lt;br /&gt;E golpeia a si própria no peito com o facão. Ainda viva, mete a mão dentro da ferida, puxa de lá uma bola de ferro do tamanho de uma batata e morre de desgosto por ter perdido "a aposta".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-2887084620930002294?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/2887084620930002294/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=2887084620930002294&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2887084620930002294'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2887084620930002294'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/06/aposta.html' title='a aposta'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-2971921844508580180</id><published>2007-06-04T18:03:00.001-07:00</published><updated>2007-12-08T15:14:49.168-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quadrilogia'/><title type='text'>4. O fatídico fim</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: left;"&gt;O Cariri não ficava longe, estávamos indo buscar mais adeptos. Quando chegamos no Crato (uma das cidades com compõem o Cariri), vimos que a nossa aventura contra os neocangaceiros já havia virado epopéia e já estava na boca dos cantadores e nos folhetos. Não procuraríamos mais, o povo, agora, vinha a nós.&lt;br /&gt;Chegando já no Piauí, tínhamos um grupo que chegava a cerca de quinhentas pessoas. Mamãe já começara a se simpatizar com o movimento (afinal, depois do episódio anterior, ela ganhou o apelido de "Bela Amazona", e isso a envaideceu).&lt;br /&gt;Era a mais popular revolução Socialista já vista no mundo. Chegamos a mudar o nome, não éramos mais um partido, mas uma união popular, a "União Revolucionária Socialista Sertaneja" (ou URSS - nome sugerido por mim), e não seríamos despóticos, como Stálin, ou pseudo-republicanos, como Fidel, seríamos a voz do povo. Já estava certo: Criaríamos uma nação. Com as habilidades químicas de papai e a coragem de mamãe, não nos faltaria nada.&lt;br /&gt;Quando os usineiros descobriram que o líder da revolução era o meu pai "aquele bruxo que fazia até crescer uma macieira numa pedra", sentiram rancor (e medo). "Traíra, nos trocando por um bando de... pobretões".&lt;br /&gt;A partir daí, foi criada a Aliança Coronelísta (embrião do que seria, posteriormente, a UDR): as oligarquias do Sertão, do Agreste e da Zona-da-Mata se juntaram. Iam nos destruir.&lt;br /&gt;Sabendo disso, tivemos a idéia de construir a nossa nação na Açude Velho, mas seria muito arriscado fazer o caminho de volta. Decidimos, então, seguir, estabelecer-nos em um lugar onde não nos descobririam: no Litoral.&lt;br /&gt;Escolhemos um lugar nas mediações de Maragogi, em Alagoas (próximo à foz daquele mesmo Rio Una que nascia em São Bento do Una). O lugar era perfeito (entre Recife e Maceió) porque os cidadãos litorâneos não ligavam muito para "essas coisas dos interiores". Ali, fundamos a República Socialista de Barra Grande.&lt;br /&gt;Mas era uma questão de tempo, a Aliança montou um exército e nos achou. O que era uma Guerra Sertaneja, tornou-se numa Ilíada Litorânea. E durou tanto quanto a Ilíada, dez, vinte anos. E acabou como a maior parte das histórias dos povos oprimidos acaba: em opressão.&lt;br /&gt;Por sorte, minha família viveu. Papai tem Alzheimer, se ocupava misturando os perfumes de mamãe, hoje, nem isso mais. Mamãe, no começo, achou melhor "deixar a luta para os jovens, que não sofrem da coluna". Hoje, ela chora todos os dias, lembrando-se de antigamente. Eu acabei aqui no Litoral mesmo, ele amansa as pessoas, me amansou, mas os meus ideais são os mesmos e, qualquer dia desses, explodem, porque eu sou do povo esquentado da minha mãe, do povo valente do meu pai, das entranhas do Nordeste.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Fim&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-2971921844508580180?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/2971921844508580180/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=2971921844508580180&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2971921844508580180'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2971921844508580180'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/06/4-o-fatdico-fim.html' title='4. O fatídico fim'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-4119479821653502331</id><published>2007-06-03T09:33:00.000-07:00</published><updated>2007-08-06T13:18:48.820-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quadrilogia'/><title type='text'>3. Neocangaço</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: left;"&gt;Das guerrilhas em que nos encontramos, lembro-me de uma em especial:&lt;br /&gt;Havíamos conseguido difundir nossos ideais pelo Agreste e Sertão pernambucanos. Isso não deixou os grandes fazendeiros muito satisfeitos. Esses filhos das putas começaram a criar um movimento paralelo ao nosso, um movimento que aparentava ser popular, mas não era. Era um grupinho medíocre que se alto denominava "Neocangaço".&lt;br /&gt;Para quem acha que os cangaceiros foram os "guerrilheiros do Sertão", sinto informar: estão terrivelmente enganados. A maioria deles não passava de paus-mandados dos "coronéis", assim como esses neocangaceiros.&lt;br /&gt;Nossa cavalaria, já com cerca de sessenta pessoas, estava viajando há seis dias e estávamos chegando no final de Pernambuco, quando nos encontramos com eles. De cara, trocamos tiros. Nós nos escondemos atrás de umas pedras e eles, rindo e bebendo (eram uns quarenta), danaram-se a atirar para o alto "seus boiolas! Dêem cá suas mulheres, que é pra gente se divertir! Não se preocupem, essas putas não vão sentir nada, já tão todas abertas!". Nos entreolhamos "que patetas!", só havia uma mulher no nosso grupo: minha mãe. Acho que foi por causa disso que ela levou para o lado pessoal. Saiu de trás das pedras "venham me pegar, então, suas bichinhas!", acertou dois num só tiro e voltou a se esconder. Ofendidos, vieram com tudo para cima de onde estávamos escondidos, mas a atitude de mamãe serviu para criarmos uma emboscada, na qual eles caíram. Quando eles chegaram nas pedras, não nos viram. Havíamos nos escondido numa furna na parte lateral das pedras (sorte). Saímos dela e matamos todos pelas costas, molhando a terra seca de Bodocó de sangue, sem que nenhum de nós saísse ferido. Íamos agora ao Cariri, terra da minha mãe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Continua&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-4119479821653502331?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/4119479821653502331/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=4119479821653502331&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/4119479821653502331'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/4119479821653502331'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/06/3-neocangao.html' title='3. Neocangaço'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-2164183419324697777</id><published>2007-06-01T10:57:00.000-07:00</published><updated>2007-08-06T13:18:48.820-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quadrilogia'/><title type='text'>2. A fazenda</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: left;"&gt;Minhas lembranças da fazenda Açude Velho vão até os meus dezessete anos, que foi quando eu saí de lá.&lt;br /&gt;A fazenda tinha o solo mais pedregoso que poderia ter e não tínhamos dinheiro para a criação de gado (por causa de vovô). Foi aí que papai, homem cheio de ideais, pensou que se "eu estou preso à terra, tenho que mudá-la", ele decidiu que iria transformar o solo. Trancava-se e passava dias numa casinha de pescador em frente ao velho açude - que já não era mais açude, pois secara - que dava nome à fazenda, conduzindo experiências científicas - também cheias de misticismo, astrologia e "aquelas coisas de mágico" -, enquanto eu e mamãe nos alimentávamos de insetos.&lt;br /&gt;"É um doido!", mamãe repetia, mas a doidice de papai chegou longe e ele conseguiu. Não usávamos sua fórmula apenas na nossa fazenda, exportávamos para os usineiros da Zona-da-Mata, para aqueles mercenários aumentarem suas produções. Vendemos muito.&lt;br /&gt;Éramos muito ingênuos. Éramos, até papai entrar em contato com a literatura marxista (e socialista, em geral). Depois, ele pesquisou sobre as condições dos trabalhadores da cana-de-açúcar e não parou... enfurnou-se em sua casinha de pescador por uma longa temporada e só saía para nos mostrar os seus livros favoritos, e nós os líamos.&lt;br /&gt;Paramos de exportar para aqueles porcos capitalistas. Com a pequena fortuna que papai acumulara, empreendemos uma viagem pelo Sertão e criamos o PSS, Partido Socialista Sertanejo (que não era, verdadeiramente, um partido, éramos, apenas nós três e uns funcionários da fazenda).&lt;br /&gt;Jovem, e fã de Guevara e Cienfuegos, esperava me encontrar em guerrilhas como as que derrubaram Fulgêncio. De fato, nos encontramos em algumas, mas, particularmente, não as achei agradáveis, embora tenham sido heróicas e até líricas.&lt;br /&gt;Mamãe achava aquilo tudo uma bobagem. Não o Socialismo (não a entendam mal, ela o adorava) e, sim, "um velho como o seu pai querendo dar uma de cavaleiro dos oprimidos".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Continua&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-2164183419324697777?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/2164183419324697777/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=2164183419324697777&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2164183419324697777'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2164183419324697777'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/06/2-fazenda.html' title='2. A fazenda'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-1252109681004446641</id><published>2007-05-30T14:31:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:50:23.051-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quadrilogia'/><title type='text'>1. Genealogia</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: left;"&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Que também leu A Pedra do Reino&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;Meu sangue por parte de mãe vem do Sertão do Cariri. Mamãe viveu ali pelo Crato, Juazeiro do Norte, Barbalha. É uma família esquentada pelo Sol do Sertão cearense, que é o mais quente de todos os Sóis do Mundo.&lt;br /&gt;Os pais de mamãe eram, os dois, ativistas políticos, socialistas ferrenhos. Vovó era poetisa e, durante um ato de terrorismo poético, os dois foram presos. Eles estavam pichando uma poesia de vovó no muro da prefeitura de Barbalha:&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;"Nas entranhas das cidades,&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nas veredas do Sertão&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nasce forte, a igualdade&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;Nasce a revolução"&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Ambos morreram na prisão. Mamãe foi morar com José Messias, um economista amigo dos meus avós.&lt;br /&gt;Um dia, numa feira, julgando ser perseguido, José escondeu mamãe, já com dezoito anos, mas muito medrosa, na caçamba de uma caminhonete. Quando voltou, ela não estava mais lá.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="text-align: left;"&gt;    Meu sangue por parte de pai vem de São Bento do Una, onde fica a nascente do Rio Una, nos confins do Agreste.&lt;br /&gt;Vovó morreu dando a luz a papai. Vovô cavou, ele mesmo, o túmulo de vovó, o que provou as duas coisas por que ele era conhecido: sua coragem e sua pão-durice.&lt;br /&gt;A prova maior de que vovô era valente mesmo, foi o fato de ele ter pegado o chapéu de um dos cangaceiros de Lampião. Hoje, esse chapéu teria um valor histórico inestimável (ao meu ver), se vovô não tivesse feito-o em picadinhos depois de uma cachaça com os amigos.&lt;br /&gt;Vovô trabalhava numa vendinha. Uma vez, ele chegou da feira de Juazeiro com algo mais que uma mercadoria: uma mulher, que estava escondida na caçamba da sua caminhonete, ela passaria a ser a mulher com quem papai viveu o resto da vida: minha mãe.&lt;br /&gt;A mão fechada e a vendinha conceberam a vovô uma quantidade razoável de dinheiro. Um dia, ele endoidou, pegou esse dinheiro e saiu mundo afora. Foi encontrado morto, nu e sem nenhum tostão num canavial perto de Pombos.&lt;br /&gt;No seu testamento, ele nos deixava apenas uma fazenda, de cuja existência nem sabíamos. Era o que nos restava, mudamo-nos para lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Continua&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-1252109681004446641?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/1252109681004446641/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=1252109681004446641&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1252109681004446641'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1252109681004446641'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/05/1-genealogia.html' title='1. Genealogia'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-4005410978100932837</id><published>2007-05-30T14:26:00.000-07:00</published><updated>2007-08-06T13:18:48.821-07:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quadrilogia'/><title type='text'>Bem...</title><content type='html'>Para acabar definitivamente com o meu recesso, eu criei uma "Quadrilogia Sertaneja".&lt;br /&gt;Está pronta: "Genealogia", "A fazenda", "Neocangaço" e "O fatídico fim".&lt;br /&gt;Postarei agora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-4005410978100932837?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/4005410978100932837/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=4005410978100932837&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/4005410978100932837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/4005410978100932837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/05/bem.html' title='Bem...'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-2719105750005658322</id><published>2007-05-20T14:41:00.000-07:00</published><updated>2008-08-01T11:18:32.774-07:00</updated><title type='text'>hoje, eu sonhei que papai era Charles Chaplin</title><content type='html'>Mas isso não quer dizer que Chaplin era meu pai no sonho.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-2719105750005658322?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/2719105750005658322/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=2719105750005658322&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2719105750005658322'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2719105750005658322'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/05/hoje-eu-sonhei-que-papai-era-charles.html' title='hoje, eu sonhei que papai era Charles Chaplin'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-2490670251568651650</id><published>2007-05-15T08:59:00.000-07:00</published><updated>2008-08-01T11:17:47.554-07:00</updated><title type='text'>...</title><content type='html'>Não é difícil ser eu. Difícil é ser uma criancinha africana subnutrida.&lt;br /&gt;Chato é saber que, se eu não posso resolver metade dos meus probleminhas "pequeno-burgueses", eu não posso resolver os problemas maiores.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Espero que a cabeça do psicólogo seja a mais bagunçada.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-2490670251568651650?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/2490670251568651650/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=2490670251568651650&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2490670251568651650'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/2490670251568651650'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/05/blog-post.html' title='...'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-6834905518880325224</id><published>2007-04-30T12:11:00.000-07:00</published><updated>2008-08-01T11:17:47.555-07:00</updated><title type='text'>Sangue e sabonete</title><content type='html'>Não existe, para mim, nada mas difícil do que escrever sobre mim mesmo. Os conflitos desgastados da adolescência e os temas dos meus textos são prova irrefutável da minha previsibilidade.&lt;br /&gt;Enquanto eu espero por uma luz, contento-me com ter achado interessante ter-me cortado raspando o meu "projeto de barba", lavado meu rosto com sabonete e ter me deliciado com mistura de cores.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-6834905518880325224?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/6834905518880325224/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=6834905518880325224&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6834905518880325224'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6834905518880325224'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/04/sangue-e-sabonete.html' title='Sangue e sabonete'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-5429294057435718428</id><published>2007-04-20T11:23:00.001-07:00</published><updated>2011-12-04T19:52:10.200-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quo'/><title type='text'>sete céticos satânicos ou: "quase uma aula sobre ceticismo"</title><content type='html'>A Lia,&lt;div&gt;Menos cética do que eu&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;DAMIÃO: Sou cético, não acredito em Deus.&lt;br /&gt;SINVAL: Mas cético não é quem não acredita em Deus, é quem duvida de sua existência ou duvida, simplesmente, de qualquer coisa. Você é um pseudo-cético, que segue o princípio da negação.&lt;br /&gt;FURTADO: Tem certeza?&lt;br /&gt;SINVAL: Eu não tenho certeza de nada.&lt;br /&gt;MENDES: Nem eu.&lt;br /&gt;CÍCERO: Nem eu.&lt;br /&gt;ISMAEL: Nem eu. Ou tenho?&lt;br /&gt;SOBRAL: Bem, eu acho que a gente deveria sentar e conversar sobre isso. Fazer perguntas a nós mesmos!&lt;br /&gt;SINVAL: Esse é o espírito (dos céticos)!&lt;br /&gt;DAMIÃO: Eu também não acredito em espíritos.&lt;br /&gt;TODOS OS OUTROS: Cala a boca, pseudo-cético!&lt;br /&gt;CÍCERO: Podíamos, todos, acreditar no Diabo. Eu duvido muito de Deus, ele mente demais. Onde já se viu: 40 dias e 40 noites de chuva. Que absurdo! Quero provas concretas! Sou um cético científico!&lt;br /&gt;ISMAEL: Podemos acreditar no Diabo?&lt;br /&gt;CÍCERO: Sim! É só continuar duvidando.&lt;br /&gt;MENDES: Por mim, está bom. Não quero ficar nesse cotidiano lenga-lenga e água-com-açúcar. Quero perguntas novas. É pelo meio da dúvida e do desconhecido que eu Saberei (com letra maiúscula, mesmo). Sou um cético filósofo.&lt;br /&gt;FURTADO: Por mim está bom também.&lt;br /&gt;DAMIÃO: Por mim, não.&lt;br /&gt;TODOS OS OUTROS: Então saia, pseudo-cético.&lt;br /&gt;DAMIÃO: Ah, está bem, eu aceito.&lt;br /&gt;E foram todos venerar o Satã, ou duvidar dele, ou fazer aquelas coisas que só as caricaturas de céticos fazem (se é que existem outras).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Texto metido e sem graça.&lt;br /&gt;Ha, como se eu me importasse... (sou metido)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ps.: Eu não sou adorador do Diabo, nem de Deus. Sou cético (acho).&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-5429294057435718428?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/5429294057435718428/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=5429294057435718428&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/5429294057435718428'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/5429294057435718428'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/04/sete-cticos-satnicos-ou-quase-uma-aula.html' title='sete céticos satânicos ou: &quot;quase uma aula sobre ceticismo&quot;'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-3677230168136924837</id><published>2007-04-14T14:10:00.000-07:00</published><updated>2008-08-01T11:17:47.555-07:00</updated><title type='text'>clorofilado...</title><content type='html'>&lt;a href="http://3.bp.blogspot.com/__GGPrtc7fOQ/RiFR5GKnGWI/AAAAAAAAABA/ZknsISj413A/s1600-h/liquid_chlorophyll.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5053410298235918690" style="DISPLAY: block; MARGIN: 0px auto 10px; CURSOR: hand; TEXT-ALIGN: center" alt="" src="http://3.bp.blogspot.com/__GGPrtc7fOQ/RiFR5GKnGWI/AAAAAAAAABA/ZknsISj413A/s320/liquid_chlorophyll.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;...para fazer a fotossíntese.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Ao menos é isso que eu acho.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Ontem, eu tomei um suco de alfafa (concentrado de clorofila). É uma substância verde com cheiro de hortelã, sem gosto de nada e que pesa a barriga. Diz na embalagem que é saudável. Se aquela sensação que eu senti é saudável, prefiro comer donnuts o resto da vida e morrer dos males do coração. Eu tomei apenas dois goles e caí no sofá sem poder me levantar. Bernardo, meu irmão, que tomou dois copos, chegou a ver Smurfs.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Na embalagem dizia: Não contém quantidades significativas de valor energético, carboidratos, açúcares, proteínas, gorduras totais, gorduras saturadas, gordura trans, fibra alimentar e sódio.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Na minha concepção: Não tinha gosto.&lt;/div&gt;&lt;div&gt;E o pior de tudo não é isso. Diz na embalagem que é "O produto mais vendido do Mundo". Mentira deslavada.&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;&lt;div&gt;Hoje à tarde, depois do colégio, caminhei sob sol infernal do Recife, esperando fazer a fotossíntese (afinal, que outro uso a clorofila tem?), mas, a medida em que eu andava, mais fome eu sentia.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-3677230168136924837?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/3677230168136924837/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=3677230168136924837&amp;isPopup=true' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/3677230168136924837'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/3677230168136924837'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/04/clorofilado.html' title='clorofilado...'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://3.bp.blogspot.com/__GGPrtc7fOQ/RiFR5GKnGWI/AAAAAAAAABA/ZknsISj413A/s72-c/liquid_chlorophyll.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-444827269797525605</id><published>2007-04-11T14:40:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:53:15.054-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='R.-F.'/><title type='text'>até parar...</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;A quem eu gravei um CD de Belle and Sebastian em 2006&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;- Olha, se eles lhe perseguirem, não olhe pra trás. Não é do seu dinheiro que eles estão atrás, é de você.&lt;br /&gt;O homem paranóico sai em desespero, passa pelo século dezoito, atordoado:&lt;br /&gt;- Que som é esse na minha cabeça?&lt;br /&gt;Um proletário:&lt;br /&gt;- Consciência?&lt;br /&gt;- Não, não é isso. É o som das... máquinas, das peças.&lt;br /&gt;- E qual é a diferença?&lt;br /&gt;Sente pavor e corre. Pula e está no inferno, cai e está no céu. Para numa cafeteiria e pergunta à garçonete:&lt;br /&gt;- Quanto é um café, por favor?&lt;br /&gt;- É do mesmo preço de uma xícara de chá.&lt;br /&gt;- Que é...?&lt;br /&gt;- Um e cinquenta, senhor, assim como a xícara de chá.&lt;br /&gt;- Certo, mas eu quero café.&lt;br /&gt;- Certo, quantas xícaras?&lt;br /&gt;- Duas.&lt;br /&gt;- De café ou chá?&lt;br /&gt;- CAFÉ!&lt;br /&gt;- Ok, é que você pediu xícara...&lt;br /&gt;Ela corre e volta depois com as xícaras.&lt;br /&gt;- Muito obrigado, moça.&lt;br /&gt;- Obrigado, não, são três reais...&lt;br /&gt;Ele tira três reais do bolso.&lt;br /&gt;- ... e a gorjeta.&lt;br /&gt;- Mas você é catastrófica, não faz nada certo!&lt;br /&gt;- Mas você agradeceu, então gostou.&lt;br /&gt;Desgostoso, tira mais um real do bolso e, depois, leva a xícara à boca.&lt;br /&gt;...&lt;br /&gt;- Me tira daqui, eu tô morrendo!&lt;br /&gt;- Pode ser que esteja, está até no hospital.&lt;br /&gt;O homem paranóico se levanta de uma maca gritando para o médico:&lt;br /&gt;- O que houve?!&lt;br /&gt;- Bem... você tomou chá com leite de tigre. Faz bastante mal.&lt;br /&gt;- Chá? Mas eu pedi café...&lt;br /&gt;- Certo, certo. Entre no meu escritório e vamos discutir isso.&lt;br /&gt;O paranóico concorda, segue o médico, mas, no meio do caminho, volta-se e corre. Sai. Vê uma mulher pintando a linha da estrada. Corre pela estrada, repetindo:&lt;br /&gt;- Eu sou um cuco, eu sou um cuco, eu sou um cuco...&lt;br /&gt;E corre até parar num texto nonsense baseado em músicas de Belle and Sebastian.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-444827269797525605?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/444827269797525605/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=444827269797525605&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/444827269797525605'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/444827269797525605'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/04/olha-se-eles-lhe-perseguirem-no-olhe.html' title='até parar...'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-5438702508772431508</id><published>2007-04-02T14:46:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:54:35.223-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='R.-F.'/><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quo'/><title type='text'>diálogo de um homem com Deus</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Que é morrer e ir ao céu&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Jorge morre.&lt;br /&gt;Está no céu. É um cenário esquisito, com estrelas que parecem terem sido pintadas à mão por crianças. É bem fajuto. Depois de reparar aquilo tudo, vê Deus de braços abertos olhando para ele. Deus é bem normal: camisa flanela xadrez, calça jeans, cara lisinha; fala:&lt;br /&gt;- Bem vindo, Jorge! Sou Deus.&lt;br /&gt;Jorge olha em volta, não muito impressionado:&lt;br /&gt;- E onde estão as mulheres, o jardim, tudo? Isso não é o paraíso?&lt;br /&gt;- Ah, aquilo... Bem, depois nós resolvemos isto. Você está aqui porque eu resolvi me apresentar a cada um que passa por aqui. Sabe, né? As pessoas na Terra não me conhecem e ficam falando de mim. Resolvi que a única pessoa que fala de mim sou eu mesmo e que as pessoas tinham que me conhecer melhor. Então, pergunte qualquer coisa.&lt;br /&gt;- Qualquer coisa?&lt;br /&gt;- Qualquer coisa.&lt;br /&gt;Jorge sorri:&lt;br /&gt;- Qual é o sentido da...&lt;br /&gt;- Bem, exceto isso, é confidencial. Você diria aos seus amigos, que diriam aos amigos dos seus amigos - ia ser uma confusão -, iam me chamar para esclarecer tudo. E se você descobrir qual é, eu terei que lhe matar.&lt;br /&gt;- Mas eu já estou morto.&lt;br /&gt;- Mas eu sou Deus.&lt;br /&gt;Sorri irônicamente. Passam um tempo calados e a situação constrangedora é quebrada por Jorge, que comenta:&lt;br /&gt;- Engraçado... pensei que você tivesse barba.&lt;br /&gt;- É... tinha, mas dava trabalho. Um pedaço de ovo ficou preso nela por uns dias e eu só senti quando fedeu. Resolvi tirar, então.&lt;br /&gt;- Hum... e o que você faz no seu tempo livre?&lt;br /&gt;- Bem, eu criei o tempo - não é mesmo? -, então eu faço o que eu quiser à qualquer hora, mas o que eu gosto mais é de rever os fatos históricos e mudá-los um pouquinho. Sabe como é? Bem, é claro que não. Vou lhe mostrar.&lt;br /&gt;O fundo estrelado dá lugar ao III Reich. Hitler discursa em frente a militares. Um detalhe é que ele está nu. Deus rola de rir, Jorge, pasmo, não fala nada, acabara de ver a bunda do maior ditador do século XX e era tão grande quanto sua reputação. Deus se recompõe e conclui:&lt;br /&gt;- Espero ter esclarecido tudo.&lt;br /&gt;- E como. Só tem uma coisa...&lt;br /&gt;- Sim....&lt;br /&gt;- Eu fui a pior pessoa do mundo: traí minha mulher, não dei valor a nenhum dos meus filhos espalhados pelo mundo, desprezei todos e fui ganancioso. Porque eu estou no céu?&lt;br /&gt;- Ah, é claro! Quase que ia esquecendo! Eu não sou Deus, sou o Diabo, e você está no inferno, não no céu.&lt;br /&gt;O fundo estrelado fica vermelho, Jorge grita desesperado, pega fogo e desaparece. O Diabo sorri:&lt;br /&gt;- Ai, como os humanos são facilmente enrolados... é claro que Deus tem barba.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-5438702508772431508?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/5438702508772431508/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=5438702508772431508&amp;isPopup=true' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/5438702508772431508'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/5438702508772431508'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/04/dilogo-de-um-homem-com-deus.html' title='diálogo de um homem com Deus'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-3864546933782117890</id><published>2007-03-25T08:52:00.000-07:00</published><updated>2008-09-21T13:16:04.307-07:00</updated><title type='text'>crônica de uma morte anunciada...</title><content type='html'>Após ter recentemente lido "Crônica de uma morte anunciada" (Gabriel García Márquez, 1981), percebi que esses meus textos toscos que eu categorizava, na minha cabeça, como crônicas (ou, talvez, contos) são tristes (de ruins).&lt;br /&gt;Por esse evento e a crescente decadência do meu blog (algo inédito, porque, para se estar em decadência, deveria-se ter estado no ápice antes), "anuncio" o fechamento permanente, até última ordem (paradoxal, não?), da já finada sessão de crônicas e passarei a falar, exclusivamente, dos nada-excitantes acontecimentos da minha vida de terceiro-anista e do que eu acho que o Brasil tem de melhor (que era o meu objetivo primário, mas são escassas as coisas boas no Brasil, então eu desisti).&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-3864546933782117890?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/3864546933782117890/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=3864546933782117890&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/3864546933782117890'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/3864546933782117890'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/03/crnicas-de-uma-morte-anunciada.html' title='crônica de uma morte anunciada...'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-8263501056825983083</id><published>2007-03-19T10:02:00.000-07:00</published><updated>2008-08-01T11:17:47.556-07:00</updated><title type='text'>hep</title><content type='html'>De uns tempos pra cá, eu percebi que eu manti uma estranha relação com um porteiro de um dos prédios. É bem rápida e trivial. Eu estou passando pela rua e, nem eu, nem ele, olhamos um para o outro, quando eu cruzo com ele, simultaneamente dizemos: "Hep"; e imprimimos um sinal de legal que dura poucos segundos. É um som fechado e rápido: "Hep".&lt;br /&gt;Eu realmente não sei como aconteceu, se fui eu quem disse o primeiro "hep", ou se foi ele. Só que isso está acabando comigo. Eu sinto uma agonia enorme de ter que passar e dizer "hep", mas é inevitável, todos os os ônibus em que eu volto da escola me levam a esse caminho.&lt;br /&gt;Aposto que ele se sente da mesma forma, mas só pararemos de dizer "hep" quando um de nós sairmos dessa região. Maldita simpatia brasileira, me mata aos poucos. Tem gente que está fora e sente falta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-8263501056825983083?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/8263501056825983083/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=8263501056825983083&amp;isPopup=true' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/8263501056825983083'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/8263501056825983083'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/03/hep.html' title='hep'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-351506011794540522</id><published>2007-03-16T13:15:00.000-07:00</published><updated>2011-12-04T19:55:09.391-08:00</updated><category scheme='http://www.blogger.com/atom/ns#' term='Quo'/><title type='text'>filosofia de botequim</title><content type='html'>&lt;div&gt;A Lia,&lt;/div&gt;&lt;div&gt;Que quase sempre ficava em casa quando eu ia ao botequim&lt;/div&gt;&lt;div&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;Alguns amigos reunidos num botequim estão bebendo e discutindo. Eles têm uns quarenta e poucos anos.&lt;br /&gt;Um, de cabelo grisalho, é o que fala mais alto (deve estar bêbado). Ele se levanta com o copo na mão, gritando o mais alto possível:&lt;br /&gt;- Eu só tenho certeza de uma coisa: que Jorge é tão bicha que até Cauby Peixoto fala das roupas dele.&lt;br /&gt;Aponta pra Jorge, que está usando uma camisa rosa com detalhes em prata que ganhou da filha. Jorge, vermelho, prepara uma resposta ao nível (ou mais baixa). O homem do lado esquerdo de Jorge, franzino e de óculos (olhar meio nerd), diz calmamente:&lt;br /&gt;- A morte é a única certeza.&lt;br /&gt;Todos viram para ele repentinamente. O cara de cabelo grisalho diz:&lt;br /&gt;- Mas para quem não viveu (fala isso meio irônico, olhando fixamente para o magrinho), a morte não faz sentido.&lt;br /&gt;- "Vida" talvez não seja o que você acha que é...&lt;br /&gt;- É felicidade e liberdade de fazer o que eu quero.&lt;br /&gt;- O que é felicidade pra você, Fernando?&lt;br /&gt;- É um copo de cerveja... (ri e olha para todos com as mãos para o alto) não é, rapazes? (todos riem) Se ela acaba, eu encho de novo e vivo de novo, Odair.&lt;br /&gt;Se senta e termina o seu copo de cerveja. A face de Odair se enche de raiva e ele estoura, se levantando, suando e gritando:&lt;br /&gt;- Se isso é vida pra você, se essa é a felicidade, fico contente em saber que sou imortal e que te verei morrer, desgraçado!&lt;br /&gt;- Que venha a morte! Vivi, vi de tudo, só o que espero é a "não-esperada".&lt;br /&gt;- Você se acha tão superior!&lt;br /&gt;- Sou mesm...&lt;br /&gt;Fernando solta um grito de dor e pega no peito. Tremendo e caindo no chão, grita para o céu:&lt;br /&gt;- Não me leva agora! Eu não tô preparado!&lt;br /&gt;Cai morto no chão. Todos se aquietam, espantados. Odair se acalma, senta-se e termina a cerveja calmamente. No auge do constrangimento da situação, Jorge levanta a cabeça triunfante, falando alto:&lt;br /&gt;- Não foi isso que a tua mãe me disse na cama, Fernandão!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-351506011794540522?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/351506011794540522/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=351506011794540522&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/351506011794540522'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/351506011794540522'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/03/filosofia-de-botequim.html' title='filosofia de botequim'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-5957477261120015494</id><published>2007-03-13T16:23:00.000-07:00</published><updated>2008-08-01T11:17:47.556-07:00</updated><title type='text'>geral...</title><content type='html'>Esse blog é extremamente falido. Não só por falta de divulgação, mas também por falta de assuntos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quinta, eu dilatei a pupila. Fiquei com ela dilatada até Sexta. Não foi muito agradável. Vez ou outra eu esquecia que estava e andava na luz. Um clarão incendiava os meus olhos. Andei da parada até em casa quase de olhos fechados, não dava pra ver nada. Uns três postes e quatro tropeções depois, cheguei direitinho em casa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o título do blog: Não é um diário, já que eu não posto diariamente e nem pretendo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ah! Apesar de tudo, recebi uma "citação" no blog de Leo (&lt;a href="http://www.omagicomorreu.blogspot.com"&gt;www.omagicomorreu.blogspot.com&lt;/a&gt;).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É isso.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-5957477261120015494?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/5957477261120015494/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=5957477261120015494&amp;isPopup=true' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/5957477261120015494'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/5957477261120015494'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/03/geral.html' title='geral...'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-1165161994672988490</id><published>2007-03-09T15:16:00.000-08:00</published><updated>2008-06-26T09:56:10.377-07:00</updated><title type='text'>graças...</title><content type='html'>Lugar da mais refinada boemia do Recife...&lt;br /&gt;Há tempos não vou lá. Figuras interessantíssimas compõem o bairro... Uma, em particular, sempre me chama a atenção: Irmão.&lt;br /&gt;Irmão é o dono do Recife. Caminha por aí, sem rumo, com a sua respeitosa camisa na cabeça. Poliglota, filósofo, cantor, boêmio. Já falou comigo em árabe. "absalá, balolé, dodá".&lt;br /&gt;Cigano, sempre que você pergunta aonde ele vai, a mesma resposta:&lt;br /&gt;- Pra "lá".&lt;br /&gt;Aponta na direção de um dos pontos cardeais, colaterais ou subcolaterais com um sorriso estampado no rosto.&lt;br /&gt;Sempre que você o saúda, ele responde:&lt;br /&gt;- Olá, meu jovem (independente da sua idade).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Seu senso de humor e seus nervos à flor da pele são suas maiores qualidades, suas palavras não são nem um pouco articuladas (o compararia com Otto que, em shows, fala coisas do tipo: "Quando cheguei no Recife, essas árvores, isso me lembra... ãh. Vamos tocar!”).&lt;br /&gt;Seu olhar de quando pede uma fruta só não é mais impagável do que o de quando a recebe. Quando bêbado, seus discursos são mais quilométricos do que os de Fidel (nunca o vi sóbrio, ou ele sempre esteve sóbrio, mas eu não sabia).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da última vez que fui às Graças, encontrei-o, com a sua camisa, seu andar leve, sorriso maroto. Nos viu no Quiosque Frio (sorveteria). Veio em minha direção e do meu amigo, Dino, já dizendo: "Olá, meus jovens"; nesse momento, Cícero (homem que já acreditou na ciência, hoje acredita na fé), atendente da sorveteria, o impediu. Irmão, raivoso, grita, sem dó:&lt;br /&gt;- Seu sacana! Eu tenho o meu direito.&lt;br /&gt;- Por favor, irmão, saia. Você sabe o dono não gosta de você aqui.&lt;br /&gt;- Te odeio. Te odeio (já quase chorando)! Adeus, jovens.&lt;br /&gt;E saiu pela rua das Graças, andando "pra 'lá'".&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-1165161994672988490?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/1165161994672988490/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=1165161994672988490&amp;isPopup=true' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1165161994672988490'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1165161994672988490'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/03/graas.html' title='graças...'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-1108612763202958384</id><published>2007-03-07T16:44:00.001-08:00</published><updated>2008-07-31T17:51:53.856-07:00</updated><title type='text'>num ônibus, dia desses...</title><content type='html'>Dois favelados, com pinta de paga-pau-de-galeroso, muito engraçados e desajeitados.&lt;br /&gt;Um era gordinho, negro, mais alto, tinha um "buço" de pré-adolescente (apesar de sua estatura indicar 16 anos, ou mais) e a atitude de "chefe" perante ao outro. O outro, por sua vez, era mais magro (chupado) e bem mais claro (moreno). Quando os vi sentados ao fundo do ônibus se batendo para ver o movimento pela janela, fiquei interessado, fui logo sentar ao lado.&lt;br /&gt;O mais magro bate no ombro do outro, olhando pela janela e apontando um muro:&lt;br /&gt;- Esse "Cabeção" é o mesmo que picha no Ibura?&lt;br /&gt;- Pô, se for, eu tô ligado quem é, mas a área dele não é aqui, não. E essa detona não parece a dele.&lt;br /&gt;- Parece a de Toni (não me lembro o nome que disseram, por isso inventei agora).&lt;br /&gt;- Oxe. Aquela detona é muito estigada.&lt;br /&gt;- E então.&lt;br /&gt;Conversaram um tempo sobre quem picha aonde e fingiram, um para o outro (não sei porque), serem "chegados" dos pichadores.&lt;br /&gt;O mais curioso é que eles gritavam para qualquer pessoa que passava do lado do ônibus, algo como: "Ói"; só que o som parecia com um grunhido de porco. "Óóóii". E pareciam se divertir com isso. Viram uma pichação "Shevchenko", falaram de "Uingueléven" (Winning Eleven):&lt;br /&gt;- Fiz um gol na Inglaterra com Fumagalli. E então, papai!&lt;br /&gt;Gritaram "Ói" para muitas pessoas, cantaram músicas de brega, elogiaram as bundas de mulheres várias vezes.&lt;br /&gt;Chegou minha parada.&lt;br /&gt;Desci, fui pra perto da janela deles e gritei:&lt;br /&gt;- Ói!&lt;br /&gt;Vacilaram por um tempo, sem acreditar que algo que eles falaram podia até ser popular. Sorriram. Pularam dos seus assentos e, uníssonos, gritaram, euforicamente e dançando:&lt;br /&gt;- Ói! Óóóóóiiiii!&lt;br /&gt;O sinal estava fechado para o ônibus, aberto para mim. Passei pela faixa, andei até longe. Acompanhando o meu caminho, mudaram de janela, ainda dançando e gritando para mim animadíssimos:&lt;br /&gt;- Óóóóóiiiiiiiii!&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-1108612763202958384?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/1108612763202958384/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=1108612763202958384&amp;isPopup=true' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1108612763202958384'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/1108612763202958384'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/03/num-nibus-dia-desses.html' title='num ônibus, dia desses...'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-8609971760883952519</id><published>2007-03-07T16:18:00.000-08:00</published><updated>2008-06-26T09:56:10.379-07:00</updated><title type='text'>sobre os fuscas verdes e a minha mania doentia</title><content type='html'>Até essas férias, eu não conhecia a brincadeira - acho que não é coisa de Nordestino, já que veio junto com a minha prima carioca.&lt;br /&gt;Funciona assim: Toda vez que você vê um fusca verde, dê um beliscão na pessoa ao lado e diga "fusca verde".&lt;br /&gt;O problema é que eu passei a ter uma certa obsessão a respeito disto. Não consigo parar. Comentei hoje, inconscientemente, inclusive: "é impressão minha, ou há bem mais fuscas no Recife nesses últimos tempos"? É claro que isso não é verdade, afinal, o último fusca foi fabricado em 2003, no México.&lt;br /&gt;Cheguei ao cúmulo de enganar a mim mesmo, vendo um fusca que era, claramente, azul-esverdeado e beliscando a pessoa vizinha.&lt;br /&gt;Um dia, eu esperei meu irmão na chuva para dar um "fusca verde" nele. Foi doentio, mas valeu à pena.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-8609971760883952519?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/8609971760883952519/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=8609971760883952519&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/8609971760883952519'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/8609971760883952519'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/03/sobre-os-fuscas-verdes-e-minha-mania.html' title='sobre os fuscas verdes e a minha mania doentia'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-7999563663035250521.post-6812240483355601101</id><published>2007-03-04T17:09:00.000-08:00</published><updated>2008-09-21T13:18:47.703-07:00</updated><title type='text'>só pra ter um motivo</title><content type='html'>Os sofríveis avanços tecnológicos e a suposta "globalização" não parecem ser suficientes para conter as saudades dos que estão fora do país tropical. A busca incessante dos intercambiados (porque muitos não queriam, realmente, sair) por se manter em contato com o Brasil não parece suficiente.&lt;br /&gt;Os blogs parece que foram a melhor solução para os que fazem intercâmbio. É simples e evita ter que repetir para várias pessoas as novidades.&lt;br /&gt;Sem circunlóquios, digo logo que eu não tenho "novidades" ou coisas diferentes no meu blog, ele é mais um modo de fazer inveja à quem está longe e de expressar minhas impressões que estão longe de serem interessantes ou inteligentes. A base do blog é o cinismo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Àqueles que estão fora, tenham saudades da terra maravilhosa.&lt;br /&gt;Àqueles que estão "no Brasil mesmo", não esperem muita coisa, mas entrem, mesmo assim.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/7999563663035250521-6812240483355601101?l=nobrasilmesmo.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/feeds/6812240483355601101/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=7999563663035250521&amp;postID=6812240483355601101&amp;isPopup=true' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6812240483355601101'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/7999563663035250521/posts/default/6812240483355601101'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://nobrasilmesmo.blogspot.com/2007/03/os-sofrveis-avanos-tecnolgicos-e.html' title='só pra ter um motivo'/><author><name>Misael Montenegro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/16333855902228181236</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='32' height='18' src='http://bp0.blogger.com/__GGPrtc7fOQ/RhGgEHqhliI/AAAAAAAAAAw/OudZVSjp5tQ/s320/nova.JPG'/></author><thr:total>3</thr:total></entry></feed>
